sábado, 8 de agosto de 2015

A Viagem do Cristão para a bem-aventurança eterna por um dos seus companheiros [Pilgrim’s Progress de John Bunyan (1628-1688)] - Traduzido por Robert Reid Kalley(1809-1888)



A Viagem do Cristão

para a bem-aventurança eterna por um dos seus companheiros

[Pilgrim’s Progress de John Bunyan (1628-1688)]

Traduzido por Robert Reid Kalley(1809-1888)

ORIGINALMENTE PUBLICADO EM:
CORREIO MERCANTIL, Rio de Janeiro-RJ, DOMINGO, 5 DE OUTUBRO DE 1856,
CORREIO MERCANTIL, Rio de Janeiro-RJ, TERÇA-FEIRA, 7 DE OUTUBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, Rio de Janeiro-RJ, SEXTA-FEIRA, 10 DE OUTUBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, Rio de Janeiro-RJ, DOMINGO, 12 DE OUTUBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, Rio de Janeiro-RJ, TERÇA-FEIRA, 14 DE OUTUBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, QUINTA-FEIRA, Rio de Janeiro-RJ, 16 DE OUTUBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, DOMINGO, Rio de Janeiro-RJ, 19 DE OUTUBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, QUARTA-FEIRA, Rio de Janeiro-RJ, 22 DE OUTUBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, SEXTA-FEIRA, Rio de Janeiro-RJ, 24 DE OUTUBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, DOMINGO, Rio de Janeiro-RJ, 26 DE OUTUBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, TERÇA-FEIRA, Rio de Janeiro-RJ, 28 DE OUTUBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, QUINTA-FEIRA, Rio de Janeiro-RJ, 30 DE OUTUBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, SÁBADO, Rio de Janeiro-RJ, 1 DE NOVEMBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, QUINTA-FEIRA, Rio de Janeiro-RJ, 6 DE NOVEMBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, DOMINGO, Rio de Janeiro-RJ, 9 DE NOVEMBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, TERÇA-FEIRA, Rio de Janeiro-RJ, 11 DE NOVEMBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, SEXTA-FEIRA, Rio de Janeiro-RJ, 14 DE NOVEMBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, Rio de Janeiro-RJ, QUINTA-FEIRA, 20 DE
NOVEMBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, DOMINGO, Rio de Janeiro-RJ, 23 DE NOVEMBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, QUINTA-FEIRA, Rio de Janeiro-RJ, 27 DE NOVEMBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, DOMINGO, Rio de Janeiro-RJ, 30 DE NOVEMBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, QUARTA-FEIRA, Rio de Janeiro-RJ, 3 DE DEZEMBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, SEGUNDA-FEIRA, Rio de Janeiro-RJ, 8 DE DEZEMBRO DE 1856
CORREIO MERCANTIL, TERÇA-FEIRA, Rio de Janeiro-RJ, 9 DE DEZEMBRO E QUARTA-FEIRA, 10 DE DEZEMBRO DE 1856
SEÇÃO “PUBLICAÇÕES A PEDIDO
DISPONÍVEL: http://memoria.bn.br (BIBLIOTECA NACIONAL) 


CAPÍTULO I. 

Quando a alma percebe que tem escandalizado a Deus, mesmo pelo pecado, principia a temer, e sente-se oprimida e vil. As palavras do Evangelho lhe dão luz, guiando-a ao Salvador. 

Quando eu viajava pelo deserto deste mundo, cheguei a um lugar onde havia uma caverna. Deitei-me nela para tomar algum descanso; e estando a dormir vi, em sonhos, um homem vestido com (a) trapos sujos e rotos. Ele estava em pé, com as costas voltadas para a sua casa; tinha um (b) livro na mão, e estava (c) carregado com um fardo mui pesado. Observei que ele abria o livro, e que lia; então principiou a tremer e chorar, até que, no auge da sua aflição, gritou com um tom da maior miséria: “Ai, ai, ai de mim! Que hei de fazer?” 

     Neste estado voltou para sua casa, e esforçou-se, quanto lhe for possível, para que sua mulher e seus filhos não reparassem na sua tristeza; mas como esta argumentava mais e mais, não pôde conter-se, e descobriu-lhes o que tinha no coração, falando desta sorte: “Minha querida mulher e vós, meus caros filhos, eu sou muito miserável, e até perdido por este peso terrível que sempre está sobre mim: e tenho informação, de que não se pode duvidar, que esta cidade em que moramos vai ser abrasada pelo fogo do céu; e que uns e outros, eu e vós, minha querida mulher e filhos de minhas entranhas, seremos todos destruídos no espantoso incêndio, senão
acharmos um lugar em que nos ponhamos a salvo: e até agora não pude descobrir nenhum.” 

     A família ficou pasmada não por crer o que dizia, mas por julgar que tinha perdido o juízo; e o persuadiram a deitar-se cedo na cama, com a esperança que sua cabeça melhorasse com o sono. Para ele, porém, a noite foi igual ao dia, e, em lugar de dormir, não fez outra coisa senão suspirar e chorar. 

     Ao romper da manhã quiseram saber como se achava. Disse-lhes que o seu estado ia de mal a pior; e tornou a falar-lhes do que dito da primeira vez. Com isso escandalizaram-se; e, continuando ele a falar da mesma maneira, o repreenderam, e depois começaram a mofar dele. Enfim o abandonaram sem terem o mais leve cuidado do que dizia. Então fechou-se ele no seu quarto a fim de deplorar sua miséria, e de pedir a Deus por eles. Também costumava passear no campo só, ora lendo, ora rezando, e desta sorte passou muito tempo.

    Aconteceu numa ocasião, em que indo pelo campo com os olhos fixos no seu livro, e se mostrando muitíssimo triste, o ouvi gritar tão de rijo como antes: “Ai, ai, ai! Que hei de fazer para salvar-me?” 

     Notei também que ele olhava para um lado e para outro, como uma pessoa que quer fugir; mas ficou parado, porque não sabia por onde caminhar; e vi um homem chegar-se a ele e perguntar-lhe porque soltava aqueles tão lastimosos gritos. 

   “Meu senhor, lhe respondeu Cristão (este era o nome do pobre homem), hei de morrer, e depois aparecer no tribunal do justo juiz; mas tenho muito medo da morte, e não estou preparado para o juízo.”

     Disse-lhe o outro (que se chamava Evangelista):
Por que tendes medo da morte, quando esta vida é tão cheia de desgostos?

CRISTÃO. – Temo que este fardo terrível que carrego me precipite além do sepulcro e me despenhe nas entranhas do inferno; por isso estremeço. 

EVANGELISTA. – Por que motivo, pois, vos demoras aqui? 

      “Ai de mim,” respondeu Cristão; o motivo é porque não sei para onde caminhar; para onde, senhor, para onde é que hei de fugir?” 


       Evangelista  deu-lhe um volume de pergaminho, em que Cristão leu as palavras: “fugir da ira vindoura” (1): então com lágrimas nos olhos e a voz trêmula pediu que lhe indicasse o caminho. 

       Apontando com o dedo a outra banda de um campo largo, perguntou-lhe Evangelista se via lá uma porta estreita. 
Não, senhor, disse o outro. 


EVANGELISTA. – Não vedes que está lá uma luz brilhante? (2) 

CRISTÃO.- Sim, senhor, penso que estou vendo-a. 
     
Muito bem, disse Evangelista, cravai os olhos naquela luz (3): segui-a, e vereis em breve a porta estreita; batei ali, e se vos dirá o que haveis de fazer. 


     CRISTÃO agradeceu-lhe, e se pôs a correr; mas ainda não estava longe da sua casa, quando sua mulher e filhos lhe gritaram que voltasse. Ele porém tapando os ouvidos com os dedos, não olhou para trás, mas correu pelo meio do campo gritando: “Vida! Salvação! Vida eterna!

   Os seus vizinhos saíram logo a vê-lo. Uns zombaram dele, outros ralharam, e alguns lhe gritaram que voltasse: dentre estes, dois saíram a trazê-lo para sua casa à força. O primeiro se chamava Teimoso e o outro Inconstante. O alcançaram no meio do campo, e ele disse-lhes logo: meus vizinhos, por que me seguistes? Responderam que era persuadi-lo a voltar. Mas, replicou Cristão, isso não pode ser de maneira alguma. Vós morais na Cidade de Corrupção, onde eu também nasci; e se lá vos demorardes, vós sereis cedo ou tarde precipitados num lugar mais baixo que a cova, num lago ardente de fogo e de enxofre. Sede persuadidos, meus caros vizinhos, e fazei esta viagem comigo. 

TEIMOSO. – O que? Abandonar os amigos e renunciar os prazeres, para andar como louco convosco? 

CRISTÃO. – Não tenhais dúvida. Tudo quanto se pode gozar aqui, não tem comparação alguma com as coisas que eu procuro; e se vierdes comigo, não vos faltará nenhuma coisa boa. Lá há tudo em abundância e de graça. Vinde, examinai se é verdade o que vos digo. 

TEIMOSO. – O que é que procurais? E como pode fazer conta largar todo o mundo para apegar nele? 

CRISTÃO. – Espero ter uma herança que vale mais que todo o mundo, em que não haverá jamais dor, nem choro, nem morte, nem mal algum; e que está reservada no céu para aqueles que a procuram com cuidado e perseverança. Lede, se assim vos apraz, todas estas coisas no meu livro I S. Pedro 1:4. (Apocalipse 21:4.) 

TEIMOSO. – Embora com tais loucuras; se quereis voltar conosco, vinde; aliás, vos arrependereis. 

CRISTÃO. – Não, eu não voltarei, ainda que morra no caminho. Principiei, e desgraçado de mim se o largar. (S. Lucas 9:62.) 

TEIMOSO. – Vinde pois, meu vizinho Inconstante; deixemo-lo, e vamos para casa. Há pessoas teimosas que não se deixarão persuadir com todas as razões. Vamos. 

INCONSTANTE. – Não, meu vizinho, não desprezemos estas notícias, porque se é verdade o que Cristão nos diz, as coisas que ele procura são melhores que as nossas. Tenho alguma vontade de ir com ele. 

TEIMOSO. – O que? Ainda mais loucos! Tomai meu conselho, e vamos. Quem sabe até onde este doido vos poderá levar? Tende juízo, vizinho, voltemos; vamos. 

CRISTÃO. – Vinde comigo, vizinho; pois há coisas tais como vos tenho dito, e outras muito lindas. Se me não quereis acreditar, lede este (a) livro daquele que não pode mentir. 

INCONSTANTE. – Agora, vizinho Teimoso, estou quase resolvido a caminhar com Cristão, e ter parte com ele na sua fortuna. Porém, meu caro amigo, sabeis o caminho para o belo país que procurais? 

CRISTÃO. – Um homem, que se chama Evangelista, me disse que andasse direito a uma pequena porta que está na nossa frente, e que lá me mostrarão o caminho. 

INCONSTANTE. – Vamos, pois, meu caro companheiro; vamos depressa. 

      Assim principiaram justamente a jornada. 

       E eu, disse: Teimoso, vou para a minha casa; não quero ser o companheiro de tais visionários e enganadores.
_____________________________
(a) Seus merecimentos. (Isaías 63:6)
(b) Sua consciência.
( c) Salmo 37:5.
(1) S. Mateus 3:7.
(2) Salmo 118:103.
(3) As palavras de Deus.

CAPÍTULO II. 

Receios que cercam a alma, quando está convencida dos seus pecados; mas não entende bem como se há de salvar. Não sabendo desembaraçar-se desses receios continua a ser miserável. 

      Enquanto Teimoso voltava, Cristão e seu companheiro andaram adiante conversando desta maneira: 

CRISTÃO. – Tenho muito gosto, meu vizinho, em achar-vos a caminho comigo. Se Teimoso, mesmo tivesse sentido a importância das coisas futuras como eu as sinto, não nos teria tão levemente largado. 

INCONSTANTE. – Visto que estamos sozinhos, contai-me, vos rogo, um pouco mais do que procuramos, e da maneira porque pudemos alcançá-lo. 

CRISTÃO. – O entendo, melhor que o posso explicar; mas ler-vos-ei alguma coisa deste livro. 

INCONSTANTE. – Mas acreditais que o que está escrito nele é pura verdade? 

CRISTÃO. – Sim, sem dúvida; porque está provado que foi feito por aquele que nem pode enganar nem ser enganado. 

INCONSTANTE. – Está bom. E que coisas poderemos alcançar? 

CRISTÃO. – Uma belíssima herança em um reino perpétuo, e para podermos gozá-la, dar-se-nos-á uma vida eterna. 

INCONSTANTE. – O que fortuna! 

CRISTÃO. – Coroas de glória e vestidos brilhantes como o sol. 

INCONSTANTE. – Oh! Que beleza! 

CRISTÃO. – Lá não há tristeza alguma, nem haverá choro, nem mais gritos, nem mais fome, nem sede, nem dor. O mesmo rei nos deparará todo o bem, e enxugará todas as lágrimas de nossos olhos.

INCONSTANTE. – Oh! Que alegria! E que companhia teremos? 

CRISTÃO. – A companhia de Querubins e de Serafins, que são criaturas tão gloriosas, que a vista delas ofuscaria nossos olhos: encontramo-nos com milhares de pessoas que já lá foram adiante d nós, das quais cada uma é de saúde perfeita, está cheia de alegria, de sabedoria e amor, e goza da amizade do rei: veremos ali os anciãos com coroas de ouro, as santas virgens com suas harpas, os homens que foram abrasados, mortos ao fio da espada, espedaçados pelas feras e afogados no mar por amor que tiveram ao Senhor, todos bem-aventurados e revestidos da imortalidade. 

INCONSTANTE. – Oh! Brilhantismo de glória! Basta para encantar o coração. Mas, o que é preciso para obter tudo isso? 

CRISTÃO. – O rei daquele país o tem declarado neste livro; e em suma é: “Que se alguém o desejar sinceramente, lho dará de graça.”

INCONSTANTE. – Caríssimo companheiro, vamos mais depressa; santa felicidade; bem mereces maiores esforços! 

CRISTÃO. – Este fardo terrível não me deixa andar tão depressa como gostaria. 

        No meu sonho vi que logo que acabaram de falar, chegaram a um atoleiro que estava no meio do campo; e, como não estavam apercebidos ambos, de repente caíram nele. Lá por algum tempo lutaram com a lama, e Cristão, por causa do peso que tinha nas costas, ia-se submergindo, até que estava quase sufocado. 

      Então lhe disse Inconstante: “Agora, vizinho Cristão, onde estás?” “Na verdade, respondeu este, não sei.” 

     Inconstante, aflito e zangado, começou a estrebuchar e gritou: 
“Eis as felicidades de que me acabais de dizer tantas maravilhas. Depois deste princípio de viagem, quem sabe qual será seu fim? Podendo daqui salvar minha vida, deixar-vos-ei essa bela herança somente a vós.” 

     Então, fazendo grandes esforços, com muita dificuldade se tirou do atoleiro pelo lado próximo a sua casa, e foi-se embora, de sorte que Cristão não o tornou a ver. 

     Só, no Atoleiro do Desespero, (esse é o nome daquele lugar), Cristão trabalhou com todas as suas forças para dele sair no lado mais distante da sua casa, mas não pôde por causa do fardo nas costas. 

    Então vi um homem, que se chama Socorro, aproximar-se a ele e perguntar-lhe o que fazia ali. 

CRISTÃO. – Queria fugir da ira vindoura, e uma pessoa, chamada Evangelista me ordenou que, por este caminho, fosse eu à porta estreita; mas quando me pus a caminho, caí neste atoleiro, como vedes. 

SOCORRO. – Porque não vos firmastes nas pedras de passadiço?
Com efeito, vi que haviam (b) pedras de passadiço até pelo meio do atoleiro, pelos quais se podia passar seguramente. 

CRISTÃO. – O medo me perseguia tanto, que vinha com pressa sem olhar, e assim caí no atoleiro. 

    Dai-me a mão, lhe disse Socorro, e tomando Cristão pela mão, o tirou e o pôs num terreno firme e sólido, e lhe disse que seguisse a viagem. 

     Entretanto chegue-me ao seu libertador e perguntei-lhe porque não se consertava aquele lugar, de maneira que aqueles que querem fugir da perdição pudessem passar mais seguramente para a porta da vida. 

     Este caminho ruim, respondeu Socorro, não pode ficar bom, porque logo que o pecador tem convicção dos seus pecados, e vê seu perigo, é quase impossível que não se levante em sua alma uma nuvem de receios e dúvidas, que o metem em mil sustos; lhe fazem perder ânimo; e unindo-se todos a um tempo o lançam em desespero. 

      Não é do gosto do rei que permaneça neste estado. Por dezoito séculos seus oficiais têm trabalhado para fazer aqui uma estrada boa, e têm empregado milhares de cargas de bons conselhos, em todos os séculos, mas ainda é o Atoleiro do Desespero, e o será. Pela bondade do rei há umas passadeiras pelo meio da lama, tão firmes e seguras, que em quanto houver mundo não poderão ser abaladas, mas quando o tempo é triste, o céu coberto de nuvens, e há muitos trovões e relâmpagos, corre para aqui tanto lodo que custa a descobrir o caminho. 

      Vi também no meu sonho, que quando Inconstante voltara para sua casa, e os vizinhos vieram visitá-lo, uns chamavam-o o – sábio – por ter voltado, outros – louco – por ter caminhado, e muitos fizeram escárnio dela pela covardia de ficar desanimado com tão pequena coisa. Assim, o pobre Inconstante envergonhou-se; mas, enfim, tomou ânimo, e se pôs com os outros a zombar do Cristão.
_______________________
(a) As Escrituras Sagradas.
(b) Nas promessas de Deus.

CAPÍTULO III. 

A alma aterrorizada pela convicção de seus pecados, procura à primeira vista salvar-se por sua obediência à lei de Deus. 

     Pouco depois, quando Cristão andava só no caminho, vi um homem que vinha de um lado para encontrar-se com ele, e se ajuntarão na encruzilhada dos caminhos. 

     Era, Senhor, Sábio-por-este-mundo-só, que mora na Cidade de Sabedoria-mundana, uma grande cidade, vizinha daquela donde saíra Cristão. Ele já tinha ouvido falar de Cristão, porque a fama da sua saída corria por todo o país, e sabendo pelo seu andar, tristeza, suspiros e gemidos, quem ele era, começou a falar-lhe nestes termos. 

SÁBIO-POR-ESTE-MUNDO-SÓ. – Oh homem, para onde quereis ir tão carregado? 

CRISTÃO. – Carregado! É verdade. Parece-me que nunca pessoa alguma levou um fardo tão pesado. Me perguntais para onde vou, e digo-vos, Senhor, que quero ir à porta estreita que está lá adiante, porque ali, segundo me dizem, me mostraram como posso ficar livre desta carga. 

SÁBIO. – Sois casado? Tendes filhos? 

CRISTÃO. – Sim, mas agora nada me agrada. Este fardo terrível não me deixa descansar. Não tenho gosto algum na minha vida. 

SÁBIO. – Acreditar-me-eis se vos der um bom conselho? 

CRISTÃO. – Sim, se é bom: é o que careço. 

SÁBIO. – Meu conselho é de vos desembaraçardes dessa carga quanto antes. 

CRISTÃO. – Isso mesmo é o que procuro: mas por todos os meus esforços não me posso livrar dela, nem na minha pátria há pessoa que me possa aliviar: me pus a caminho de propósito para buscar quem me livre dela. 

SÁBIO. –Quem vos aconselhou este caminho para esse fim? 

CRISTÃO. –Um homem, que me pareceu muito venerável, e se chama Evangelista

SÁBIO. – Péssimo conselheiro! Não há no mundo outro caminho tão perigoso e custoso, e assim achareis se seguirdes o conselho dele. Já encontrastes um pouco, pois vejo em vós a lama do Atoleiro de Desespero. Ora, esse não é mais que o princípio dos incômodos que os viajantes encontram neste caminho. Escutai-me, que sou mais velho que vós: nesta estrada achareis dores, fadigas, fome, perigo, nudez, espada, lesões, trevas e outros muitos males, e até a morte. É verdade o que vos digo, e está confirmada por muitas testemunhas. Ora, que loucura não é entregar-vos a tantas misérias, e perder-vos no fim, pelo dito de um estrangeiro! 

CRISTÃO. – Ah! Senhor! A carga, os pecados, e a ira de Deus por causa deles, que tenho nas costas, me é mais terrível que todas estas coisas; e não me importa o que padeça, contanto que fique livre dela. 

SÁBIO. – Como foi que principiastes a sentir o peso dessa carga? 

CRISTÃO. –Pela leitura deste livro que tenho na mão. 

SÁBIO. –O acredito. Tem-vos acontecido, como a outros homens de pouco juízo, quando se intrometem com coisas profundas; caem de repente em loucuras, perdem o espírito de homens de bem; e correm em grandes perigos para alcançar coisas que não existem. Não sabem o que querem. 

CRISTÃO. – Sei o que eu quero. É ficar livre desta carga. 

SÁBIO. – Mas, por que o procurais num caminho onde não há senão perigos, miséria e morte; quando há um meio de alcançá-lo sem encontrar perigo algum? Sim: e o remédio está muito perto, e vos deparará amizades, prazeres e contentamento, em lugar de tormentos, desgostos e horrores. 

CRISTÃO. – Eu vos rogo pois, meu senhor, me ensineis esse segredo. 

SÁBIO. – Com muito gosto. Em uma vila, chamada A Moral, habita um homem muito virtuoso cujo nome é Senhor Lei, e que tem uma fama extraordinária. Sei que tem curado muitos, e até os que tiveram o juízo voltado por suas cargas. Vai ter com ele, e em pouco tempo vos curará. Sua morada não é mais que uma légua daqui, e se não estiver em casa, tem um filho chamado Civilidade, muito bom rapaz, quase igual ao velho mesmo, que também tira essas cargas. É lá que achareis alívio de vosso fardo: e se não quiserdes voltar para a casa donde viestes (como vo-lo não aconselho) podereis mandar vir vossa mulher e filhos para A Moral, em que agora há muitas casas vazias, e podeis alugar uma por um preço razoável. Os viveres ali são muito baratos, e vossa vida poderá ser muito feliz, porque tereis bons vizinhos, sereis muito estimado, e todos vos darão boa fama. 

     CRISTÃO hesitou um instante: então, de repente anuiu, dizendo consigo: “Se é assim não posso fazer melhor do que seguir este conselho.” Então perguntou o caminho para a casa do Senhor Lei

SÁBIO. –Vedes aquela montanha alta? 

CRISTÃO. –Sim: muito bem. 

SÁBIO. – Haveis de subir aquela montanha, e a primeira casa que achardes é sua. 

CAPÍTULO IV. 

A alma que conhece a santidade e justiça da lei divina bem cedo percebe que a tem quebrado, e que por isso já está condenada à morte. Torna, pois, a buscar a vida eterna por outro caminho. 

      Cristão persuadido pelo Senhor-Sábio-por-este-mundo-só saiu do caminho que Evangelista lhe mostrara, para buscar socorro na casa de Senhor-Lei; mas ao aproximar-se da montanha, ela lhe pareceu tão alta, e tão escarpada, e pendida sobre o caminho, que temia se despenhasse sobre a sua cabeça. Houve também um terremoto forte e prolongado, e se abriram em várias partes do monte umas gargantas de fogo, donde saíram chamas, labaredas e relâmpagos, com estrondos aterradores. 

      Não se atreveu dar mais um passo adiante; o seu fardo lhe pareceu mais pesado, e mais insuportável que jamais estivera; estremeceu, e coberto de suores frios, se afligiu amargamente de haver seguido os conselhos de um Senhor-Sábio-por-este-mundo-só

      Naquele aperto viu chegar-se a ele Evangelista e corou muito com vergonha. Aproximando-se, este olhou com indignação, e lhe disse com um tom severo: “Que fazeis vós aqui Cristão

       Não sabendo que responder-lhe, Cristão ficou calado. 

– Não sois vós, continuou Evangelista, o homem que a pouco tempo encontrei chorando, diante das muralhas da Cidade de Corrupção

CRISTÃO. – Sim, meu senhor, sou mesmo. 

EVANGELISTA. – Não vos ensinei o caminho para a porta estreita? 

CRISTÃO. – Sim, meu querido senhor. 

EVANGELISTA. –Já estais fora do caminho. Por que vos desviaste tão depressa? 

CRISTÃO. –Logo depois de ter saído do atoleiro do Desespero, encontrei com um senhor que me persuadiu ir à vila que está defronte de nós, assegurando-me que acharia lá um homem que me livraria deste terrível peso. 

EVANGELISTA. –Quem é ele? 

CRISTÃO. – Parecia uma pessoa de consideração, e disse-me tantas coisas que enfim consenti. Vim até aqui: mas quando vi esta montanha parei temendo que se desabasse sobre a minha cabeça. 

EVANGELISTA. –Que vos disse, pois, esse cavalheiro? 

     Contou Cristão a miúdo a conversação que tivera com Senhor Sábio-por-este-mundo-só, e as suas desgraçadas consequências, e agora, disse ele, enfim, não sei o que hei de fazer. 

      Respondeu-lhe Evangelista: Parai um pouco, até que vos mostre as palavras de Deus. 

Cristão, todo tremendo, olhou para ele com ânsia. 

EVANGELISTA. –“Olhai, não desprezeis ao que fala! Porque se não escaparam aqueles que desprezavam ao que lhes falava sobre a terra, muito menos nós outros se desprezamos ao que nos fala do céu. (Epístola aos Hebreus cap. 12, v. 25.) Disse mais. “O justo vive de fé; porém se ele se apartar não agradará a minha alma.” (Hebreus 10:38). 

     Tu és o homem que estás correndo nessa miséria. Tens principiado a desprezar o conselho do altíssimo, e a desviar os teus pés do caminho de paz, até quase a tua perdição. 

    Quando Cristão ouviu estas palavras, gritou: “Ai de mim, ai de mim, que estou para sempre perdido; e caiu como morto aos pés de Evangelista. Este, vendo-o naquele estado, o tomou pela mão meigamente, e lhe disse, (S. Mateus 12:31) todo o pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens. – (S. João 20:27) não sejais incrédulo, mas fiel.” 

     Estas expressões deram-lhe algum ânimo, e se levantou ainda tremendo na presença do Evangelista, o qual continuou a falar-lhe desta maneira: 

      “Aquele que vos enganou é um sábio por este mundo só: não gosta senão dos costumes, opiniões, e prazeres desta vida: e se opõe a mim, e a meus conselhos, porque aquele que os segue expõe-se ao escárnio dos soberbos. 

     “Considerai bem os cinco pontos que vou propor-vos, e vereis que a sabedoria de seu conselho não é mais que loucura. 

    “1º Nosso rei nos deu uma lei perfeita, e acrescentou-lhe o ameaço: “A alma que pecar morrerá.” 

    “2º Pela comparação da vida de cada um com os preceitos da lei, vê-se que “todos pecaram,” e assim são incursos na pena de morte. 

    “3º A lei que sentencia os pecadores à pena última, não pode livrá-los dessa consequência do mal que fizeram. Não pode justificá-los. 

   “4º Nosso Senhor morreu por nós, pagou por nossos pecados com seu sangue, e agora pode salvar até os mais criminosos sem ofender a justiça, mas para isso é preciso que se cheguem a Ele – se humilhem aos seus pés, confessem seus pecados, e aceitem, como criminosos, um perdão gratuito da maneira em que o rei lho oferece. 

    “5º Ninguém pode ser salvo assim, senão aqueles que se arrependem sinceramente: os altivos e soberbos não podem principiar a andar nesse caminho: por isso chama-se a porta estreita e o caminho apertado. 

     “Foi para essa porta que vos encaminhei e foi a respeito dela que falou o Senhor quando disse (S. Mateus 7:13): “Porfiai a entrar pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que guia para a perdição; e muitos são os que entram por ela. que estreita é a porta e apertado o caminho que guia para a vida, e que poucos são os que acertam com ele. 

     “O Senhor Sábio-por-este-mundo- só queria desviar-vos deste caminho da salvação, para ir buscá-la da lei (Romanos 3:20), “pela qual não será justificada nenhuma carne.” Queria fazer-vos desgostar da glória de sofrer por aquele que morreu por nós; e persuadir-vos que haveis de encontrar vergonha, miséria e morte, no único caminho em que podeis ter glória, alegria e vida eterna. 

     “Portanto Senhor-sábio-por-este-mundo-só é tão louco como enganador e Senhor Civilidade, de quem falou, ainda que pareça um homem de bem, é um hipócrita, e não pode fazer mais para aliviar-vos, do que a mesma lei.” 

     Dito isto Evangelista chamou ao céu que confirmasse o que dissera, e repentinamente saíram da montanha um fogo que fez 
eriçar os cabelos o Cristão, e uma voz forte e medonha que disse 
(Gálatas 3:10): “Todos os que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque escrito está – maldito todo o que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei para fazê-las.” 

     Então começou Cristão a gemer amarguradamente, maldizendo a hora em que encontrou o senhor Sábio-por-este-mundo-só, e chamando-se mil vezes louco por ter prestado atenção aos seus conselhos, e deixado o caminho do céu por motivos da terra. Cheio de vergonha, e quase desesperado, voltou-se de novo à Evangelista, e lhe disse: meu querido Senhor, que vos parece? Há esperança alguma para mim? Não serei rejeitado com vergonha? É possível que se me perdoe o meu pecado? Triste de mim por ter escutado o conselho desse homem! 

     Respondeu-lhe Evangelista: “vosso pecado é muito grande, pois recusastes o caminho que Deus ordena, e andastes naquele que Ele proíbe; porém o Senhor à porta vos receberá, pois é de larga compaixão, e de bondade imensa. Tende coragem, mas tomai cuidado que vos desvieis mais” – (Salmo 2:12) para “que não suceda que se ire o Senhor, e que vos percais do caminho.” 

     Cristão num instante se dispôs a voltar, Evangelista olhou-o com o semblante cheio de amor, o beijou, e lhe desejou uma viagem feliz.
Caminhou Cristão com grande pressa, nada disse a pessoa nenhuma – nem deu resposta quando se lhe falava: era como quem anda em quanto não chegou no caminho que deixara para seguir o conselho do Sábio-por-este-mundo-só



CAPÍTULO V.
O pecador vem ao Senhor Jesus mesmo; confessa-lhe seus pecados; pede-lhe socorro e conselho; e recebido por Ele com amizade, anda nos seus caminhos 


     Daí a algum tempo, Cristão aproximou-se à porta e leu o que estava escrito em cima, (S. Mateus 7:7): “Batei, e abrir-se-vos-á.” Bateu, pois, uma vez, e outra, e terceira, dizendo: Oxalá que eu possa entrar. O Senhor queira abrir a um miserável rebelde, que merece a perdição. Valei-me, oh! Senhor, valei a este desgraçado pecador. 

    Enfim, apresentou-se à porta uma pessoa excelente, chamada Bondade, e perguntou quem estava lá, donde vinha, e o que queria. 


CRISTÃO. – É uma pobre criatura carregada de pecados, que vem da Cidade de Corrupção, querendo fugir da ira vindoura, e chegar ao reino da glória. Entendo que não há outro caminho para lá se não por esta porta, e desejo saber se me dareis licença para entrar. 


BONDADE. – Vo-la concedo de todo o meu coração. Entrai. 


      Quando Cristão entrava, Bondade puxou-o pelo braço, e perguntando-lhe o outro porque o fizera, respondeu: Olhai, perto daqui está um castelo de Belzebu; ele, e seus companheiros, arremessam dali dardos ardentes sobre aqueles que se chegam a esta porta, procurando matá-los, se lhes fosse possível, antes que pudessem entrar.


     Regozijo-me, disse Cristão, e ao mesmo tempo estremeceu. 

     Depois de ter entrado, o porteiro, que tinha na testa as marcas de uma coroa de espinhos, perguntou-lhe quem o havia dirigido para lá. 


CRISTÃO. – Foi Evangelista. Ele me ordenou que batesse aqui, e me disse, que vós, Senhor, me ensinareis o que hei de fazer agora. 


BONDADE. – (Apocalipse 3 e 8) “Eis-aqui, pois, diante de ti uma porta aberta, que ninguém pode fechar.” 


CRISTÃO. – Graças eternas ao bendito Senhor! Mas (esfregando os seus olhos como quem está mui feliz, e quase teme acordar, e achar que é um sonho) sou eu mesmo que aqui estou dentro da porta da salvação, falando ao Senhor? Que fruto de escárnio e desgostos que passei! 

BONDADE. – Mas, por que viestes tão só? 

CRISTÃO. – Porque nenhum dos meus vizinhos via o perigo como eu o vi. 

BONDADE. – Souberam que queríeis fazer esta viagem? 

CRISTÃO. – Sim; minha mulher e filhos foram os primeiros que me viram partir, e me gritaram que voltasse; alguns dos meus vizinhos também me gritaram, mas tapei os ouvidos e caminhei. 

BONDADE. –Não havia nenhum deles que vos seguiu, e vos persuadiu que voltásseis? 



CRISTÃO. –Sim, tanto Teimoso como Inconstante, mas quando acharam que eu não voltava, Teimoso foi para sua casa enraivecido, e Inconstante veio comigo um bocado. 



BONDADE. –Por que não veio até aqui? 



CRISTÃO. – Viemos juntos até ao Atoleiro de Desespero e nele de repente caímos. Então meu companheiro desanimou-se e não quis vir mais adiante. Arrancou-se do atoleiro, disse-me que guardasse eu só o belo país, e voltou como Teimoso



BONDADE. – Pobre homem! A glória celeste lhe parece tão desprezível que não vale à pena de procurá-la à custa de alguns desgostos? 



CRISTÃO. – É verdade o que disse de Inconstante, e se dissesse a verdade a respeito de mim mesmo, pareceria que eu não sou nada melhor que ele; pois ele voltou para sua casa, e eu desviei-me pelos conselhos do Senhor Sábio-por-este-mundo-só



BONDADE. – Sim! Vós encontrastes com ele? Então vos aconselhou buscar o socorro do Senhor Lei. É forte enganador. Tomastes o seu conselho? 



CRISTÃO. –Tomei-o tanto que me atrevi: foi buscar o Senhor Lei até que julgava que a montanha onde mora caísse sobre mim: e lá parei. 



BONDADE. –Aquela montanha tem causado a morte de muitos; e muitos ainda vão morrer ali; foi bom que escapastes com vida. 



CRISTÃO. – Não sei o que se teria feito de mim se Evangelista não viera quando eu estava lá confundido: grande é a misericórdia de Deus que o mandou, aliás, eu nunca aqui teria chegado: mas, enfim, aqui estou: aqui estou eu que sou mais digno de ser espedaçado por aquela montanha do que estar falando convosco, meu caríssimo Senhor. Que bondade esta, que me foi permitido entrar aqui! 



BONDADE. – Aqueles que cometeram os maiores crimes antes de chegarem aqui, nem por isso são rejeitados. Recebemos todos. 
(S. João 6:37) “Aquele que se chega a mim não o lançarei fora.” Vem, pois, comigo um pouco, caro Cristão, e vos mostrarei o caminho em que haveis de andar. Olhai lá adiante, vedes o caminho estreito? É nele que haveis de fazer vossa viagem sem virar para um lado nem para o outro. 



     É o caminho que foi trilhado pelos patriarcas, profetas, apóstolos, mártires e todos os bem-aventurados que passaram das regiões de corrupção e de morte para o mundo puro de glória e de vida. 



CRISTÃO. – É seguro? Não precisa dar voltas onde me poderei enganar? 



BONDADE. – É seguro para quem fica nele; mas há outros de casa lado, onde muitos viajantes desviaram –se e perderam-se. Estes porém são largos e tortos, enquanto o verdadeiro caminho é sempre estreito e direito, como se fosse feito com um cordel. 



      Depois disto, Cristão perguntou ao Sr. Bondade se não podia livrá-lo de seu fardo, porque até ali, não obstante todos os seus esforços, dele não havia podido desembaraçar-se. 



Respondeu-lhe Bondade: - Levai-o por ora corajosamente; ao depois vos cairá, por si mesmo, dos ombros. 



    Cristão então quis pôr-se a caminho, Bondade lhe disse que dali a alguma distância veria a casa do Intérprete; que se batesse na porta, e lá lhe mostrariam umas coisas maravilhosas; e desejou-lhe uma boa viagem. 



     Continuou, pois, Cristão sua jornada até que chegou à casa do Intérprete, e, lembrando-se do que Bondade lhe dissera, teimou em bater, até que vieram perguntar quem era. 



CRISTÃO. – Eu sou um pobre viajante que quero instruções a respeito do meu caminho, e uma pessoa que tem relações com o senhor da casa me disse que as procurasse aqui. 



      O criado foi chamar seu amo, e quando este veio, perguntou-lhe o que desejava. 



     Meu senhor, respondeu Cristão, vim da Cidade de Corrupção, e vou para o reino da glória. Aquele que está à porta deste caminho, me disse que se viesse aqui me faríeis ver coisas maravilhosas, que me seriam muito úteis para minha viagem. 


          Pois bem, lhe disse o Intérprete, entrai (S. João 14:26), e vos mostrarei o que desejais. 



      Depois de ter mandado seu criado acender um candeeiro, disse a Cristão que o seguisse, e o introduziu num quarto retirado. Lá Cristão viu um retrato notável de um homem que tinha os olhos elevados ao céu; as Escrituras Sagradas estavam nas suas mãos, e sobre os seus lábios a lei da verdade: parecia estar falando aos homens persuasivamente; tinha o mundo debaixo dos seus pés, e sobre a sua cabeça estava suspensa uma corda de ouro. 



CRISTÃO. –Senhor, de quem é este retrato? 



INTÉRPRETE. – Quis mostrar-vos este quadro antes de todas as outras coisas, porque o original é o único homem que está autorizado pelo senhor da cidade celeste a servir-vos de guia neste caminho. Tomai bem sentido, e conservai fielmente na memória o retrato que vedes. Olhai que não tem somente os olhos no céu, mas o mundo debaixo dos pés, desprezando os prazeres, riquezas e honras desta vida, e tem as mãos ocupadas com o livro do Senhor: também não procura saber somente as coisas profundas do Eterno, mas tem a lei de verdade escrita nos seus lábios, para mostrar que se emprega em expô-las aos pecadores: em quanto a coroa sobre a sua cabeça representa o galardão que vai gozar. 



     É provável que na vossa viagem haveis de encontrar com certa gente que queira servir-vos de guia ao céu. Comparai-a com este retrato, e quando não condizer com ele (S. Mateus 7:15) guardai-vos dele, pois seus caminhos guiam ao inferno. 



CAPÍTULO VI 
A alma, ensinada pelo Espírito do Senhor, aprende muitas coisas novas e salutares. 

Tomando Cristão pela mão, o Intérprete o conduziu para um grande gabinete todo cheio de poeira, porque nunca fora varrido. Quando Cristão o havia percorrido com os olhos, o Intérprete chamou um homem para o varrer; porém, aos primeiros movimentos da vassoura, levantou-se de todas as partes uma tal quantidade de poeira, que estiveram quase a serem sufocados. Então o Intérprete mandou uma menina, que estava presente, trazer água e orvalhar o quarto: depois de se ter feito isso, foi varrido em pouco tempo e sem incômodo.
Cristão perguntou o que queria isto dizer. 

Este gabinete, respondeu o Intérprete, representa o coração do homem que nunca foi tocado pela bondade manifestada no Evangelho. O pó é o pecado, arraigado na nossa natureza, que mancha o homem todo, cabeça, coração e consciência. O primeiro que varria representa a lei, a outra, que trouxe água e orvalhou o quarto, representa a bondade que se acha no Evangelho. Vós
vistes que logo que o homem começou a varrer, a poeira se elevou de todos os lados, de maneira que o quarto não podia ser limpo; pelo contrário, todo o ar nele estava cheio de poeira e quase a sufocar-vos. Isto significa que bem longe da lei poder purificar o coração do homem, ela não faz mais do que mostrar o que é o pecado, e (Romanos 7:8) torná-lo mais vivo e mais forte: de sorte, que quanto mais o homem trabalha para aperfeiçoar-se pela lei tanto mais (Romanos 3:20) vê suas faltas, e nunca se acha melhor, porque a lei não concede ao pecador o poder de se livrar de pecado. 

A moça que veio orvalhar, e por este meio conseguiu limpar completamente o quarto, oferece-vos a semelhança do Evangelho, que fala do amor de Deus e da morte de Cristo em lugar dos pecadores, e assim trazendo paz, espalha suas doces influências no coração. Então o vício é abatido pela crença das boas notícias do Evangelho, (como a poeira o foi pela água) o coração está purificado e o homem está preparado para morar no reino dos céus. 

Vi em seguida que o Intérprete tomou Cristão outra vez pela mão, e o levou para um pequeno gabinete onde haviam dos meninos. O mais velho chamava-se Paixão e o outro Paciência; Paixão, tinha o ar de descontentamento, e Paciência parecia a imagem de paz. 

Cristão perguntou o que dava à Paixão o ar que tinha, e o Intérprete lhe disse, porque seu senhor quer que ele espere as melhores coisas para o ano que vem, e ele quer tê-las já: Paciência, porém, quer esperar. 

Então eu vi que alguém se aproximou de paixão, com um saco cheio de lindas coisas, que lhe pôs aos pés. Ele as olhou com um extremo prazer, e começou a importunar Paciência e zombar dele; mas em pouco tempo notei que tudo se tinha dissipado, de sorte que não lhe ficou mais do que alguns restos insignificantes. 

Ah! Eu vos rogo, disse Cristão ao Intérprete, explicai-me estas coisas mais circunstanciadamente. 

INTÉRPRETE. – Paixão é a imagem dos homens deste mundo, e Paciência a figura dos que vivem na fé e esperança do futuro. Aqueles querem tudo aqui agora; estes confiando na promessa do Pai nos céus, estão contentes de esperar: aqueles têm mais confiança no provérbio – “Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar,” do que tem em todas as palavras do Eterno: estes no interior da alma sentem que ainda quando passem o céu e a terra, não poderá faltar a promessa do criador. 

Paixão, em breve tudo gastou, e não lhe ficou coisa alguma que prestasse; assim sucede aos que se ocupam com os negócios deste mundo só. 

CRISTÃO. –Agora vejo que Paciência é o mais sábio; e por dois motivos; primeiro porque procura bens infinitamente melhores e segundo porque vai gozar deles quando ao outro não ficará mais do que a ruína e a confusão. 

INTÉRPRETE. – Tendes razão, e podeis acrescentar que a glória deste mundo passa num instante, mas a glória do futuro é para sempre. Por isso Paixão não tem tanta razão de gloriar-se de Paciência como este do outro. 

CRISTÃO. – Assim percebo a sabedoria dos conselhos  
(S. João 12:15) não ameis ao mundo, nem ao que há no mundo: (Colossenses 2:3) “Cuidai nas coisas que são lá de cima, não nas que há sobre a terra.” 

INTÉRPRETE. –Sim. É porque (2 Coríntios 4:18) as coisas visíveis são temporais, e as invisíveis são eternas.” 


CRISTÃO. – Com tudo posto que assim seja, acho que minhas inclinações naturais são tão ligadas às causas visíveis, que muito me custa virar inteiramente para as invisíveis e eternas. 

Depois disto o Intérprete levou Cristão para um lugar onde havia um fogo aceso ao pé de uma muralha, e uma pessoa se ocupava com muita presteza em lançar-lhe água para apagá-lo; no entanto o fogo se inflamava cada vez mais, e lançava ainda mais altas as suas chamas.
Que significa isto? Disse Cristão

INTÉRPRETE. – Este fogo representa a obra de Deus no coração do homem. Aquele que lhe lança água constantemente esforçando-se para apagá-lo, é o diabo. Agora haveis de ver porque o fogo sempre se inflama mais, e se torna mais ardente. 

Imediatamente o fez voltar, e o levou para o outro lado da muralha, onde viu um homem que tinha um grande vaso de azeite nas mãos, e dele ocultamente, e sem parar deitava no fogo. 

Que significa ainda isto? Disse Cristão

INTÉRPRETE. – É Cristo que espalha sem cessar o óleo de seu amor no coração para fortificar a obra que Ele mesmo começou: e a levar adiante em despeito de tudo quanto o demônio pode empreender: e Ele está detrás da muralha para representar, que nas grandes tentações, custa ver como é, que a obra de Cristo na alma do pecador pode fazer progresso. 

O Intérprete em seguida conduziu Cristão a um campo em que havia um belíssimo palácio de delícias. Cristão gostou muito dele, e viu andar sobre o terraço pessoas com vestidos de ouro cobertos de brilhantes. Perto da porta havia muitos homens que testemunhavam no seu semblante ter um grande desejo de entrar; - mas não se atreviam, porque no caminho e junto à porta havia uma multidão de homens armados que se tinham resolvido a maltratar e até a matar todos os que tentassem forçar a passagem. Havia também um homem assentado detrás de uma mesa colocada um pouco ao lado da porta; e tinha diante de si um tinteiro e um livro em que escrevia os nomes de todos os que procurassem entrar aí. 

Quando todos recuavam pelo receio da gente armada, Cristão viu um homem com ar de grande coragem chegar-se àquele que estava a mesa e dizer-lhe “assentai meu nome, senhor.” Feito isto, pôs um capacete na cabeça, um peito de aço sobre o seu coração e um escudo no braço, e desembainhado sua espada correu para a porta; arrojou-se intrepidamente contra os armados, que pela sua morte o receberão com um furor mortal. Levou muitas feridas, e feriu a direita e a esquerda, e enfim penetrou através dos seus inimigos e entrou no palácio. Imediatamente ficaram saradas todas as suas feridas; foi revestido com hábitos brancos e brilhantes; ouviu-se um cântico de triunfo entoado por seus companheiros; e Cristão sorrindo se disse: Parece-me que sei o que isto quer dizer. Agora deixai-me caminhar. Intérprete: Não. Esperai até que vos tenha mostrado mais algumas coisas, e depois podereis caminhar não somente com coragem, mas também com diligência. 

Então o levou a um quarto muito escuro, em que havia um homem preso em uma gaiola de ferro. Nela assentado e olhando para o chão, com as mãos juntas, gemia como quem tem o coração despedaçado, e parecia inteiramente desgraçado. 

O que queres tu dizer? 

INTÉRPRETE. – Perguntai ao homem mesmo. 

CRISTÃO (falando ao homem na gaiola). – O homem! Que tendes, e quem sois vós? 

O HOMEM. – Não sou aquilo que noutro tempo fui.

CRISTÃO. –O que fostes noutro tempo? 

O HOMEM. –Fui um grande professor da fé de Cristo. Julguei, como também outros julgaram, que eu era muito bom cristão, e que estava bem certo de chegar ao reino da glória e até regozijava-me da ideia de aí entrar. 

CRISTÃO. – E o que sois agora? 

O HOMEM. –Sou um homem entregue aos desespero, estou fechado nele, como nesta gaiola de ferro. Não posso sair: não; agora não posso, nunca mais. 

CRISTÃO. – Mas como caístes nessa miséria? 

O HOMEM. – Cessei de vigiar e ser sóbrio: soltei as rédeas de meus vícios: andei contra o que Deus manda, ainda que bem conhecia seus preceitos, e recebia tanto da sua bondade: entristeci o Espírito Santo, e ele me tem abandonado: dei lugar ao demônio, e este se tem apoderado de mim: provoquei o Todo Poderoso, e ele me tem rejeitado: tenho de tal maneira endurecido meu coração, que nele não pode entrar o arrependimento. 

Tornou Cristão para o lado do Intérprete, e lhe disse: Não há, pois, esperança alguma para o homem num estado tal como este? Perguntai a ele mesmo, respondeu o Intérprete. Cristão tornou, pois, outra vez ao homem, e perguntou-lhe, dizendo: – Não há esperança alguma para vós? Haveis de estar por toda a eternidade nessa gaiola de desespero? 

O HOMEM. – Não há esperança alguma. 

CRISTÃO. – Por que assim? O Filho do Bendito está cheio de misericórdia. 

O HOMEM. – O tenho crucificado de novo: tenho desprezado sua pessoa: tenho desprezado seus merecimentos: tenho pisado aos pés o seu sangue: tenho ultrajado o Espírito de Graça: por tudo isto não me restam senão ameaças: ameaças terríveis, ameaças verdadeira de juízos irresistíveis, e de uma indignação abrasadora que há de devorar os adversários do Senhor. 

CRISTÃO. –E por que vos lançastes vós naquela miséria? 

O HOMEM. – Por amor dos vícios, prazeres e ganhos deste mundo, em que esperava muito gosto: mas, agora cada uma dessas coisas me morde e angustia como a mordedura de uma cobra. 

CRISTÃO. –Não podeis ainda ter contrição, e converter-vos? 

O HOMEM. –Deus me nega o arrependimento: suas palavras não me animam a ter esperança. Ele mesmo me fechou nesta gaiola de ferro: todos os homens do mundo não podem livrar-me. Oh Eternidade! Eternidade! Como poderei lutar com a miséria que encontrarei na Eternidade! Como poderei lutar com a miséria que encontrarei na Eternidade! 

Então o Intérprete disse a Cristão: - Não esqueçais nunca o funesto estado deste homem; sede sempre acautelado. 

CRISTÃO. –Ah! Isto é terrível! Deus me ajude a vigiar, e ser sóbrio rogando continuamente que eu evite o que causou a este homem tamanha desgraça. Porém, senhor, não é tempo agora que eu continue a minha viagem? 

INTÉRPRETE. – Esperai para ver mais uma coisa. 

Imediatamente tornou a tomá-lo pela mão, e o conduziu para um quarto em que uma pessoa se levantava da cama, e se vestia toda trêmula, e em extremo horrorizada. Por que está esta pessoa tão cheia de horror? disse Cristão: perguntai a ele mesmo, respondeu o Intérprete. 

Assim fez, e recebeu esta resposta. 

Quando dormia esta noite, sonhei e eis que o céu escureceu-se medonhamente, os raios e o estrondo dos trovões me espantaram. No sonho olhei para cima, e vi as nuvens a mover-se com rapidez, e logo ouvi o som penetrante de uma trombeta, e vi um homem assentado sobre uma nuvem, e rodeado de milhares dos habitantes do céu. Todos estavam cercados com chamas de fogo; os próprios céus abrasavam: então uma voz forte gritou: “Mortos levantai-vos, e vinde a juízo.” Num momento as rochas partiram-se, os sepulcros abriram-se, e os mortos que estavam neles ressurgiram, alguns muitíssimo alegres olhavam para cima; outros desejavam esconder-se debaixo das montanhas. Então o homem assentado na nuvem abriu um livro, e mandou que o mundo se aproximasse. Todavia entre ele e os milhares que chegaram, havia uma distância conveniente, como entre o juiz e os réus; e isto por causa de umas chamas devorantes que saíam de diante dele. Foi também apregoado aos que cercavam o homem sobre a nuvem (S. Mateus 13:30.) “Ajuntai o mato, a palha e o retraço, e lançai-os no lago de fogo.” Imediatamente abriu-se muito perto de mim o abismo que não tem fundo, e da boca dele saíram nuvens de fumo, com muitas brasas e estrondos terríveis. Foi-lhes dito também (1 Tessalonicenses 4:16.) “Recolhei meu trigo no celeiro.” E logo vi muitos arrebatados nas nuvens, mas eu fiquei atrás. Também queria esconder-me, mas não me foi possível, porque o homem assentado sobre a nuvem, tinha os olhos indignados, sempre fixos sobre mim: meus pecados vieram-me à memória: e minha própria consciência me condenou. Em vista disto estremeço aterrorizado? 

CRISTÃO. – Por que estais tão agoniado agora, quando bem vedes que era somente um sonho. 

O HOMEM. –Porque creio que está para vir o dia de juízo, e eu não estou pronto para dar contas: minha consciência já me condena: o juiz já tem os olhos pregados em mim e tem razão de aborrecer-me. Vejo que parte do sonho já se realizou; me lembro que nele os anjos levaram muitos ao céu e me deixaram; que a garganta do inferno abriu-se ao meu lado, e que o rosto do juiz estava cheio de cólera contra mim: e temo que estas coisas também se venham a realizar. 

Então o Intérprete disse ao Cristão: Tendes considerado bem todas estas coisas? 

CRISTÃO. –Sim, e me enchem de medo e de esperança. 

INTÉRPRETE. –Conservai-as no vosso coração para vos servirem de estímulo constante na viagem; e o consolador esteja sempre convosco, fiel cristão e vos guie no caminho que conduz ao reino da glória. Cristão rendeu-lhe graças, e dispôs-se a continuar a sua viagem. 

CAPÍTULO VII
A alma crente meditando na morte de Cristo por nós, alcança paz. As três pessoas divinas concorrem para o sossego do crente, os caracteres daqueles que têm uma falsa paz. 



     Vi em meu sonho que em cada lado do caminho em que Cristão andava havia uma muralha que se chama Salvação, e que ele corria, ainda que lhe era custoso, por causa da carga que tinha nos ombros. 

     Continuou a correr até que chegou a um outeiro pouco elevado; em cima dele havia uma cruz e pouco mais abaixo um sepulcro: quando se aproximava da cruz, vi que o fardo ia soltando-se de seus ombros, e quando chegou à cruz, a carga que lhe causara tanta miséria caiu-lhe das costas, e foi caindo até que chegou à boca do sepulcro, em que foi engolfado, e Cristão não o tornou mais a ver. Então ficou aliviado e muito alegre, e olhando para a cruz disse: “Ele me deu repouso por sua tristeza e vida por sua morte.” Lá se demorou algum tempo, admirado de que a vista da cruz o tivesse livrado do seu pesado fardo. Olhou, pois, e continuou a olhar até que as suas fontes soltaram uma torrente de lágrimas. 

   Quando estava assim olhando e chorando, três gloriosíssimas pessoas vieram e o saudaram, cada uma delas dizendo-lhe: “Paz: a paz do Senhor seja convosco.” A primeira acrescentou: “Teus pecados te são perdoados;” a segunda tirou-lhe os trapos sujos e o vestiu com hábitos lustrosos; a terceira lhe pôs um sinal na testa e lhe deu um escrito de que pendia um selo: ela recomendou-lhe que o considerasse atentamente durante a viagem e o entregasse à porta celeste, ajuntando que, sem apresentá-lo, não seria lá recebido. Depois disto, prosseguiu Cristão seu caminho, saltando e cantando de alegria. 

     Chegou depois a um largo pedaço de terra chã, e viu três homens, um pouco fora do caminho, com grilhões aos pés, e que dormiam profundamente. Um se chamava Inconsideração, outro Preguiça, e o terceiro Temeridade

   Cristão vendo-os naquele estado, se aproximou deles para acordá-los, e gritou, vós sois como aqueles que dormem no cume do mastro, sobre um mar bravo, e debaixo de vós há um abismo que não tem fundo. Levantai-vos, e vinde: ajudar-vos-ei a soltar-vos dos grilhões. Olhai, se aquele que anda ao derredor de vós como um feroz leão, passar por aqui, vós sereis sua presa, e não haverá quem vos valha. 

    Abriram os seus olhos, e enquanto Cristão falava olharam para ele; então disse Inconsideração: “Eu não vejo perigo nenhum;” Preguiça: “Ainda mais um bocado de sono;” e Temeridade: “Não me importa.” Assim deitaram-se de novo, e tornaram a dormir. 

    Cristão foi adiante no seu caminho, mas estava muito triste, pensando no perigo daqueles desgraçados que se expunham à morte, e desprezaram os bons conselhos e socorro que lhes oferecera. 

     Ainda deplorava a sorte daqueles quando percebeu dois homens que saltaram da muralha no lado esquerdo do caminho, e logo vieram ter com ele. Um deles se chamava Formalista, e o outro Hipócrita.



Disse-lhes Cristão: – Donde vindes, meus senhores, e para onde caminhais? Responderam: – Nós somos nascidos no país de Vanglória, e vamos neste caminho em busca de louvores. 

CRISTÃO. – Por que não viestes pela porta estreita que está à entrada deste caminho? Não sabeis vós que está escrito: (S. João 10) “Aquele que não entra pela porta, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e roubador?” 


FORMALISTA E HIPÓCRITA. –Todos os nossos compatriotas dizem que é muito longe ir por aquela porta, e que é muito melhor caminho e mais curto saltar da muralha como nós acabamos de fazer.

CRISTÃO. –Que vos dirá o Senhor do país para onde queremos ir? Não terá por crime o andar contra sua expressa vontade? 

FORMALISTA E HIPÓCRITA. – Há exemplos bastantes de senhores que vieram como nós; tem sido o costume por mais de mil anos. 

CRISTÃO. – Mas se vosso costume estiver contra a lei, que fará o juiz? 


FORMALISTA E HIPÓCRITA. –Um costume estabelecido por uma tal antiguidade, será recebido como legítimo por todos os juízes imparciais. Além disso estamos no caminho também como vós, que entrastes pela porta. Não estais mais adiantado que nós que passamos por cima da muralha. Em que estais melhor que nós? 

CRISTÃO. – Eu marcho pela lei de meu senhor; vós andais só segundo vossa fantasia. Pelas palavras do mesmo Senhor, se vê que sois (S. João 10) ladrões e roubadores. Entrastes sem seguir o conselho do Senhor, e talvez suceda que saiais sem o socorro da sua misericórdia. 

FORMALISTA E HIPÓCRITA. –Em quanto à lei, nós não duvidamos, que a temos guardado tão bem ou melhor que vós; e não vemos diferença alguma entre nós e vós, senão naqueles hábitos, que sem dúvida vos foram dados por algum amigo para cobrir vossa vergonha e nudez. 

CRISTÃO. – Ninguém pode ser salvo por seus esforços de cumprir com a lei de Deus. todos quebramo-la, e ela é que condena o pecador. Estando assim o caso, vós vangloriosos não quereis seguir as regras do Evangelho; não quereis humilhar-vos, e chegar-vos ao Salvador como criminosos, confessando que mereceis a pena da morte eterna. Não vos agrada essa porta estreita, e não entrando por ela não podeis ser salvos. 

   Quanto a meu vestido, não me foi dado por vizinho algum, mas pelo Senhor mesmo; e, como vós dizeis muito bem, para cobrir a vergonha da minha nudez; e é um belo testemunho da sua amizade. Tirou-me os trapos sujos e rotos que tinha, e me vestiu de maneira que me conhecerá quando chegar à porta do céu. Outra pessoa bem conhecida do Senhor me fez um sinal na testa, em que talvez não tenhais reparado; e me deu um escrito selado com o próprio selo do Senhor, e que me há de servir de passaporte ao céu. Vós não tendes nenhuma dessas coisas porque não entrastes pela porta. 

     A tudo isto Formalista e Hipócrita não deram resposta alguma. Olharam-se um ao outro, e se sorriram, murmurando somente algumas palavras a respeito das “formas da nossa igreja.” 

     Todos eles continuaram no seu caminho, mas Cristão sempre marchava adiante. Umas vezes, suspirou, outras saltou de alegria, muitas leu o escrito que lhe fora dada ao pé da cruz, e admirou-se do seu brilhante vestido. 

     Assim andaram até que chegaram ao pé de um monte, que se chama Dificuldade; lá havia uma fonte de belíssima água: lá também haviam mais dois caminhos largos, um para a direita e outro para a esquerda. O caminho estreito, porém, ia diretamente para cima. Cristão foi para a fonte a refrescar-se um pouco, e depois começou corajosamente a subir o monte. 

    Formalista e Hipócrita chegaram também ao pé do monte; mas logo que viram quanto ele era alto e íngreme, e descobriram os outros caminhos, um a cada lado, pensaram que poderiam ir por eles, e chegar por fim ao caminho ao caminho estreito da outra banda do monte; sem ter o incômodo de subi-lo. Por isso resolveram-se cortar o alto de Dificuldade, e seguir os caminhos na planície, dos quais um se chamava Perigo e o outro Perdição. O caminho do Perigo dava em um grande bosque, onde Formalista perdeu o caminho e nunca mais pode voltar. O de Perdição ia ter a um campo escuro onde Hipócrita levou queda sobre queda, e enfim desapareceu de todo. 

CAPÍTULO VIII
Algumas vezes sucede que a alma que goza do descanso do Senhor se esquece da sua viagem, dorme no meio de dificuldades, e traz sobre si novas aflições. 

     Olhei então atrás de Cristão para ver o que lhe sucedia no monte, e notei que em lugar de correr como antes, foi obrigado a reter o passo, e pouco depois andar a cair sobre as mãos e joelhos por causa da aspereza do caminho, que era muito escarpado. 

     Em meia altura do monte havia um lugar de descanso que o senhor do caminho tinha mandado fazer para dar algum repouso aos viajantes. Cristão entrou, e assentou-se para descansar; e para fortalecer-se mais, tirou o escrito que recebera ao pé da cruz, e se pôs a ler. Algumas das coisas lhe causaram grande alegria, que por muito tempo durou. Enfim, pouco a pouco caiu e foi adormecendo, e depois dormiu profundamente. Então escapou-lhe da mão o escrito que devia entregar na porta do céu. No mais profundo do seu sono, e quando já era quase noite, ele percebeu que alguém o tocou rudemente, e o acordou, dizendo (Provérbios 6:6): “Vai ter, ó preguiçoso, com a formiga, considera os seus caminhos, e aprende dela a sabedoria.” 

    A esta voz ele se levantou assustado, e com grande pressa, dobrou seus esforços para subir a ladeira; mas quando chegara ao cume do monte encontrou dois homens que cheios de medo voltavam de carreira; um deles era Timidez e o outro Desconfiança

    Que tendes, meus senhores? Gritou Cristão. Por que virastes as costas ao caminho da bem-aventurança? 

TIMIDEZ. – Queríamos ir ao reino da glória, e por isso subimos esta ladeira, mas, quanto mais avançamos, maiores perigos encontramos. 
É verdade, disse Desconfiança, apenas tínhamos passado a ladeira quando, pouco em frente de nós vimos dois leões no caminho, e não querendo sermos devorados, nada podíamos fazer senão voltar e correr. 

CRISTÃO. – Me espantais, senhores: mas para onde fugirei eu? Onde estarei seguro? Se voltar ao meu país, não posso salvar-me, porque esse tem de ser abrasado pelo fogo do céu: se puder chegar ao reino da glória, serei perfeitamente seguro, e terei uma vida eterna. Em vista disto, estou resolvido a continuar o meu caminho. 

    Dizendo assim, se pôs com vigor a caminhar, enquanto Timidez e Desconfiança desceram o monte às carreiras. 

     Mas, Cristão não podia deixar de pensar sobre aquilo que esses homens lhe disseram; e quando quis fortificar-se contra os perigos que o ameaçavam, e para isso meteu a mão no seio parar tirar e ler o escrito que lhe fora dado, não o achou. 

    Ora, aquele escrito era sua consolação nas aflições, seu arrimo nos perigos, seu passaporte no céu; e quando descobriu que o tinha perdido, ficou espantado e muito aflito. No meio da sua perturbação se lembrou que o tinha na sua mão quando principiou a dormir na cabana. Lançou-se imediatamente de joelhos diante de Deus, e lhe pediu que perdoasse seu pecado: então voltou para ir procurar o seu escrito. 

     Andou com muito pesar, e sentiu grandes dores naquele triste caminho; suspirava e aborrecia a si mesmo por haver dormido em um lugar que apenas era para ele descansar. Foi olhando para todos os lados a ver se podia achar seu escrito; tornou a ver a cabana em que tinha dormido, e esta vista fez redobrar seu pesar e se pôs a deplorar o seu sono insensato. 

      Ah! Gritou ele, miserável que sou! Abandonei-me ao sono durante o dia e até no meio de dificuldades. Tenho de passar três vezes onde uma seria bastante se fora prudente. Perdi o tempo, e agora a noite vai pilhar-me. 

     Entre tais lamentações chegou à cabana e entrou suspirando e chorando amargamente; mas como ele olhava com grande tristeza para o lugar onde tinha dormido, lá viu seu escrito com selo e tudo são. Ele o apanhou todo trêmulo e o meteu no seu seio com transportes de alegria, e com sentimentos da mais profunda gratidão, e desta sorte se pôs outra vez a caminho. Porém, posto que fizesse os maiores esforços para ganhar o alto do monte, pôs-se o sol antes que pudesse chegar ao cume, e o fez recordar do perigo de seu sonho. 

     Lembrou-se também dos leões que Timidez e Desconfiança lhe disseram que tinham visto no caminho. Se é assim, disse ele a si mesmo, e agora é quase a noite, quando as feras saem a buscar a sua presa, como poderei evitar as suas garras? Não haverei de ser feito em pedaços? 

    Continuando o seu caminho, entre estes pensamentos, levantou os olhos, o descobriu diante de si um magnífico palácio que tem o nome de Formoso, e deu-se pressa para chegar, e passar ali a noite. 


     No entanto aproximou-se a uma parte do caminho muito estreito, distante quase meia milha da porta do palácio, e como ele olhasse com muito cuidado, viu os leões no mesmo caminho. Lá estão, lá estão, disse ele, e seu coração principiou a bater fortemente: estes são os que fizeram voltar para trás Timidez e Desconfiança

   Ora os leões estavam presos, mas ele não podia ver as correntes, e foi assaltado de um tão grande terror que começou a pensar se devia voltar, pois parecia que não tinha que esperar senão a morte. Porém o porteiro do palácio, chamado Vigilante, notando da sua torre de vigia, que Cristão tinha parado, e que parecia disposto a fugir, lhe gritou: “Tendes vós tão pouca coragem! Não tenhais receio destes leões, porque estão presos; e estão lá somente para provar a fé dos viajantes, e mostrar quais são os que não a tem. Marchai sempre pelo meio do caminho e não vos sucederá mal algum. 

CAPÍTULO IX
Quando um crente quer unir-se a um ajuntamento dos fieis, estes devem com devoção, prudência e amor, examiná-lo para saber se é verdadeiramente crente. 

CRISTÃO. –Adiantou-se posto que tremendo, e tomando muito sentido na advertência que o porteiro lhe tinha feito. Rugiram furiosamente aquelas feras, mas não o podiam tocar. Quando as tinha passado, andou batendo as palmas em sinal da alegria que sentia por haver tão felizmente escapado, e dessa maneira veio ter com o porteiro, e perguntou-lhe a quem pertencia aquela casa, e se poderia lá passar a noite. 
VIGILANTE. – Esta casa foi edificada pelo Senhor do céu, para comodidade e segurança dos viajantes, que vão para seu reino; mas vós, donde viestes e para onde quereis ir? 
CRISTÃO. – Venho da cidade de Corrupção e vou para o reino da Glória. Como o sol se tem posto desejaria, se fosse possível, ficar aqui esta noite. 
VIGILANTE. – Como vos chamais vós. 
CRISTÃO. – Agora meu nome é Cristão, antes era Fora-de-Graça.
VIGILANTE. – Como sucedeu que viestes tão tarde? O sol já está posto. 
CRISTÃO. – Teria chegado mais cedo mas, ai de mim! Deixei-me desgraçadamente apoderar do sono na cabana que está no meio da ladeira e que mais me fez retardar foi que meu passaporte me caiu das mãos quando dormia, e fui obrigado a tornar a procurá-lo. Felizmente o achei; mas ei o motivo porque vim tão tarde. 
VIGILANTE. – Muito bem. Vou chamar uma das pessoas que moram aqui e que vos introduzirá (se a vossa conversação lhe agradar) aos outros habitantes de palácio, conforme o costume que temos. 
Imediatamente o porteiro tocou um sino, ao som do qual veio uma menina muito modesta e graciosa, chamada Discrição, que perguntou ao porteiro porque havia tocado. Este respondeu que havia ali um homem que viera da cidade de Corrupção de viagem para o reino Celeste, e que achando-se fatigado perguntava se podia passar esta noite no palácio. 
A jovem perguntou, pois, a Cristão donde veio e para onde ia, e ele lhe disse: como achou o caminho e o que viu, e encontrou nele e ele lhe disse. Perguntou-lhe seu nome. É Cristão disse ele, e tenho muita vontade de passar a noite aqui porque entendo que esta casa foi edificada pelo Senhor para a segurança e descanso dos viajantes. Ele sorriu-se, mas as lágrimas lhe saltaram aos olhos. Depois de um momento de silêncio, ela lhe disse que ia chamar mais duas ou três pessoas da casa, e correndo à porta chamou Prudência, Devoção e Caridade. Estas falaram um pouco mais com ele, e introduziram-o à família, que deu-lhe as boas vindas à entrada da porta, dizendo: “Entrai bendito do Senhor, esta casa foi edificada de propósito para receber tais viajantes.” Ele saudou-os, entrou e se assentaram; e foi resolvido que, para aproveitar-se do tempo, alguns falassem com Cristão, enquanto se preparava a ceia. Para isto foram nomeadas Devoção, Prudência e Caridade, e desta maneira principiaram. 
DEVOÇÃO. – Vinde, bom Cristão, conversemos das coisas que vos sucederam na vossa viagem. Talvez poderemos tirar algum proveito para nós. 
CRISTÃO. – De muito boa vontade. Agrada-me muito vos achar com tal disposição. 
DEVOÇÃO. –Por que razão resolvestes-vos a fazer esta viagem? 
CRISTÃO. – Fui obrigado a sair da minha pátria por causa de um som terrível que me entoava nos ouvidos: a saber, que seria infalivelmente perdido se ficasse ali. 
DEVOÇÃO. –Mas como sucedeu que saístes da pátria por este caminho? 
CRISTÃO. – Foi porque Deus assim quis. Quando temia a perdição e não sabia por onde caminhar, veio ter comigo por acaso quando estava tremendo e chorando, um homem chamado Evangelista, e me dirigia à porta estreita. Se não fosse assim nunca poderia tê-la achado. 
DEVOÇÃO. – Viestes pela casa do Intérprete
CRISTÃO. – Sim, e lá vi coisas que me hão de ficar na memória enquanto viver, especialmente três coisas: - 1ª Como em despeito de Satanás, o Senhor continua sua obra de graça no coração. – 2ª Como o homem pecou até que perdeu toda a esperança da misericórdia de Deus; e 3ª, o sonho daquele que julgou que o dia de juízo viera. 
DEVOÇÃO. – Disse-vos o que tinha sonhado? 
CRISTÃO. – Sim, e me parecia muitíssimo terrível: fazia doer-me o coração quando me contava; mas estou contente de ter o ouvido.
DEVOÇÃO. – Não vistes mais nada na casa do Intérprete
CRISTÃO. – Vi mais: mostrou-me um palácio com seus habitantes em vestidos de ouro, e um homem atrevido que cortou seu caminho pelo meio da gente armada, e foi convidado a entrar e gozar da glória eterna. As coisas que vi lá me abrasavam o coração. Gostaria ter-me demorado ali por um ano inteiro, mas sabia que tinha de ir mais longe. 
DEVOÇÃO. – E que mais vistes no caminho? 
CRISTÃO. – Que mais? Pouco me havia adiantado no caminho, quando vi (com os olhos da minha alma) uma pessoa sangrenta pendurada em uma árvore. Quando o vi, caiu-me das costas minha carga, pois antes gemia debaixo de um terrível, mas naquele momento caiu. Nunca tinha visto coisa semelhante e muito me fez admirar. Sim, e quando olhava para o crucificado (não podia deixar de olhar), vieram ter comigo três brilhantíssimas pessoas. Uma delas me testemunhou que meus pecados me foram perdoados; outra tirou-me os trapos e me deu este vestido bordado que vedes; e a terceira pôs-me este sinal que podeis ver na minha testa e me deu este escrito e selo. (Dizendo assim o tirou do seio e mostrou-lhes). 
DEVOÇÃO. – Mas não vistes mais? 
CRISTÃO. – As coisas que vos tenho dito eram as melhores; mas vi os três homens, Inconsideração, Preguiça e Temeridade a dormir, um pouco fora do caminho, com ferros sobre os pés; mas parece-vos que podia acordá-los? Vi também Formalista e Hipócrita saltar da muralha, debaixo do pretexto que iam ao céu, mas bem cedo se perderam, como eu mesmo lhes tinha dito. Mas, sobre tudo, custou-me subir este monte e passar pelas bocas dos
leões; e em verdade, se não fora pela bondade do porteiro, não posso dizer que não teria voltado para trás: porém, graças a Deus aqui estou e vos agradeço muito por me terdes acolhido.
CAPÍTULO X.
Continua-se o mesmo assunto. Doce repouso da alma crente quando num ajuntamento da igreja os fieis se lembram do amor e da morte do seu Salvador.
Então Prudência quis fazer-lhe umas pergunta e pediu que lhas respondesse.
PRUDÊNCIA. – Não pensais algumas vezes do país donde viestes?
CRISTÃO. – Sim, mas com vergonha e desgosto: se tivesse desejado, podia ter voltado. Desejo outro país, que é o céu.
PRUDÊNCIA. – Não trazeis ainda convosco algumas coisas das que vos ocupavam na vossa pátria?
CRISTÃO. – Sim, mas muito contra minha vontade; especialmente os maus pensamentos de que eu (como todos os meus compatriotas) gostava; agora me afligem; e se pudesse escolher não pensaria mas naquelas coisas; mas (Romanos 7:21.) acho que quando quero fazer o bem, o mal se me apresenta.
PRUDÊNCIA. – Não vos parece algumas vezes que aquelas coisas estão vencidas, que ao depois vos tornam atormentar?
CRISTÃO. – Sim, mas poucas vezes: são para mim horas de ouro quando estou livre delas.
PRUDÊNCIA. – Sabeis os meios pelos quais de vez em quando essas coisas parecem vencidas?
CRISTÃO. – Quando medito no que vi na cruz; quando olho para meu vestido bordado; quando leio no escrito que trago no meu seio; e quando penso no lugar para onde vou, todas estas coisas o fazem.
PRUDÊNCIA. – E por que quereis ir lá?
CRISTÃO. – Lá espero ver vivo aquele que por mim foi morto na cruz; espero ficar para sempre livre de tudo que
agora me incomoda; lá dizem que não há morte; e lá acharei a companhia que mais gosto. Quero ir porque amo aquele que me livrou da minha carga; estou enfastiado da minha moléstia interna; gostaria estar aonde nunca haverei de morrer, e com aqueles que sempre gritam (Apocalipse 4:8.): Santo, Santo, Santo.
Então Caridade disse a Cristão: – Estais casado? Tendes filhos?
CRISTÃO. – Tenho mulher e quatro filhos.
CARIDADE. – E porque não os trouxestes convosco?
Sobre isto Cristão chorou, e disse. Oh! com quanta vontade os teria trazido! Mas todos se opunham a minha viagem.
CARIDADE. – Mas devias terdes falado e mostrado o perigo de ficar atrás.
CRISTÃO. – Assim fiz, e disse-lhes o que Deus me mostrará a respeito da destruição de nossa cidade; mas (Gênesis 19:14) parecia-lhe que eu falava zombando, e não me creram.
CARIDADE. – Rogastes a Deus que Ele lhes abençoasse vosso conselho?
CRISTÃO. – Sim, e com muita ânsia; pois minha mulher e meus pobres filhinhos me são muito queridos.
CARIDADE. – Vós falaste-lhes da vossa própria miséria, e do medo que tivestes da perdição? Pois vós bem sabíeis que a destruição há de vir.
CRISTÃO. – Lhes disse muitas e muitas vezes. Podiam ver na minha cara, em minhas lágrimas e tremores de susto, quanto me espantavam os ameaços do juízo; mas nada disto os persuadiu vir o comigo.
CARIDADE. – Que razão podiam dar para não virem?
CRISTÃO. – Minha mulher tinha medo de perder este mundo; meus filhos gostavam das loucuras da mocidade, e assim por um motivo e por outro, me deixaram vir desta maneira só.
CARIDADE. – Mas talvez vós, pelo descuido de vossa conduta, contradissestes as palavras com que procurastes persuadi-los a vir convosco.
CRISTÃO. – Não posso gabar a minha vida, porque sei que nela há muitas falhas. Sei também que um homem pode, por sua conduta, contrariar tudo o que diz para o bem dos outros; mas posso dizer que tenho tido muito cuidado, vigiando contra tudo que os fizesse desgostar desta viagem. Sim, e por isso mesmo me diziam que era santo de mais, e que me negava coisas em que eles não podiam ver mal algum. Creio até que se qualquer parte da minha conduta os escandalizou, era o meu grande cuidado de não pecar contra Deus ou fazer mal ao meu próximo.
CARIDADE. – (1 João 3:12) Caim aborreceu seu irmão, porque suas obras eram más, e as de seu irmão justas, e se tua mulher e filhos ficaram escandalizados por motivo semelhante, se mostram opostos ao bem, e livrastes vossa alma do seu sangue. Vi em meu sonho que continuaram a conversar desta maneira, até que a ceia estava pronta: então se assentaram à mesa que estava coberta (Isaías 25:6) de manjares substanciais tutâneas, de um vinho sem fezes; e todas as conversações que tiveram à mesa versaram sobre o senhor do palácio, sobre o que ele fizera, e porque o fizera, e sobre os motivos porque edificou aquela casa; entendi de suas palavras que ele tinha sido um grande guerreiro, que havia combatido contra aquele que tinha o poder da morte, e o tinha vencido: mas não sem grandes padecimentos seus, e isto os faziam amá-lo ainda mais. Porque, “como disseram, e como eu creio, disse Cristão, o fez com a perda de muito sangue; e o que faz brilhar mais gloriosamente sua empresa, é, que foi feito de puro amor.
Alguns da casa disseram que o tinham visto, e até tinham falado com ele, depois da sua morte sobre a cruz; e
declararam que o tinham ouvido dizer dos seus lábios, que não há outro amigo dos viajantes ao céu, que se possa comparar ele.
Em prova disto disseram que se tinha despido d sua glória, para cumprir aqueles trabalhos a favor dos mais pobres; e que o tinham ouvido dizer que não queria estar só em sua glória. Disseram também que tem elevado à dignidade de princípios muitos que andaram a pedir esmolas.
Assim continuaram a conversar até à alta noite; e depois de se entregar à proteção do Senhor, retiraram-se a tomar repouso. Cristão foi conduzido a um quarto alto, e muito espaçoso, chamado Paz, cujas janelas davam para o oriente, e lá dormiu até ao romper do dia. Então se levantou, cantou louvores e deu graças ao Senhor.
CAPÍTULO XI.
Os crentes têm muitas coisas interessantes, de que tratam nos seus ajuntamentos.
Pela manhã todos se levantaram, e depois de conversar um pouco mais, disseram que Cristão não partisse sem ver as coisas curiosas que lá havia. Em primeiro lugar, conduzindo-o ao estudo e lhe mostraram a história mais antiga que há no mundo, e nela a genealogia do Senhor do palácio que é o Filho Unigênito do mais antigo. Nela também lia-se mais particularmente o que ele fez, e os
nomes de muitos que o servirão, e que ele agora tem posto a morar em palácios eternos.
Então lhe leram algumas porções da história, mostrando como alguns servos do Senhor, (Hebreus 3:11, 33-34) conquistaram reinos, obraram ações de justiça, alcançaram as promessas, taparam as bocas dos leões, suspenderam a violência do fogo, evitaram o fio da espada, convalesceram de enfermidades, foram fortes na guerra e puseram em fugida exércitos estrangeiros.
Leram-lhe também noutro lugar da história, aonde se vê que o Senhor está pronto a receber em sua graça todos, ainda que em tempos passados tenham ultrajado sem governo e sua pessoa. Nesses mesmos registros, lhe mostraram também a história de outras coisas famosas, juntamente com profecias, que serão, com toda a certeza, cumpridas para a confusão dos inimigos de Deus, e para a alegria e consolação dos viajantes ao céu.
No dia seguinte o levaram à armaria e lhe mostraram todas as qualidades de armas que o Senhor tem preparadas para os viajantes em seus caminhos, a espada, o escudo, o capacete, o peito de aço e a oração constante. Havia lá armas bastantes dessas qualidades para armar tantos homens como há estrelas no céu.
Mostraram-lhe também os instrumentos com que alguns servos do Senhor fizeram maravilhas; entre outros a vara de Moisés, as quartas, trombetas e lanternas, com que Gideão pôs em derrota os exércitos de Midiã, a relha de arado com que Sangar matou seiscentos homens.
Mostraram-lhe também a queixada de jumento com que Sansão fez tanto estrago, a funda e pedra com que Davi matou o gigante de Get, e a espada com que o
Senhor destruíra o homem de pecado no dia de vingança. Lhe fizeram ver ainda muitas outras coisas maravilhosas, e depois, chegada a hora de descanso foram tomar repouso.
Ora vi em meu sonho, que no dia seguinte Cristão se levantou cedo para continuar a sua viagem, mas pediram-lhe que se demorasse mais um dia; porque, diziam eles, queremos mostrar-vos, se o dia estiver claro, as montanhas deliciosas, e isto vos dará muito prazer, pois são muito mais perto ao fim da viagem: assim consentiu, e ficou.
De madrugada, pois, conduziram-o para o terraço da casa, e lhe disseram que olhasse para o meio-dia;o que ele fez, e descobriu a uma grande distância m terreno montanhoso, rico em vinhas, todas as sortes de frutos, flores e árvores, com pontes, ribeiros e cascatas. Perguntou o nome do país. Disseram: é a terra de Emanuel; e lá os viajantes têm tanta liberdade como aqui. Dali também podereis ver a portas da cidade celeste: os pastores vô-la mostraram.
Então quis continuar a sua viagem, mas, primeiro acompanharão-o, outra vez, à armaria; e armaram-o completamente (Efésios 6:11.) na armadura de Deus. Dessa maneira revestido foi para a porta, com seus amigos, e perguntou ao porteiro se havia visto passar algum viajante. 
PORTEIRO.- Sim. 
CRISTÃO.- O conheceste, senhor? 
PORTEIRO. – Perguntei-lhe seu nome, e me disse que é Fiel
CRISTÃO. – O conheço, é da minha cidade, meu vizinho, do mesmo lugar onde eu nasci. Quanto vos parece que esteja já adiantado?
PORTEIRO. – Já há de ter estar ao pé do monte.
CRISTÃO. – Pois bem, meu caro amigo, o Senhor esteja convosco, e vos abençoe abundantemente por toda a caridade que tivestes para comigo.
Assim despediu-se: - mas Devoção, Caridade, Prudência, e Juízo acompanharam-o até ao pé do monte. Caminharam repetindo o que já disseram, até ao princípio da descida. Então disse Cristão. A subida foi muito custosa, mas agora veja que a descida é muito mais perigosa.
PRUDÊNCIA. – É verdade, custa muito a um homem descer como vós agora fazeis no vale de humilhação, sem levar queda alguma, por isso viemos acompanhar-vos até ao pé do monte. Desceu muito devagar, ainda assim não foi sem escorregar.
Chegado Cristão à planície seus bons companheiros deram-lhe um pão, uma garrafa de vinho, e um cacho de passas; então continuou o seu caminho.
CAPÍTULO XII.
Quando o crente tem de passar por grandes humilhações, o demônio se esforça abalar-lhe a fé; mas a alma fiel sai vitoriosa.
No vale da Humilhação o pobre Cristão achou-se em grande aperto; porque tinha andado pouco nele, quando viu aproximar-se o grande inimigo Apoleão. Então temeu, e principiou a pensar se era melhor fugir, ou encarar o monstro. Lembrou-se, porém, que não tinha armas para as costas, e que o inimigo mais facilmente poderia feri-lo, se fugisse, por isso resolveu a ficar firme, dizendo a si mesmo: “Não posso esperar salvar a minha vida, se fugir.” Foi adiante, e Apoleão veio encontrá-lo.
Ora, o monstro era feio a horrível, coberto de escamas, em que se gloria; tinha as asas de um dragão e os pés de um urso; do seu ventre saía fogo e fumo, e sua boca era semelhante a de um leão. Quando chegou Cristão o olhou com desdém, e perguntou donde veio e para onde queria ir.
CRISTÃO. – Vim da cidade da Corrupção, – a morada de tudo que é mau, – e vou para o reino celeste.
APOLEÃO. – És um dos meus súditos então; pois todo aquele país me pertence; sou seu príncipe e seu Deus. porque fugiste do serviço de teu rei? Se não esperava que ainda me serias proveitoso, te mataria num momento.
CRISTÃO. – É verdade que sou nascido debaixo de vosso governo, mas vosso serviço não presta, e o soldo não pode sustentar um homem, pois o estipêndio do pecado é a morte (Romanos 6:23); por isso quando cheguei a ser homem, fiz como outras pessoas de juízo, procurei melhorar a minha sorte.
APOLEÃO. – Não há príncipe que consinta perder assim seus súditos, nem te deixarei ir desta maneira; mas enquanto ao serviço e salário de que te queixas, estejas contente de voltar, e prometo dar-te aquilo que o país produz.
CRISTÃO. – Mas tenho contratado com outro, que é o rei dos reis; e como posso voltar convosco.
APOLEÃO. – Nisto fizeste conforme ao adágio (trocado o mal pelo pior); mas é costume daqueles que andam pouco tempo em seu serviço, largá-lo, e voltar outra vez para mim. Faz assim e tudo ficará bom.
CRISTÃO. – Eu lhe tenho prestado juramento; se voltar agora serei enforcado como traidor.
APOLEÃO. – Também juraste a mim, mas me esquecerei de tudo se voltares.
CRISTÃO. – Isso foi quando era muito criança; e sei que o príncipe, a quem agora sirvo, me pode absolver de todas as promessas a vós; sim, e perdoa-me também o mal que fiz em vosso serviço; e além disso, oh tu Apoleão, Destruidor, a falar a verdade, gosto do serviço dele, seu salário, seus servos, seu governo, sua companhia e seu país mais que do vosso; por isso deixa de persuadir-me mais: sou servo dele, e o seguirei.
APOLEÃO. – Pensa ainda uma vez a sangue-frio, o que hás de encontrar neste caminho em que andas. Bem sabes que a maior parte daqueles que me abandonam, acabam desgraçadamente. Quantos deles morreram cobertos de vergonha, e na maior miséria, por me terem escandalizado.
Preferes o serviço daquele ao meu! Mas ele, quando saiu do seu descanso para livrar alguém que o sirva! Eu, como todo o mundo bem sabe, tenho soltado, com poder ou astúcia, e muitas vezes, aqueles que me eram fieis, até quando estavam presos por ele mesmo: e assim te resgatarei também.
CRISTÃO. – Ele demora para prova de seu amor, e para mostrar se lhe ficarem fieis até ao fim: e enquanto à morte que sofrem, e que tendes por vergonhosa e miserável, essa é para eles na verdade cheia de glória. Seus servos estão contentes entre as tribulações por ora:
Esperam a sua glória, e a terão quando o príncipe vier em glória, a glória de seu pai, e com todos os anjos de glória.
APOLEÃO. – Já foste infiel ao seu serviço; e ainda tu ousas lisonjear-te de receberes dele recompensa?
CRISTÃO. – Em que, ó Apoleão, em que lhe tenho sido infiel?
APOLEÃO. – No princípio da viagem te cansaste quando estiveste quase sufocado no atoleiro de desespero. Procuraste livrar-te do fardo por meios ilícitos. Dormistes no meio de dificuldades, descuidando das coisas preciosas: tiveste medo dos leões, e estiveste quase persuadido a voltar; e quando falas da viagem, e do que viste e ouviste, é com uma vanglória que ofende o príncipe.
CRISTÃO. – Isso tudo é verdade, e ainda mais; porém aquele a quem sirvo é misericordioso e pronto a perdoar: em vosso país fazia o mesmo, e muito pior, com prazer. Depois chorei-o, e arrependi-me, e meu príncipe me perdoou.
Então Apoleão enfureceu-se e gritou: - Sou inimigo daquele príncipe, aborreço sua pessoa, suas leis e seu povo, e vim de propósito a combater-te.
CRISTÃO. – Cuidai no que fazeis, Apoleão, pois estou no caminho do Rei, o caminho de santidade: olhai para vós.
Apoleão atravessou-se diante do Cristão, tomando toda a largura do caminho, e disse: - Eu nada temo: prepara-te à morte, pois juro, pelo meu abismo infernal, que tu não passarás adiante: aqui mesmo morre a tua alma. Dizendo assim atirou uma seta de fogo ao coração de Cristão, mas este a aparou com seu escudo, e evitou esse perigo.
Então atraficou Cristão sua espada, preparando-se por uma lufa encarniçada, e Apoleão o atacou furiosamente, lançando dardos como um chuveiro; de sorte que apesar de todos os seus esforços, Cristão foi ferido na cabeça, na mão, e no pé, e recuando um pouco, foi mais violentamente investido. Outra vez, cobrando ânimo, resistiu valentemente, e assim o terrível combate durou mais de meio dia; até que as forças de Cristão lhe iam faltando e por causa das suas feridas estavam quase exaustas.
Apoleão vendo sua vantagem, aproximou-se de Cristão, e travando-se pé com pé na luta, deu-lhe uma queda terrível que lhe fez cair a espada da mão.
Agora, gritou Apoleão, agora te tenho seguro, e o apertou quase até a morte; de maneira que o Cristão principiou a desesperar, mas, pela bondade de Deus, aconteceu, que quando Apoleão levantava o braço para dar
o golpe mortal naquele bom homem, Cristão estendeu rapidamente a mão para as espada (Efésios 6:17) alcançou-a dizendo: Não te glories sobre mim, inimigo, caí, mas torno a levantar-me; e com isso deu-lhe uma ferida tão rija, que recuou como quem levou uma pancada mortal. – Quando viu isto, Cristão o atacou outra vez, dizendo (Romanos 8:37): “Em todas estas coisas saímos vencedores por aquele que nos amou.” Então Apoleão abriu suas asas de dragão e fugiu, e o Cristão nunca mais o tornou a ver.
Aqueles que não presenciaram um combate semelhante, não podem ter ideia dos gritos e rugidos de Apoleão durante a luta, nem dos suspiros e gemidos que Cristão soltava do fundo de seu coração. No seu rosto não havia um só raio de prazer até que vi que Apoleão foi ferido pela espada de dois gumes. Então olhou para cima sorrindo. Foi o espetáculo mais terrível que eu jamais vi.
Acabado o combate, disse Cristão: aqui mesmo darei graças Àquele que me ajudou contra Apoleão; Àquele que livrou-me da boca desse leão, e assim fez dizendo:
Este veio me matar
E ao inferno me levar;
Jesus fez-me triunfar!
Graças a Jesus.
Graças ao Salvador
Que livrou-me do furor
Do feroz destruidor;
Graças a Jesus.
Graças ao bom Senhor
Que morreu por amor
De mim, pobre pecador!
Graças a Jesus.
Então veio-lhe uma mão com umas folhas da árvore da vida: Cristão as tomou, e aplicou-se às feridas que ficaram logo saradas. Lá, também assentou-se a comer do pão e beber do vinho que pouco antes lhe foram dados. Depois, tendo cobrado as forças, continuou a jornada com a espada nua na mão, porque, disse ele, não sei que outros inimigos possa encontrar aqui; mas, por todo aquele vale, não lhe ofereceram mais afrontas.
CAPÍTULO XIII.
Aquele que crê as palavras de Deus vê por meio delas coisas que os outros homens não podem perceber; e nele produzem sentimentos de pesar e de alegria, de terror e de esperança que os outros não podem compreender.
Ao fim do vale de Humilhação havia outro chamado o vale da Sombra da Morte, e por ali tinha de passar Cristão, porque o caminho direito à cidade celeste ia pelo meio dele. Ore, aquele vale é um lugar muito solitário. O profeta (cap. 2:6) Jeremias o pinta desta maneira: “Deserto, terra despovoada, sem caminho, terra de sede, imagem da morte, na qual não anda varão, nem habita homem.” Nele Cristão padeceu mais que na sua luta com Apoleão, como haveis de ver.
A entrada deste vale encontrarão-o dois homens, filhos (números 13:33) daqueles que infamaram a boa terra; e vinham de carreira, quando Cristão lhes disse:
Onde ides vós?
HOMENS. – Para trás, para trás, vinde vós também se quereis ter paz ou vida.
CRISTÃO. – Por que? O que há de novo?
HOMENS. – De novo! Nós íamos pelo caminho em que vós estais; temos ido até o último ponto que nos foi possível: pouco mais, e não nos teria sido possível voltar, e trazer-vos as novas.
CRISTÃO. – Pois, o que encontrastes?
HOMENS. – Estávamos quase dentro do vale da sombra da morte, mas, por boa fortuna, olhávamos adiante, e vimos o perigo antes de cair nele.
CRISTÃO. – Mas o que é que tendes visto?
HOMENS. – Visto! O vale mesmo, que é a morada das profundas trevas, lá vimos os demônios e os espíritos malignos, e dragões do abismo. Lá ouvimos gritos, gemidos e rugidos como de um povo numa miséria perpétua e inefável, de um povo aflito e em grilhões. Sobre o vale permanecem as nuvens de confusão que afogam o ânimo, e sobre ele a morte sempre estende as suas asas. Numa palavra, é todo horrendo.
CRISTÃO. – Ainda que assim seja, por aqui é o caminho direito, e por aqui hei de seguir na minha viagem: não posso duvidar que este é meu caminho.
HOMENS. – Pois seja vosso, nós não o queremos para nós.
Assim separaram-se, e Cristão continuou seu caminho, com a espada nua na mão, temendo que fosse envestido.
Vi também, em meu sonho, que em todo o comprimento daquele vale havia ao lado direito um barranco e um fosso profundo: (Esse é o barranco onde em todos os séculos os cegos condutores de cegos (S.
Lucas 6:39 têm caído com aqueles que enganavam e ambos têm miseravelmente acabado,) e ao esquerdo vi uma lagoa de lodo e lama tão funda, que quando um homem cai nela não toma pé. Numa ocasião o rei Davi foi aí atolado, e lá sem dúvida teria morrido se o Senhor Todo Poderoso não o tivesse tirado.
A vereda também era extremamente estreita; e isto aumentava o perigo; porque quando nas trevas, Cristão queria evitar o barranco se expunha a cair na lagoa, e quando pretendia evitar a lagoa de lodo, se não andasse com a maior cautela, cairia no barranco. Pois assim andou, e ouvi gemer amargamente, porque a escuridão era tal, que quando levantava um pé, não podia ver onde, ou em que havia de pô-lo.
No meio do vale vi a boca do inferno, e estava próxima à vereda, agora, pois, pensou Cristão, que hei de fazer? De contínuo saiam dela chamas e fumo em grande quantidade com brasas e estrondos temíveis, coisas que não faziam caso da espada de Cristão (com que ferira Apoleão): por isso embainhou-a e pegou em outra arma chamada oração constante, e o ouvi gritar: ó Senhor, rogo-te livra minha alma.
Assim andou muito tempo, e de vez em quando as chamas chegavam até quase a tocá-lo; também ouviu vozes muito tristes e espantosas, e tais arruídos que algumas vezes supunha que ia ser feito em pedaços, ou calcado debaixo dos pés, como a lama das ruas. Presenciou essas vozes e vistas por muitas léguas de caminho, e então chegando a um lugar onde parecia-lhe que ouvia o ruído de uma tropa de inimigos que vinham surpreendê-lo, parou, e principiou a mediar no que seria melhor fazer. Umas vezes pensava em voltar para trás,
mas depois refletia que talvez tivesse já passado a metade do vale; pensou nos perigos que já tinha vencido, e que o perigo em voltar podia ser maior do que em continuar a viagem. Resolveu ir adiante, mas os demônios pareciam chegar-se mais e mais perto dele; quando estavam já quase tocando-o ele gritou com alta voz: “eu andarei no poder do Senhor, meu Deus” e imediatamente recuaram, e fugiram.
Há ainda uma circunstância que não devo aqui esquecer. O perturbado Cristão estava tão confundido que não reconhecia sua própria voz, pois notei que em frente da boca do abismo de fogo, um dos espíritos malignos veio por detrás, e aproximando-se dele escondidamente, soprou-lhe aos ouvidos, em voz baixa, blasfêmias horríveis que Cristão supunha saírem do seu próprio coração. Isto causou-lhe mais desassossegado que tudo o que lhe tinha acontecido; que blasfemasse contra aquele a quem antes tanto amava! Era contra sua vontade; mas não tinha a prudência de tapar os ouvidos, nem de distinguir donde vinham as blasfêmias.
Depois de andar muito tempo naquela lastimosa condição pareceu-lhe ouvir diante de si a voz de um homem que dizia: (Salmos 23:4): “Ainda que caminho no vale da sombra da morte não temerei mal algum, porque tu estás comigo.” Então folgou Cristão e por estes motivos:
1º Porque sabia que não estava só: outros, que temiam a Deus, estavam no mesmo vale tanto como ele.
2º Porque dessas palavras entendeu, que Deus estava com eles naquela escuridão e tristeza; e então, pensou consigo, pode estar comigo também, ainda que pela natureza deste lugar não o posso ver.
3º Porque esperava que, apressando-se, os poderia alcançar, e fariam boa companhia.
Assim apressou o passo, e chamou em alta voz ao que ia adiante, mas este não sabia o que responder, pois ele também julgará que estava só.
Depois principiou a amanhecer e Cristão disse: “trocou em manhã a sombra da morte.”
CAPÍTULO XIV.
A alma cristã andando na luz encontra com outra animada de sentimentos semelhantes aos seus.
Cristão ficou muito comovido pela vista dos perigos daquele caminho solitário, perigos que antes temia, mas agora via. Era para ele grande vantagem que o sol se levantava, porque é preciso saber que, posto que a primeira parte do vale fosse perigosa, a que ainda tinha de passar era (se é possível) muito mais perigosa. Do lugar onde estava, até o fim do vale, até o fim do vale, o caminho estava cheio de laços, armadilhas, redes, covas, fossos e engenhos para prender homens, de maneira que se fosse tão escuro como antes, e ele tivesse mil vidas, era de esperar que as perdesse todas; mas o sol se levantava, e ele disse: “Sua lâmpada luz sobre a minha cabeça, e, guiado pela sua luz, caminho nas trevas.”
Favorecido com aquela luz chegou ao fim do vale onde havia uma grande quantidade de sangue, ossos, cinzas, e
cadáveres contusos e despedaçados de viajantes que noutro tempo passavam por aquele caminho. Como eu estivesse admirado, pensando no que pudesse ter feito todo esse estrago, vi, um pouco diante de mim, uma caverna em que moravam dois gigantes, Pagão e (Apocalipse 13:11) Cordeiro-Dragão, que tinham cruelmente tirado a vida aos homens cujo sangue, cinza e ossos jaziam lá. Por ali, porém, passou Cristão sem muito perigo que me causou admiração; mas ouvi depois que aquele Pagão foi ferido mortalmente, há já muitos anos, e o outro que ainda vive, está paralítico, fraco e decrépito pela velhice e pelas feridas que levou quando era mais moço; de sorte que as suas juntas são rijas e não pode fazer o mal que costumava, e que ainda quer fazer; mas morde as unhas com raiva, e faz caretas malignas aos viajantes que não pode pilhar.
Cristão passou: mas a vista do velho na boca da caverna fez arrepiar-lhe os cabelos, especialmente quando o ouvi gritar: Ah! Ah! Não estareis quietos enquanto eu não queimar mais uns poucos. Calou-se, porém, e encarando-o fixamente caminhou a salvo. Então cantou louvores, e deu muitas graças àquele que o livrou dos perigos, dando toda a honra ao Salvador.
Depois disto chegou a um outeiro, feito expressamente, a fim de que os viajantes pudessem olhar adiante; e subindo viu Fiel, pouco em frente no caminho. Então gritou-lhe de rijo – Olá, escutai, esperai, e ser-vos-ei companheiro. Fiel olhou para trás, e Cristão gritou outra vez: Esperai, esperai até eu vos alcançar. Mas Fiel respondeu: Eu, não. (Deuteronômio 19.). O vingador de sangue vem atrás de mim, e fujo por minha vida.
Cristão, um pouco pesaroso desta resposta, apressou o passo, e não somente apanhou Fiel, mas lhe passou adiante, de sorte que o último foi o primeiro, e Cristão sorriu-se com vanglória; mas, não cuidando bem nos seus passos, caiu, e não cuidando bem nos seus passos, caiu, e não pode levantar-se, até que Fiel veio em seu socorro.
Andaram depois juntos muito amigavelmente, falando sobre as coisas que lhes sucederam na viagem. Cristão começou desta maneira: Meu honrado e mui querido irmão Fiel, alegro-me muito de vos ter alcançado e de que Deus nos tempera os corações de maneira que podemos andar juntos nesta tão boa viagem.
FIEL. – Esperei, meu caro amigo, que teria a ventura da vossa companhia em todo o caminho, depois de sair da nossa cidade; porém, estáveis já muito adiantado, e fui obrigado a fazer o caminho só.
CRISTÃO. – Quanto tempo vos demorastes ainda na nossa cidade depois da minha saída?
FIEL. – Até que não podia demorar-se mais; porque, logo depois da vossa saída, correu um grande rumor que em pouco tempo nossa cidade seria abrasada pelo fogo do céu.
CRISTÃO. – O que? Os vossos vizinhos falavam assim?
FIEL. – Certamente, por algum tempo não se ouvia falar em outra coisa.
CRISTÃO. – Sim! E não havia mais alguém que quis fugir do perigo?
FIEL. – Na verdade falava-se muito, como vos tenho dito, mas eu não acredito que fossem convencidos; pois no meio de tudo riam-se de vós e de vossa viagem desesperada: (foi assim que falaram dela,) mas eu acreditei, e ainda creio, que o fim de nossa cidade será pelo enxofre e pelo fogo do céu; por isso, fugi.
CRISTÃO. – Ouvistes dizer alguma coisa do nosso vizinho Inconstante?
FIEL. – Sim: ouvi que vos acompanhou ao Atoleiro de Desespero, em que alguns diziam, ele caíra, posto que ele não o quisesse confessar; todavia eu não o duvidei porque ainda estava coberto daquela qualidade de lama.
CRISTÃO. – E que lhe diziam os vizinhos?
FIEL. – Depois de voltar está muito desprezado por pessoas de todas as qualidades, e custa achar quem lhe dê
trabalho. Está pior do que teria estado se não tivesse saído da cidade.
CRISTÃO. – Mas porque o tratam dessa maneira quando, eles também desprezam o caminho que ele largou.
FIEL. – Chamam-o vira-casaca, e dizem que deve ser enforcado por sua inconstância. Parece que Deus tem suscitado até os inimigos da religião a desprezá-lo.
CRISTÃO. – Não conversastes com ele antes da vossa partida?
FIEL. – Eu o encontrei uma vez na rua, mas ele se arredou para a outra banda, sem dizer palavra, como um homem que tem vergonha do que fizera; e não lhe falei.
CRISTÃO. – Tinha grandes esperanças daquele homem no princípio da minha viagem, mas agora temo que se perderá na destruição da cidade. Pois lhe sucedeu o que diz aquele verdadeiro provérbio: (2 Pedro 2:22.) “Voltou o cão ao que havia vomitado, e a porca lavada a revolver-se no lamaçal.”
FIEL. – Eu também assim temo: mas quem pode preveni-lo?
CRISTÃO. – Pois, meu caro Fiel, deixemo-lo, e falemos de coisas que nos dizem respeito mais de perto. Contai-me o que vos sucedeu no caminho; porque creio que haveis de ter encontrado algumas coisas muito tocantes.
CAPÍTULO XV
Experiência de um Cristão tentado fortemente pelos desejos da carne. Diferença do pacto da lei e do da graça.
FIEL. – Passei sem incômodo o Atoleiro de Desespero, em que soube que vós caístes, e cheguei à porta sem aquele perigo, mas encontrei com uma pessoa chamada Voluptuosa, que quase me danava.
CRISTÃO. – Que felicidade terdes escapado as suas ciladas. (Gênesis 39:11-13.) José foi também um dia fortemente atacado por ela, e lhe escapou como vós; mas custou-lhe muito tempo de prisão. Porém o que vos dizia ela?
FIEL. – Não o podereis imaginar senão soubesses quanto ela é lisonjeira e sedutora. Me persuadia que caminhasse ao pé dela, prometendo-me toda a sorte de prazeres.
CRISTÃO. – Vos prometia o prazer de ter a consciência boa e contente?
FIEL. – Bem sabeis que era toda a sorte de prazeres carnais e viciosos.
CRISTÃO. – Bendito seja Deus, que de tal vos livrastes: (Provérbios 22:14) “Aquele contra quem o Senhor está irado cairá naquele atoleiro.”
FIEL. – Não sei se escapei sem mancha.
CRISTÃO. – Como? Não condescendestes com os seus desejos?
FIEL. – Não: porque me lembrei de um escrito velho que havia lido, e que diz: (Provérbios 5:5) “Os seus pés descem à morte, e os seus passos penetram até aos infernos.” Então fechei os meus olhos para não ficar encantado pela mágica de suas vistas. Quando ela viu isto ralhou: e eu vim embora.
CRISTÃO. – Não vos investiu mais alguém no caminho?
FIEL. – Logo que cheguei ao monte das Dificuldades encontrei um homem muito velho, que me perguntou quem eu era e para onde ia. Respondi-lhe que era viajante no caminho ao reino celeste. Então ele me disse: - Escutai, vós parecei-me um bom moço: se quiserdes contratar-vos comigo e ficar em minha companhia vos darei um bom salário. Perguntei-lhe seu nome e onde morava. Disse-me que seu nome é (Coríntios 2:14) Homem-animal, e que mora na cidade de Engano. Perguntei-lhe mais qual era o trabalho e que salário me pretendia dar. Respondeu-me, que seu trabalho era gozar de tudo, e o salário, que, enfim, fosse eu seu herdeiro. Perguntei-lhe se tinha boa mesa e que servos havia em sua casa; e ele me disse que sobre a sua mesa se achavam todas as delícias do mundo, e que todos os seus servos eram dele mesmo gerados. Depois perguntei, quantas filhas tinha. Respondeu que só três, (S. João 2:16) Concupiscência da carne, Cobiça dos olhos e Orgulho da vida, e que me casasse com elas se quisesse. Então perguntei quanto tempo queria que morasse com ele. Toda a minha vida, respondeu ele.
CRISTÃO. – Bem: e qual foi no fim o resultado?
FIEL. – No princípio tinha alguma vontade de andar com o velho, pois o contrato parecia bem favorável, mas enquanto falava com ele, olhei para a sua testa onde li as palavras: (Efésios 4:22) “Despojai-vos do homem velho com todas as suas obras.”
CRISTÃO. – E então, que mais?
FIEL. – Desde aquele momento a convicção penetrou-me como um fogo, que não obstante suas palavras lisonjeiras, logo que me tivesse em sua casa me venderia como escravo: e lhe disse que me não falasse mais, porque não iria nem um passo para a porta da sua casa. Então me cobriu de insultos, e ameaçou, que mandaria atrás de mim quem faria amargar-me a alma no caminho. Assim virei-me para caminhar e ele logo pegou-me na carne, e a puxou com tanta violência que pensei que levara consigo um bocado de meu corpo, e isto me fez gritar: (Romanos 7:24) “Infeliz homem eu!” Então foi para diante subindo o monte.
Quando já estava no meio da subida olhei para trás, e vi uma pessoa chegando como a rapidez do vento, e me apanhou exatamente no sítio da cabana de descanso.
CRISTÃO. – Foi nesse mesmo sítio que assentei-me para descansar, e vencido pelo sono, perdi este escrito.
FIEL. – Porém, irmão, ouvi-me. Logo que o homem chegou, com um só golpe deitou-me por terra como morto. Depois de voltar um pouco a mim, perguntou-lhe porque me tratava daquela maneira. Disse-me que era pela inclinação secreta que tivera para o serviço de Homem-animal, e no mesmo instante tornou a ferir-me no peito, de sorte que caí segunda vez de costas, e fiquei estendido por terra a seus pés como se estivesse morto. Outra vez, tendo cobrado algumas forças, pedi-lhe misericórdia; tornou a ferir-me, e sem dúvida teria
acabado de me matar se não passasse outra pessoa, que lhe ordenou que me largasse.
CRISTÃO. – Quem foi que lhe disse que te largasse?
FIEL. – Eu não o conheci à primeira vista; mas logo depois notei que tinha as mãos e o lado abertos, por isso julguei que seria Nosso Senhor. Então acabei de subir o monte.
CRISTÃO. – O homem que veio cair sobre vós era Justiça-só. Ele não poupa pessoa alguma, e não sabe o que é ter compaixão daqueles que quebraram a lei.
FIEL. – Bem sei: não era a primeira vez que me encontrou. Foi ele que veio a minha casa, quando lá morava sem medo, e me disse que me queimaria a casa sobre a minha cabeça se me demorasse ali.
CRISTÃO. – Não vistes o palácio no cume do monte, onde fostes investido por Justiça-só?
FIEL. – Com efeito, ele me disse que vos havia visto passar: mas desejaria que tivesses parado naquela casa, pois vos teriam mostrado coisas raras e notáveis de que haveis de lembrar-vos até à morte. Porém dizei-me, meu
caro amigo,não encontrastes pessoa alguma no Vale de Humilhação?
FIEL. – Sim, encontrei um homem que se chama Descontento, que queria persuadir-me a voltar com ele, dizendo que o vale era todo desairoso, e que, se andasse ali, ofenderia todos os meus amigos, tais como o Sr. Orgulho, e as Sras. Altivez, Ufania, Honra-mundana, e outros muitos, que ficaram todos muito escandalizados, se me fizesse tão louco que me arrastasse pelo meio daquele vale.
CRISTÃO. – E que lhe respondestes vós?
FIEL. – Disse-lhe, que na verdade, toda essa gente que acabava de nomear podiam pretender, e com razão, a serem meus parentes (pois o são segundo a carne), mas que depois que empreendera esta viagem me renunciaram, e eu também da minha parte os havia renunciado; de sorte que agora são como se nunca tivessem tido parentesco comigo. Disse-lhe mais, que enquanto ao vale não falava a verdade, porque (Provérbios 18:12) “o coração do homem humilha-se antes de ser glorificado, e eleva-se antes de ser quebrantado.” Por isso, acrescentei-lhe, antes quero ir por meio deste vale para a glória abonada pelo Sapientíssimo, do que buscar aquela que ele despreza.
CAPÍTULO XVI.
Uma vergonha falsa estorva o progresso da alma cristã
CRISTÃO. – Não encontrastes mais nada naquele vale?
FIEL. – Sim: encontrei Vergonha; mas de todos os homens que tenho visto nas minhas viagens, ele é que tem seu nome o menos acertado: pois aos outros ainda se podia falar, mas àquele Vergonha com a cara de bronze não tem vergonha, nunca se cala, nem escuta a voz de razão.
CRISTÃO. – Que é pois o que vos disse?
FIEL. – Fez-me mil objeções contra a religião mesmo. Disse-me que servir a Deus é coisa baixa, vil e desprezível: que uma consciência sensível é indigna de um homem de juízo: que aquele que se priva da liberdade e vigia muito sobre as suas palavras e obras, é escarnecido por todo o mundo: alegou (S. João 7:48) que poucas pessoas ricas, poderosas ou sábias, andam neste caminho: e que ninguém, sem ser louco, ia arriscar tudo para ganhar o que ninguém tem visto e ninguém conhece. Falou da baixa condição, fraqueza e pobreza destes viajantes em todos os séculos, de sua ignorância e falta de conhecimentos nas ciências. Essas e outras coisas disse: era vergonha gemer e suspirar quando se ouviam os recados de Deus; era uma vergonha cada um lamentar-se e chorar seus pecados na sua casa: era uma vergonha
pedir perdão a outro depois de lhe ter feito qualquer mal, e era uma vergonha restituir-lhe uma coisa que se lhe tinha tirado. Queixou-se também de que a religião obriga um homem a largar a companhia dos grandes por terem algumas fraquezas (era o nome que deu aos vícios com que ofendem a Deus) e respeitar e amar o baixo, por ser da mesma fraternidade. Não é vergonha, disse ele, fazer assim?
CRISTÃO. – Que lhe dissestes depois disso?
FIEL. – Ao princípio eu não sabia que lhe responder: então ele me apertou tanto que o sangue me subiu ao rosto: esse Vergonha fê-lo subir, e quase me venceu. Enfim, porém, considerei que (S. Lucas 15:16) o que é elevado aos olhos dos homens é abominação diante de Deus.
Considerei também que este Vergonha não me falava senão dos homens: nada dizia de Deus, nem das palavras de Deus. Lembrei-me que no dia final nós seremos julgados à vida ou à morte, não segundo as opiniões deste mundo, mas segundo a sabedoria e a lei do Altíssimo: e, julguei que aquilo que Deus diz, é o melhor; ainda quando todos os homens do mundo se oponham. Portanto, vendo que Deus prefere sua religião, e a consciência sensível antes de todos os bens do mundo,vendo que aqueles que querem ser verdadeiramente sábios, devem tratar-se como insensatos, e aprender assentados humildemente aos pés dele, e vendo que o pobre, amigo de Cristo e mais rico e mais honrado que o riquíssimo inimigo dele, “afasta-te de mim, Vergonha,” gritei eu, “inimigo fa minha salvação. O que? Darei ouvidos à Vergonha contra meu
Senhor? (S. Marcos 8:38.) Como então poderei encontrá-lo quando ele vier? Se tiver vergonha dos seus caminhos e dos seus servos como posso chamá-lo meu Senhor?”
Contudo aquele Vergonha é um homem malvado e afoito: a muito custo pude livrar-me dele, pois vinha atrás de mim, e me sussurrava continuadamente no ouvido uma coisa ou outra contra este caminho, ou contra os que nele andam. Mas disse-lhe, enfim, que eu achava a prezava. Assim desembaracei-me dele.
CRISTÃO. – Estou contente, meu irmão, por haverdes tão valentemente resistido àquele detestável Vergonha. Chama-se Vergonha, mas é o homem mais atrevido do mundo: pois segue-nos nas mesmas ruas, e quer cobrir-nos de confusão diante de todo o mundo; isto é, quer fazer-nos ter vergonha do que é bom. Mas se ele mesmo não fosse confiadíssimo, não intentaria o que faz. Porém resistamo-lo, porque posto que fala muito, e altamente (Provérbios 3:35) não exalta senão os insensatos.
FIEL. – Eu creio que contra este inimigo havemos de procurar o socorro daquele que quer que estejamos firmes a favor da verdade neste mundo.
CRISTÃO. – Falais a verdade. Mas não encontrastes mais alguém naquele vale?
FIEL. – Não. Porque tinha o sol claro durante o resto do meu caminho, não somente naquele vale, mas também no Vale-da-Sombra-de-Morte.
CRISTÃO. – Foi uma grande felicidade para vós. Quanto a mim, era muitíssimo diferente. Apenas entrara no vale quando tive um combate terrível com Apoleão; pensei que ia matar-me, pois lançou-me por terra, e pondo-se em cima de mim, apertou-me de sorte que parecia-me que eu ficaria esmagado; caiu-me a espada da mão, e então me disse que estava seguro de mim: mas, gritei ao Senhor; me ouviu e me livrou. Depois entrei no Vale-da-Sombra-de- Morte, e não pude ver um só raio do sol durante quase a metade do caminho. Lá muitas vezes estive a crer que morria: mas, enfim, começou amanhecer, o sol nasceu, e continuei minha jornada com muito mais sossego e felicidade.
CAPÍTULO XVII
Quadro de um homem que não é cristão senão de palavra.
Vi depois, em meu sonho, que enquanto caminhavam, Fiel, olhando para um lado, viu um homem,um pouco longe, que andava só, e se chamava Falador. Era um homem alto, que parecia melhor de longe que de perto. Fiel aproximou-se dele, e lhe disse: - Meu amigo, vindes vós também à pátria celeste?
FALADOR. – Sim. Para lá vou.
FIEL. – Está bom: espero, pois, que havemos de ter vossa boa companhia.
FALADOR. – Com muito gosto ser-vos-ei companheiro.
FIEL. – Caminhemos, pois, juntamente, e para nos não fatigar o caminho, entretenhamo-nos com alguns discursos edificantes.
FALADOR. – É o meu maior prazer falar em objetos interessantes, seja convosco ou com outros: estou contente de achar um homem que gosta de uma obra tão boa; porque, a dizer a verdade, não há muitos que buscam empregar assim o seu tempo na viagem: antes gostam de passar o tempo na viagem: antes gostam de passar o tempo em falar de coisas inúteis: e isto é coisa que tenho muitas vezes notado com desgosto.
FIEL. – Isso é na verdade muito deplorável, porque não há no mundo coisas alguma tão digna de empregar a língua e a boca dos homens na terra como são as coisas do Deus do céu.
FALADOR. – Gosto de vós, sim, muitíssimo, porque vossas palavras convencem. Eu, porém, acrescento que nenhuma coisa pode ser mais agradável ou mais útil do que falar nas coisas de Deus. que coisa há tão agradável? Isto é se um homem gostar de história, se lhe agrada ouvir maravilhas e mistérios, ou falar de milagres e de sinais, onde se pode achar coisa tão linda ou tão bem escrita como nas Escrituras Sagradas.
FIEL. – É verdade: mas parece-me que o fim que demos procurar é a edificação e emenda da nossa vida.
FALADOR. – É o que eu dizia: o falar sobre estas coisas é muito útil. por este meio um homem pode aprender muitas coisas proveitosas, como a vaidade do que é visível e terrestre, e o valor do invisível e celestial. Pelo falar, um homem pode aprender a necessidade do nascimento novo, a imperfeição das nossas obras e a suficiência dos merecimentos de Cristo. Por este meio pode aprender o que é arrepender-se, crer, fazer oração, sofrer, e outras coisas semelhantes. Por este meio um homem pode aprender quais são as grandes promessas e consolações do Evangelho para sua alegria. Numa palavra, por este meio pode-se aprender a refutar doutrinas falsas, defender a verdade e instruir os ignorantes.
FIEL. – Tudo isto é verdade, e me regozijo de vos ouvir falar tão bem sobre estas coisas.
FALADOR. – Ai! A falta de falar é a grande causa porque tão poucos entendem a necessidade de fé e de uma obra de Deus na alma, para ter a vida eterna: por isso vivem ignorantemente procurando salvar-se pela obediência que dão a lei, enquanto, por esse caminho ninguém pode ir ao céu.
FIEL. – Mas, com licença, o verdadeiro conhecimento destas coisas e um dom de Deus; ninguém pode adquiri-lo por seus esforços, nem pelo falar somente a respeito delas.
FALADOR. – Tudo isso sei eu muito bem: porque (S. João 3:27) o homem não pode receber coisa alguma, se do céu não lhe for dado: (Romanos 11:6) tudo é de graça: já não é pelas obras. Podia dar-lhe sem provas disso das Escrituras Sagradas.
FIEL. – Pois bem, qual será o objeto de nossa conversação nesta hora?
FALADOR. – O que vos agradar. Falarei das coisas celestes ou da terrestres; das que pertencem a lei ou ao Evangelho; das sagradas ou profanas; das passadas ou futuras; das estrangeiras ou domésticas; das que são essenciais ou das que são de menor importância; mas há de ser sempre em nosso proveito.
Quando Fiel ouviu isto admirou-se, e aproximando-se de Cristão, que, durante esta conversação tinha andado só,
disse-lhe ao ouvido: – Que excelente companheiro de viagem! Na verdade este homem deve ser um perfeito cristão.
Cristão respondeu com um sorriso modesto. Este homem, do qual estais tão prevenido, engana com sua bela língua quase todos os que não o conhecem.
FIEL. – Vós o conheceis pois?
CRISTÃO. – Se o conheço! Sim, melhor do que ele se conhece a si próprio.
FIEL. – Dizei-me, pois, vos rogo, quem é.
CRISTÃO. – Chama-se Falador, mora em nossa cidade: me admiro que não o conheçais: mas a cidade é grande.
FIEL. – De quem é filho? E onde mora?
CRISTÃO. – É filho de Fala-bem, e mora na rua de Palavrório: aqueles que o conhecem chamam-o Falador da rua de Palavrório: mas ainda que tenha uma bela língua, não é grande coisa.
FIEL. – Ele parece, no entanto, um homem de bem.
CRISTÃO. – Sim, aos que não o conhecem bem, e fora da casa: dentro da família é feio bastante, como as pinturas que parecem bem de longe e feias de perto.
FIEL. – Imagino que talvez estais brincando porque vos sorristes.
CRISTÃO. – Posto que me tenha sorrido, estou bem longe de divertir-me com uma coisa desta natureza, e não imputo falsamente a ninguém a menor culpa: enquanto a este homem, vô-lo farei conhecer um pouco melhor. Se dá bem em todas as companhias e conversações: assim como fala convosco aqui, fala com outros na taverna; e quanto mais vinho tem na cabeça, mais religião tem na boca. A religião, porém, não tem lugar algum em seu coração, em sua casa, nem em sua vida; tudo quanto tem está na língua; sua religião não é mais que o som que sai da sua boca.
FIEL. – É assim? Então estou muito enganado.
CRISTÃO. – Enganado! Sim, não há dúvida. Lembrai-vos da palavra (S. Mateus 23:3.) Dizem e não fazem e o “(1 Coríntios 4:20.) reino de Deus não consiste em palavras, mas na virtude.” Ele fala da oração, do arrependimento, da
fé, do nascimento novo, mas não sabe senão para falar deles. Tenho estado em sua casa, e tenho observado a sua conduta, tanto no interior como fora dela; e sei que o que digo dele é verdade. Na casa dele não há mais devoção do que há de sabor no claro do ovo. Lá não há oração nem sinal algum de arrependimento: sim, até os mesmos brutos servem a Deus melhor do que ele. (Romanos 2:24.) Ele é uma mancha, um opróbrio e uma vergonha à religião de maneira, que custa achar quem fale bem dele em todo aquele lado da cidade em que ele mora. O povo diz é: “santo na rua, demônio na casa.” Sua pobre família acha que o ditado este bem certo. É um homem tão duro, áspero e impertinente, que os criados não sabem o que devem fazer, nem se atrevem a perguntar-lhe: aqueles que têm negócios com ele dizem que: “era melhor tratar com um Mouro: nos faria mais justiça.” Este Falador embusteia, engana e defrauda a todos quantos pode; ensina seus filhos a seguir seus passos; e quando descobre em qualquer deles alguma covardia (assim é que ele chama os sinais de boa consciência) os trata de loucos e cabeças de pão, não os emprega em coisas maiores, nem fala a favor deles. Por minha parte creio que sua má vida tem causado muitas quedas e muitos escândalos, e que, se Deus não o proibir, vai arrastar outros muitos a perdição.
FIEL. – Ora bem, meu irmão, sou obrigado a crer-vos não só porque dizeis conhecê-lo, mas também porque falais no espírito de cristianismo, e estou certo que não falais assim por maldade, mas porque a força da verdade vos obriga.
CRISTÃO. – Se eu não o tivesse conhecido melhor que vós, talvez o teria estimado como vós fizestes: e se tivesse
ouvido dizer essas coisas da parte dos inimigos da religião, só teria julgado que era uma das calúnias com que estes procuram denegrir o caráter de gente de bem: mas posso provar estas coisas, e outras muitas tais, que eu mesmo sei que ele tem feito. As pessoas de bem não podem chamá-lo irmão, nem amigo, e aqueles que o conhecem sobe-lhes o sangue ao rosto quando ouvem o nome dele.
FIEL. – Vejo que o falar e o obrar são coisas muito diferentes, e daqui em diante hei de observar melhor a diferença.
CRISTÃO. – É verdade que são diferentes, tão diferentes como o corpo e a alma; porque como o corpo sem alma não é mais que um tronco morto, e assim também palavras sem obras não são mais que um corpo morto. A alma da religião é praticá-la. (S. Tiago 1:22-27). A religião pura , e sem mácula diante de Deus nosso Pai consiste nisto. Em visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e em conservar-se cada um a si isento da corrupção deste mundo.” Falador não pensa assim, mas imagina que basta ouvir e falar para ser um bom cristão: engana a sua alma. O ouvir não é mais receber a semente, e o olhar não prova que há fruto no coração e na vida: mas podemos ter toda a certeza que no dia final (S. Mateus 7:20, 13:23) seremos julgados pelo fruto. A questão naquele dia não será, ouvistes? Nem, falastes? Mas, sim, obedecestes? Jesus mesmo tem comparado o fim do mundo à colheita; e na colheita bem sabeis que os homens não se importam senão com fruto. É uma verdade muitíssimo preciosa, que somos salvos pela fé, e não por nossas obras, mas também é
verdade que a fé que não excita a fazer as boas obras, não presta para nada.
FIEL. – Isto me faz lembrar o que tenho lido nos livros de Moisés tocante aos animais limpos. Haviam de remoer o que comiam, e ter a unha fendida: a lebre remói, mas não tem a unha fendida, por isso o tinha por imundo. Este Falador remói, isto é, procura saber, mas não larga o caminho do pecado; isto é, não tem o pé de um cordeiro, se não de um cão ou de um lobo; por isso está imundo.
CRISTÃO. – Talvez este seja o verdadeiro sentido evangélico daquela passagem. Acrescentarei mais uma coisa, S. Paulo diz de alguns grandes faladores (I Coríntios 13:1) que são como o metal que soa, ou o sino que tine; isto é, os compara (I Coríntios 14:7) as coisas que fazem consonância sem terem vida. O som pode ser lindo como a voz de um anjo, mas aquilo que não tem vida não vai ao céu.
CRISTÃO. – Tomai meu conselho, e achareis que em breve ele também ficará enojado de vossa companhia, se Deus não lhe mudar o coração.
FIEL. – O que me aconselhais vós?
CRISTÃO. – Tornai a vos ajuntar com ele, e travai uma conversação séria sobre o poder da religião na alma; e quando ele tiver dito (como sem dúvida dirá), que deve ter muita influência em vós, perguntai-lhe claramente se o sente em seu coração, se vê-se em sua casa, e se o põe em prática na sua vida.
CAPÍTULO XVIII
Os sinais que provam a verdadeira obra de Deus na alma do homem.
Então tornou Fiel a ajuntar-se com Falador, e disse-lhe, como vai agora? Como vos achais?
FALADOR. – Bem, obrigado, mas espero ter tido muita conversação em todo este tempo.
FIEL. – Pois agora, se vos agrada, vamos conversar; e como me haveis deixado a escolha do assunto, seja esta pergunta. Como é que a obra salvadora de Deus se manifesta (quando existe), no coração humano.
FALADOR. – Vejo pois que havemos de falar a respeito da influência de coisas diferentes. Muito boa questão: seja ela o objeto de nosso discurso. Respondo em poucas
plavras. Primeiramente. Quando Deus principia aquela obra na alma, faz declamar vivamente contra o pecado; em segundo lugar...
FIEL. – Para um pouco, e examinemos cada ponto separadamente. Parece-me que seria melhor dizer que essa obra de Deus faz a alma aborrecer seus pecados.
FALADOR. – Por que? Que grande diferença há entre declamar contra o pecado e aborrecê-lo?
FIEL. – Oh! Muito grande! Pode se declamar contra o pecado por costume só, ou para alcançar algum fim; mas não se pode aborrecê-lo sem uma operação divina no coração. Tenho ouvido alguns gritar contra o pecado no púlpito, que podiam muito bem aturá-lo na sua casa, no seu coração e na sua vida. (Gênesis 39:11-15). A ama de José gritou de rijo, como se fosse muito santa, mas teria gostado bem pecar com ele. Alguns declamam contra o pecado, como a mãe contra a filhinha que cria, chamando-a feia rapariga, e má a filha, no entanto que a beija e aperta-a ao coração.
FALADOR. – Estais disposto a censurar.
FIEL. – Eu! Não: de maneira alguma. Quero só explicar a pergunta conforme a verdade. Mas qual é o segundo
ponto pelo qual julgais que se pode distinguir a verdadeira obra de Deus no coração humano?
FALADOR. – Grande conhecimento dos mistérios evangélicos.
FIEL. – Este sinal devia ter sido o primeiro. Mas primeiro ou último também não dá certeza.
Porque uma pessoa pode ter conhecimento, e mesmo um conhecimento profundo do Evangelho, e contudo não ter sentido a obra salvadora de Deus era sua alma. Sim, se um homem conhecer todos os mistérios e quanto se pode saber, ainda pode ser (1 Coríntios 13:2) nada, e por consequência não é um filho de Deus. Quando Jesus Cristo falou aos seus discípulos do conhecimento das coisas que Ele lhes (S. João 13:17) ensinara, acrescentou logo:
“Bem aventurados sereis se as praticardes.” Ele não liga a bem-aventurança ao saber, mas ao fazer; pois há quem sabe a vontade do senhor, e não a cumpre; e que por isso (S. Lucas 12:47) há de levar muito castigo. Um homem pode saber como um anjo, e fazer como um demônio. Um tal não é cristão: por isso o sinal que destes não presta. O saber agrada aos faladores e vangloriosos, mas o fazer agrada a Deus.
Não quero dizer que sem conhecimentos o coração possa ser bom. Não, porque “(Provérbios 19:2) onde não há ciência d’alma, não há bem,” mas há conhecimento que
consiste de opiniões teoréticas somente, e há outro acompanhado de uma firme convicção, e de amor; e que induz o homem a cumprir com gosto a vontade de Deus. O primeiro basta para o falador, mas o cristão verdadeiro não está contente sem o segundo (Salmo 119: 34) Dá-me inteligência, e estudarei na tua lei, e a guardarei de todo o meu coração.
FALADOR. – Vejo que estais disposto a censurar outra vez e conversar assim não é proveitoso.
FIEL. – Proponde, pois, se vos agrada, outro sinal que prove a obra de Deus na alma humana.
FALADOR. – Não: porque vejo que não seremos de acordo.
FIEL. – Se vós não o quereis fazer, quereis permitir que eu o faça?
FALADOR. – Fazei como vos agrada.
FIEL. – A obra de Deus na alma que se salvará, vem a ser descoberta à pessoa em que é feita as outras. A pessoa mesma, se manifesta desta maneira: convence-a de seus pecados, da corrupção de seu coração, alma e tudo, e do
pecado de não acreditar ao Deus de verdade mostrar-lhe, que, pelos pecados, será perdido eternamente, se não conseguir a misericórdia de Deus, pela fé em Jesus Cristo. Esta vista acorda em seu coração tristeza e vergonha à causa do pecado. Em seguida se lhe manifesta o salvador do mundo, e a necessidade de se chegar a ele para socorro. Então nasce na alma uma fome e uma sede ardente de Jesus; e (S. Mateus 11:23) achando-se convidada a alma, prostra-se aos pés do Salvador, e pedindo-lhe, (S. Marcos 7:25-30) recebe das sua mão os bens que carece. Ora, em proporção ao vigor ou fraqueza da sua fé, o cristão sente mais ou menos paz, alegria, desejo de ser santo e de conhecer e servir o senhor neste mundo. Mas ainda que é desta maneira que a obra salvadora de Deus se manifesta a pessoa em que se faz, custa-lhe ter certeza do que é verdadeira; pois a sua corrupção natural e as ilusões do seu espírito a deixam julgar bem a este respeito; e é preciso ter o juízo muito claro e as provas bem fortes para poder concluir com certeza que é a obra de Deus para a salvação eterna da pessoa.
A existência dessa obra num homem se manifesta aos outros: 1º por uma confissão da sua fé em Jesus Cristo, e dos sentimentos que nascem da fé; 2º por uma vida que corresponde com essa confissão: isto é, uma vida santa, pela santidade em casa, epela santidade em negócios. Esta santidade faz o homem destestar o pecado em si mesmo, e a si próprio por causa do pecado; faz o repimi-lo em sua família, e promover a santidade no mundo, não somente por palavras, como os hipócritas e cristãos de palavras podem fazer, mas por uma obediência sincera ao que Deus nos manda praticar.
Agora, Senhor, se tendes alguma coisa a dizer contra isto dizei-o: e se não, permita-me que vos proponha mais uma pergunta.
FALADOR. – Não quero presentemente levantar objeções, senão ouvir: portanto podeis livremente propor a vossa pergunta.
FIEL. – A minha pergunta é esta. Sentis vós no vosso coração uma obra tal como fica dito? Mostra-se vossa religião em toda a vossa religião em toda a vossa conduta? Ou consiste ela de palavras somente?
Se quiserdes responder-me, vos peço que não me digais uma palavra senão o que Deus tem por verdade, e que vossa consciência aprova: (2 Coríntios 10:18), porque não é o que a si mesmo se recomenda o que é estimável, mas é sim aquele a quem Deus recomenda; e é uma loucura dizer sou isto, ou sou aquilo, quando minha conduta e meus vizinhos provam que é mentira.
Ouvindo este discurso Falador principiou a corar, mas depois recobrando-se, respondeu: quereis agora tocar nos sentimentos, na consciência, e em Deus?
Como testemunha do que se diz, não esperava esta qualidade de conversação, nem quero responder a tais perguntas, pois não vos reconheço por meu juiz. Porém dizei-me porque me perguntais?
FIEL. – Porque tenho visto que estais mui pronto a falar; e porque, a falar a verdade, tenho ouvido dizer que sois um homem cuja religião consiste em palavras, e que vossa conduta contradiz as palavras que falais. Diz-se que sois uma mancha entre cristãos, que a religião é desacreditada por vossas causa; que vossa conduta já tem desviado muitos, e que outros ainda estão expostos a perigo por vosso exemplo. Diz-se que estais acostumado a unir a religião com a avareza, a impureza, a mentira, a bebedeira e outras coisas semelhantes.
FALADOR. – Vendo que estais tão pronto a acreditar boatos e julgar dos outros, não posso imaginar outra coisa senão que sois um espírito melancólico e colérico, com o qual é um desgosto falar, por isso adeus.
Então Cristão se aproximou do seu companheiro, e disse-lhe:
“Aconteceu como julguei; vossas palavras não davam bem com seus vícios, e antes queria largar vossa companhia, que mudar seus costumes. Quis ir, e deixemo-lo; quem perde é ele só. Poupou-nos o incômodo de separar-nos dele, porque, continuando como é (e jugo que será), ter-nos- à causado uma má fama, e dos tais o apóstolo disse: – separai-vos.
FIEL. – Estou contente, porém, que tivéssemos tido esta pequena conversação com ele: pode ser que ainda pense no que ouviu: mas em todo o caso, falei-lhe claramente, e se perder-se, eu estou livre do seu sangue.
CRISTÃO. – Tendes feito muito bem falar-lhe assim. É raro hoje usar de tanta franqueza e sinceridade, e por isso a religião se torna tão odiosa aos homens. Estes faladores, cuja religião é de palavras só, e cuja vida é corrupta, quando estão decaídos na comunhão dos crentes, escandalizam muito a causa da verdade. Seria bom se todos tratassem a tais pessoas como vós tratastes a este. Nesse caso haviam de viver mais conforme as regras do Senhor, ou largar a companhia dos viajantes ao céu.
CAPÍTULO XX
Os filhos de Deus no meio do mundo.
Vi em meu sonho que ao sair do deserto descobriram uma cidade, chamada a cidade de Vaidade, onde há uma grande feira, a feira dura todo o ano, e que se chama a Feira de Vaidade, porque a cidade, onde ela se faz, é Vaidade, e tudo o que aí concorre e se vende, não é senão vaidade; segundo a palavra do sábio. (Eclesiastes 1:2) “Tudo é vaidade.”
Esta feira não é coisa nova; principiou há alguns cinco mil anos, e vos contarei sua origem.
Uns viajantes caminhavam para a cidade Celeste (como Cristão e Fiel fazem agora), quando Belzebu, Apoleão e Legião, com seus companheiros, vendo que o caminho ao céu passava pelo meio da cidade de Vaidade, conseguiram estabelecer aí uma feira, onde estivessem a vender todos as sortes de vaidades, e que continuasse o ano inteiro. Lá,
pois, se vendem casas, terras, negócios, dignidades, ofícios, títulos, senhorias, reinos e prazeres. Lá também estão a vender maridos, mulheres, filhos, amos, criados, vidas, sangue, corpos, almas, ouro, prata, pérolas, pedras preciosas, e todas as qualidades de vícios.
Lá também pode se ver, em todo o tempo, jogos de passe-passe, enganos, espetáculos, divertimentos, macaquices, velhacarias e loucuras de toda a sorte.
Aí também se vendem e mui baratos, perjúrios, furtos, adultérios, assassinos e as mais atrozes mortes.
Como em outras feiras de menor importância há várias ruas e estradas, que tem cada uma seu próprio nome e suas próprias mercadorias, assim também nesta feira há lugares, ruas e estradas (isto é, países e reinos) em que se pode achar mais facilmente as diferentes qualidades de mercadorias. Aí está a rua Inglesa, a rua Francesa, a rua Italiana, a rua de Espanha, a rua de Alemanha, a rua Brasileira e outras.
Ora, como disse, o caminho para a cidade Celeste passa pelo meio da cidade, onde fazem essa grande feira: e aquele que quer ir para a pátria Celeste sem passar por esta cidade de Vaidade, há de sair do mundo. O mesmo rei dos reis quando estava neste mundo e voltava para seu próprio país, passou pelo meio da cidade, e era num dia de grande feira: sim, e creio que foi Belzebu; o maior senhor da feira que o convidou a comprar das suas vaidades, e até o teria feito príncipe da feira se quisesse fazer-lhe reverência somente enquanto passava pela feira: também o levou de rua em rua, porque era uma pessoa de altíssima dignidade, e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles, para aliciar, se lhe fosse possível, o bendito a desejar e comprar alguma vaidade. Ele porém não tinha a mínima
vontade para com tais mercadorias, e saiu da cidade sem ter gastado nelas sequer um só real.
Era preciso que os viajantes passassem através da feira, e principiaram a passar; mas logo se levantou uma grande desordem na feira, e toda a cidade foi perturbada, e isso por vários motivos.
1º Porque os vestidos dos viajantes eram muito diferentes daqueles que os traficantes naquela feira traziam. Por isso olharam-os com vistas fixas: alguns disseram que eram loucos, outros que eram maníacos, e alguns que eram estrangeiros.
2º Porque os viajantes falavam a linguagem de Canaã, uma língua que poucos negociantes na feira podiam compreender, pois estes serão os homens deste mundo só; por isso, desde uma extremidade da feira até a outra, todos os tiveram por bárbaros.
3º Divertiu os traficantes muito ver que os viajantes não faziam caso das mercadorias, e nem sequer olhavam para elas: e quando alguém gritava-lhes que comprassem, meteram os dedos nos ouvidos e disseram: (119:37) “Aparta os meus olhos para que não vejam a vaidade.” E olharam para cima, querendo dizer assim que seus negócios estavam no céu.
Um que estava vigiando a conduta deles, disse-lhes, mofando: Senhores, que quereis comprar. Responderam, olhando-o gravemente. Nós (Provérbios 23:23) compramos a verdade; o que deu ocasião a serem mais maltratados. Uns bradaram somente com desdém, mas houve quem gritasse que fossem espancados. Enfim, levantou-se um tal tumulto, tal barafunda que tudo estava em desordem e confusão. Deu-se logo parte ao grande
senhor da feira, que encheu-se de raiva e despachou imediatamente alguns dos seus confidentes com ordens de examinar os dois homens que causavam tanto motim à feira. Prenderam-os, pois, e examinaram-os, perguntando-lhes donde vieram, para onde iam e porque se vestiam em trajes estranhos. Responderam que (Hebreus 11:13) eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra, que iam para sua pátria, (Apocalipse 21:2) a Jerusalém celeste; e que não haviam dado motivo nem aos habitantes da cidade, nem aos negociantes para os tratarem tão mal e interromper-lhes a viagem; senão só que, quando alguém lhes perguntara que queriam comprar, eles tinham respondido: Nós compramos a verdade. Os seus examinadores porém não acreditaram outra coisa senão que eram loucos ou que vieram de propósito pôr a feira em desordem. Em vista disto açoitaram-os, cobriram-os de lama, e depois meteram-os na gaiola para servirem de espetáculo a todos. Lá ficaram por algum tempo expostos a todas às sortes de escárnio, de zombaria e violência; e o grande senhor da feira se divertia com tudo que lhes fizeram. Os homens, porém, eram pacientes, (1 S. Pedro 3:9) não pagando mal por mal, nem maldições por maldições, mas pelo contrário, bendizendo, e fazendo bem aos que os injuriavam; e quando alguns homens da feira, que eram menos prevenidos e mais considerados que os outros, queixavam-se dos mais vis e turbulentos por suas crueldades, estes tornaram-se contra aqueles, e enfurecendo-se disseram-lhes que eram tão maus como os homens na gaiola; e que tomando parte com eles haviam de ter parte também nos seus tormentos. Os outros responderam que os homens na gaiola pareciam estar sempre quietos e bem criados, que não queiram fazer mal a alguém; e que havia muitas pessoas na feira que seriam metidas não só na gaiola, mas também na gaiola, com
mais razão que estes que tratavam tão inumanamente. Depois de muitas palavras de parte a parte (os viajantes conduzindo-se sempre sabiamente e sobriamente) chegaram a dar pancadas uns nos outros, e alguns ficaram feridos.
Por isso os dois pobres viajantes foram levados outra vez diante dos seus inquisidores, e acusados de haver causado este último motim na feira. Foram espancados desapiedadamente e carregados de ferros: depois arrastaram-os pelas ruas em cadeias para fazer inspirar medo a todos, e proibi-los de falar a favor destes homens ou tomar partido com eles. No entanto Cristão e Fiel se conduziram cada vez mais sabiamente, e receberam todos estes maus tratamentos com tanta mansidão e paciência, que alguns (posto que poucos em comparação da gente da feira) se uniram a eles. Isto fez aumentar mais a fúria dos inimigos, de sorte que resolveram fazê-los morrer, e declararam que vendo que nem gaiola, nem grilhões os fazia mudar, haviam de pagar com a vida pela maldade com que enganaram os homens da feira.
CAPÍTULO XXI
O mundo condena os discípulos de Jesus.
Cristão e Fiel foram metidos outra vez na gaiola, até que fosse determinado o que havia de se fazer com eles. O carcereiro apertou-lhes os pés no cepo.
Nessas circunstâncias eles se lembraram das palavras do seu fiel amigo Evangelista, e por consequências acharam-se confirmados. Consolaram-se também mutuamente pela certeza de que aquele que lá sofresse a morte seria o mais feliz: e cada um, em segredo, desejava essa felicidade; mas se entregaram com confiança nas mãos daquele que dispõe de todas as coisas, e ficaram tranquilos e contentes na prisão.
Quando chegou o dia marcado, foram apresentados ao tribunal para serem condenados: o nome do juiz foi o Sr. Aborrece-o-bem. As acusações contra ambos eram as mesmas, com pouca diferença, e os pontos principais eram estes:
Que se mostraram inimigos do estado, e perturbadores do comércio; que já tinham causado motins e divisões na cidade; que tinham formado aí um partido, que seduziram a abraçar as suas perigosas opiniões, com desprezo da lei do príncipe.
Fiel respondeu primeiro que ele não se opunha a coisa alguma, senão ao que se opunha ao altíssimo. Quanto ao tumulto, ajuntou ele, eu não o fiz, pois sou um homem de paz; e enquanto ao partido de que se fala, consiste inteiramente de pessoas que foram persuadidas pela força da verdade, e a convicção da nossa inocência; e que também não virá – virão senão do mal para melhor. Tocante a este príncipe de que falais, vendo que ele é Belzebu, o inimigo de nosso senhor, o desafio, com todos os seus anjos.
Então publicou-se que todos os que tivessem qualquer coisa a depor a favor do seu senhor e rei e contra o réu se apresentassem a dar testemunho. Vieram três testemunhas, a saber, Inveja, Superstição, e Busca-favores.
Perguntou-se-lhes se conheceram o preso que estava diante da justiça, e o que tinham a dizer contra ele, e a favor de seu próprio senhor.
Levantou-se Inveja e disse: meu senhor, conheço este homem há muito tempo, e declaro com juramento diante deste tribunal augusto que é...
JUIZ. – Esperai. Defiramos-lhe o juramento.
Depois de jurar, Inveja disse: meu senhor, ainda que este homem tenha um bom nome, é um dos mais perversos neste país. Ele não faz caso, nem de príncipe, nem de povo, nem de lei, nem de costume; mas esforça-se por incutir no espírito de cada um certas opiniões desleais que ele chama “Os princípios fundamentais da fé e da santidade.” Em particular, eu lhe ouvi dizer em uma ocasião que o cristianismo e os costumes de nossa cidade de Vaidade são diametralmente opostos, e nunca podem concordar. Desta sorte, meu senhor, ele condena não somente nossos bons costumes, mas também nós todos que os praticamos.
JUIZ. – Tendes mais alguma coisa a dizer?
INVEJA. – Meu senhor, posso dizer muito mais; porém não quero importunar o tribunal. Sendo preciso, depois que os outros senhores tiveram dado seu testemunho,
acrescentarei bastante para mostrar que deve ter pena de morte.
Em seguida chamou-se Superstição, e o juiz lhe disse que observasse bem o réu; e depois perguntou-lhe o que tinha a dizer a favor do rei contra o preso. Tendo prestado o juramento, Superstição fez seu depoimento assim:
Meu senhor, não tenho grandes conhecimentos deste homem, nem quero ter mais: sei, porém, por uma conversação que há poucos dias tive com ele que é uma peste pública; porque, falando com ele nesta mesma cidade, o ouvi dizer que nossa religião não presta, e que por ela ninguém pode agradar a Deus. ora, se fosse assim, vossa Ex. bem sabe o que há de seguir, a saber, que todo o nosso culto é vão: estamos ainda nos nossos pecados, e por consequência perdidos. Assim transtorna nossa religião inteiramente. Eis aqui o que tenho a dizer.
Então chamou-se Busca-favores, e depois de prestar juramento, teve ordem de dizer o que sabia em favor de seu senhor e contra o réu.
Meu senhor, disse ele, e vós todos nobres espectadores, há muito tempo que eu conheço este desgraçado, e lhe tenho ouvido proferir ditos que não são capazes de se repetirem, pois blasfemou ao nosso grande príncipe, Belzebu e falou com muito desprezo dos seus mais nobres amigos, que são os mui nobres fidalgos Homem-velho e Deleite-sensual, os condes Luxúria e Vanglória, meu velho senhor Impudícia e o senhor Mais-tem-mais-quer. Ele disse que se todos os homens fossem de seus sentimentos nenhum desses senhores existiria nem sequer um dia em nossa cidade. Além disso, não tinha medo de falar mal de vós, meu senhor, que sois agora seu juiz, chamando-vos
um ímpio escelerato, e outros tais nomes vergonhosos com que tem insultado a maior parte da nobreza de nossa cidade.
Logo que Busca-favores acabou de falar, o juiz se dirigiu ao preso Fiel, e lhe disse: vagabundo, herege, traidor, tens ouvido o que estes senhores honrados têm deposto contra ti?
FIEL. – Posso falar algumas poucas palavras em minha defesa?
JUIZ. – Atrevidíssimo malvado! Não sois digno de viver mais um momento. Deveis morrer aqui mesmo num instante; mas, para que todos vejam a nossa brandura para convosco, ouviremos, maldito cão, o que ainda tendes a dizer.
FIEL. – Digo, pois, primeiramente, em resposta ao depoimento de Inveja, que eu não tenho dito outra coisa senão que todas as autoridades, todas as leis, todos os costumes e todos os povos que opõem também diretamente às palavras de Deus se opõem também diretamente ao cristianismo. Se nisto errei, mostrai-me o erro, e estarei pronto a desdizer-me.
SEGUNDO. – Quanto ao testemunho de Superstição e suas acusações, eu disse somente que, para saber com certeza qual é o culto que agrada a Deus, é preciso que
Ele mesmo diga o que quer: que, para dar-lhe o culto que Ele quer, havemos de andar conforme as suas palavras; que as coisas que os homens introduzem no culto sem serem ordenadas por Deus não são do seu agrado, nem prestam para a vida eterna: e que em todas as matérias religiosas devemos cingir-nos às Escrituras sagradas.
TERCEIRO. – Ao depoimento de Busca-favores, respondo simplesmente (evitando os termos de desprezo e outros) que o príncipe desta cidade e toda a gentalha, seus companheiros, nomeados por este senhor, são mais dignos de estar no inferno que neste país; assim o Senhor do Céu tenha compaixão de mim.
O juiz chamou então os jurados que assistiram a todo o processo e disse-lhes: nobres assessores da justiça, tendes diante de vós este homem que causou um tão grande tumulto na cidade; haveis ouvido também o que pessoas fidedignas têm deposto contra ele e acabais de ouvir sua defesa e confissão: depende agora de vós ou condená-lo à morte, ou salvar-lhe a vida. No entanto parece a propósito expor-vos a lei a este respeito.
Nos dias de Faraó, um grande servo de nosso príncipe, publicou-se um edito, a fim de que aqueles que praticaram outro culto não se tornassem poderosos: e era que todos os recém-nascidos de sexo masculino fossem lançados ao rio. No tempo de Nabucodonosor, outro servidor célebre de nosso príncipe, foi decretado que todo aquele que não se prostrasse e adorasse a imagem de ouro fosse lançado vivo numa fornalha ardente. Da mesma maneira no reinado de Dário promulgou-se um decreto imperial determinado que, se durante certo tempo alguém invocasse um outro Deus que não fosse o mesmo rei, seria
lançado na cova dos leões. Ora, este rebelde tem violado o essencial contido nestas leis, não só por seus pensamento (o que se não poderia tolerar), mas também por suas palavras e ações, que são crimes altamente insultantes.
A lei de Faraó foi para prevenir o mal que ainda não se via, mas aqui vemos o crime. A segunda e a terceira falavam da religião. Portanto, e pela traição que já confessou, ele merece a pena de morte.
Então saíram os jurados, que se chamavam Sr. Cego, Sr. Bem-nenhum, Sr. Malícia, Sr. Gosto-de-vícios, Sr. Má-vida, Sr. Porfiado, Sr. Orgulho, Sr. Ódio, Sr. Mentira, Sr. Crueldade, Sr. Aborrece-a-luz e Sr. Implacável.
Estes proferiram cada um separadamente seu julgamento contra Fiel, e depois resolveram unanimemente declarar diante do juiz que o achavam culpado. Primeiramente, entre si, o Sr. Cego disse, na qualidade de presidente, eu vejo perfeitamente que este homem é um herege. Então, disse o Sr. Bem-nenhum, fora do mundo com todos os tais. Sim, gritou o Sr. Malícia, porque aborreço até ver a cara dele. O Sr. Gosto-de-vícios disse: eu nunca pude aturá-lo. Nem eu, respondeu o Sr. Má-vida, porque condenaria tudo que eu faço. Enforcai-o, enforcai-o, disse o Sr. Porfiado. É um vil bruto, disse o Sr. Orgulho. Meu coração se levanta contra ele, disse o Sr. Ódio. É um homem detestável, disse o Sr. Mentira. A forca é um suplício brando demais para ele, disse o Sr. Crueldade. Botemo-lo fora do mundo, disse o Sr. Inimigo-da-Luz. E o Sr. Implacável disse: quando se me desse o mundo todo, eu não poderei nunca reconciliar-me com ele. Por isso digamos que é réu de morte. Assim o fizeram, e Fiel foi logo condenado a ser conduzido do lugar onde se
achava para o lugar donde veio, e a sofre ali a morte mais cruel que se pudesse inventar.
Trouxeram-o, pois, para fora, a fazer com ele conforme a sua lei. Açoitaram-o, esbofetearam-o, golpearam-o com facas, apedrejaram-o, picaram-o com espadas, arrancaram-lhe pedaços de carne com tenazes ardentes, e enfim amarram-o a uma estaca, queimaram-o, e reduziram-o à cinzas. Tal foi o fim de Fiel.
Observei, porém, que por detrás da multidão de povo havia um carro com dois cavalos que o esperava; e logo que os inimigos acabaram de matá-lo, foi recebido nele, e levado ao céu através das nuvens, e ao clangor de trombetas, pelo caminho mais direito à porta celeste.
Enquanto se fartavam com os tormentos de Fiel, tinha Cristão algum alívio: foi remetido à prisão, e lá ficou por algum tempo. Mas aquele que governa tudo, e sabe refrear a fúria das tempestades e dos povos, dispôs as coisas de tal maneira que Cristão escapou, e foi adiante no seu caminho, cantando:
Bem fez Fiel, e bem ficou.
Fiel na glória chegou.
Na morte terrível que passou
Valente Fiel triunfou.
E quando o Senhor voltar,
Os matadores vão penar,
Em desespero e horror.
Mas os amigos do Senhor
Com Ele, no trono, hão de estar,
Com Ele sempre habitar.
CAPÍTULO XXII
Retrato de um homem que quer servir a Deus e ao mundo.
Ora, vi em meu sonho que Cristão não andava só, porque um homem, chamado Esperançoso, veio ter com ele, e lhe disse que gostaria acompanhá-lo na sua viagem. Este tinha presenciado a conduta de Fiel e Cristão debaixo dos tormentos na feira, e veio a ser esperançoso pelas palavras que deles ouvira, de sorte que um morreu pelo testemunho da verdade, e outro nasceu (como se fosse das cinzas daquele) para ser companheiro de Cristão no caminho. Esperançoso disse-lhe ao mesmo tempo que havia ainda outros muitos na feira que não se demorariam muito lá, mas viriam seguindo.
Apenas tinham saído da feira, quando alcançaram um homem que andava em frente deles, e que se chama Dois-intentos. Perguntaram-lhe de que país era, e até onde queria ir naquele caminho.
Eu venho, respondeu ele, da cidade de Fala-fina, e vou à Cidade celeste. Mas não lhes diss o seu nome.
De Fala-fina! Disse Cristão. Acha-se alguma coisa boa naquela cidade?
DOIS. – Sim. Creio que há alguma.
CRISTÃO. – Por que nome posso chamar-vos, senhor, se vos agrada dizê-lo?
DOIS. – Sou estrangeiro: vós não me conheceis, nem eu vos conheço. Se é de vosso agrado que caminhemos juntos, terei nisso muito gosto; aliás, estarei contente de andar só.
CRISTÃO. – Tenho muitas vezes ouvido falar da cidade de Fala-fina, e se não me engano acha-se ali muito riqueza.
DOIS. – Sim, vô-lo asseguro; tenho lá muitos parentes ricos.
CRISTÃO. – Rogo-vos, me digais quais são os parentes que ali tendes, se não sou muito atrevido em vô-lo perguntar.
DOIS. – Quase toda a cidade, particularmente meu Sr. Virador, meu Sr. Segundo-os-tempos, o Sr. Fino-falador (cujos antepassados deram o nome à ciddae), o Sr. Cara-lisa também, e Rosto-dobrado e O-que-quiserdes, o vigário da freguezia, o Sr. Duas-línguas, era meu tio, irmão de meu pai; e a dizer a verdade, sou um homem que tenho muitas relações com muita gente fidalga, posto que meu bisavô era banqueiro, que olhava numa direção e remava noutra, e eu da mesma maneira ganhei a maior parte do que tenho.
CRISTÃO. – Sois vós casado?
DOIS. – Sim, a minha mulher é muito virtuosa, é filha da Sr. Fingidora, uma pessoa de grande mérito e de alto nascimento. Ela está tão bem criada que sabe falar com toda a sorte de pessoas, com os príncipes e com o vulgo, com bons e maus. A respeito de religião, há alguma diferença entre nós e os que são demais santo; mas em dois pequenos pontos somente. O primeiro é que nós não queremos ir contra o vento, nem contra a corrente; e o outro que somos sempre mais zelosos quando a religião anda com chinelas de prata: gostamos de andar com ela quando é bom tempo e o povo aplaude-a.
Cristão virou-se um pouco para seu companheiro Esperançoso, e lhe disse: parece-me que este é um Sr. Dois-intentos de Fala-fina; e se assim é, temos em nossa companhia um dos maiores velhacos que se acham nestes contornos.
Perguntai-lhe, disse Esperançoso, penso que não há de ter vergonha de seu nome.
Cristão, pois, chegando-se outra vez ao Senhor Dois-intentos, disse-lhe: vós falais, senhor, como um homem que sabe mais que todo o mundo, e se não me engano, julgo que sei quem sois. Não vos chamais o Sr. Dois-intentos de Fala-fina?
DOIS. – Não é meu nome, ainda que é um apelido que me dão alguns que não gostam de mim: e hei de estar contente de levá-lo como um opróbrio, a exemplo de outras pessoas de bem que tiveram os seus apelidos antes de mim.
CRISTÃO. – Nunca destes ocasião para vos imporem este apelido?
DOIS. – Nunca, nunca em minha vida. O maior mal que tenho feito, que pudesse dar-lhes ocasião de me chamarem por este nome, é que sempre tenho tido a boa fortuna de pensar conforme os costumes presentes do mundo; de maneira que minha docilidade me ajudava a ganhar mais que os outros em meus negócios, e evitar desgostos. Quando assim tenho tão boa fortuna, julgo que é pela bênção do Senhor, e os perversos não devem carregar-me por isso com desprezo.
CRISTÃO. – Tenho entendido. Vós sois o mesmo de que tenho ouvido falar tanto; e, a dizer o que penso, me parece que este nome vos convém mais do que aquele que pretendeis ter.
DOIS. – Se estais nessa opinião, paciência; achareis,porém, que não sou mau camarada, se quiserdes, receber-me na vossa companhia.
CRISTÃO. – Se quereis vir conosco é preciso que marcheis contra o vento e contra a corrente, e isto, como dissestes, é contra vosso credo. Se estiverdes conosco, haveis de mostrar-vos amigo da religião, em traje de pobre tanto como em chinelas de prata, em ferros na prisão tanto como quando anda na rua com honras.
DOIS. – Vós não vos deveis constituir senhor da minha consciência; deixai-me em liberdade, e consenti que eu caminhe convosco, segundo o meu pensar.
CRISTÃO. – Nem um passo, se não quiserdes fazer como vos tenho dito.
DOIS. – Eu nunca deixarei as minhas regras antigas, pois não fazem mal a outros e fazem conta a mim. Se não posso viajar convosco, farei como fazia quando me alcançastes,
andarei só até encontrar alguns que gostem da minha companhia.
CAPÍTULO XXIII
Continuação do retrato. Quando o escravo do mundo usa da religião é para promover os seus fins, e não para servir a Deus.
Neste ponto, vi em meu sonho que Cristão e Esperançoso, foram andando adiante, e deixaram o Senhor Dois intentos: mas dali a um pouco um deles olhando para trás viu três homens que seguiam Dois intentos, e quando vieram ter com ele tirou-lhes o chapéu com muitos cumprimentos, e eles saudavam-o da mesma maneira, com muita cortesia. Os nomes daqueles senhores eram Senhor Pega-no-mundo, – Senhor ama dinheiro, e Poupa tudo; todos três eram companheiros de Dois intentos de escola na sua mocidade. Aquele que os ensinou foi Sr. Agarrador que ensinava em uma escola na Vila de Paixão-de-ganhar, na província de Cobiça. Este mestre lhes havia ensinado a arte de adquirir ou por força, ou por fraude, ou por lisonja, ou por astúcia, ou, enfim, debaixo da capa de religião: e os quatro discípulos tinham aprendido tão bem, que cada um deles era capaz de ser mestre de uma escola semelhante.
Depois de se haverem saudado reciprocamente disse Senhor ama-dinheiro ao Sr. Dois intentos. Quem são aqueles dois homens que caminham adiante de nós. (Porque ainda podiam ver Cristão e Esperançoso.)
DOIS. – São dois homens que vêm de longe e caminham a seu modo à Cidade celeste.
AMA. – Ah! Porque nos não esperam para nos gozarmos da sua boa companhia? Pois eles e nós, e vós, meu senhor, todos procuramos ir ao mesmo lugar.
DOIS. – É verdade, mas esses homens são tão rígidos, e tão aferrados as suas imaginações, e tem tão pouco respeito às opiniões de outros, que posto que um homem esteja muito religioso, senão concordar concordar com eles em tudo, lançam-o logo fora da sua companhia.
POUPA-TUDO. – Isso é feio: mas temos lido de alguns que são santos demais: sua rigidez faz que julguem e condenem a todos senão a si mesmos. Dizei-nos, porém, em que pontos não são da mesma opinião que nós.
DOIS. – Ora, eles querem obstinadamente correr adiante, esteja o tempo o que estiver: eu quero esperar o tempo bom, e a corrente favorável. Eles arriscam tudo por Deus de uma vez, eu ponho quanto posso os meus bens e a minha vida em segurança. Eles guardam suas opiniões ainda quando o mundo todo se lhes opõe: eu estou pela religião quando, e tanto que, me faz conta. Eles querem ser amigos da religião quando é desprezada e pobre, eu não a quero senão quando está gabada, e anda em chinelas de prata.
PEGA-NO-MUNDO. – Bravo, bom SR. DOIS INTENTOS. Tende-vos firme naquela doutrina por minha parte tenho por louco o homem que larga suas comodidades quando tem licença de as conservar. Sejamos prudentes como as serpentes: o melhor é trabalhar durante o estio, como as abelhas que descansam no inverno, e trabalham só quando tem proveito com prazer. Deus dá chuva, e dá sol: se aqueles homens querem viajar pela chuva, deixemo-los; e caminhemos nos outros só no tempo bom. Todo o homem de juízo pode ver que havendo recebido coisas boas da mão de Deus, devemos conservá-las em lembrança dele. Abraão e Salomão se fizeram ricos na religião, e Jó diz que o homem bom terá torrentes de ouro: nesse caso não há de ser como os homens lá diante de nós.
POUPA-TUDO. – Sobre isto estamos de acordo: não há mister mais palavras.
AMA. – Certamente que não: porque aquele que não acredita a razão, nem as Escrituras, (e podeis ver que temos ambos a nosso favor) não entende a sua liberdade, nem a sua segurança.
DOIS. – Meus irmãos: vendo que estamos de viagem, deixai-me propor-vos uma pergunta: pois assim podemos divertir-nos, e desviar-nos do mal.
Suponhamos que um homem, um oficial, negociante, ou qualquer outro, tivesse ocasião de ganhar muitos bens desta vida, mas não os pode alcançar sem fazer-se, ao menos em aparência, muito zeloso por algumas coisas na religião, com que antes não se importava, – não poderá empregar este meio de alcançar seu fim, e contudo ser um homem perfeitamente justo e honrado?
AMA. – Eu compreendo esta pergunta até ao fundo, e, com licença, responderei:
Suponhamos que um oficial, seja pobre, e que fazendo-se piedoso, possa ter mais fregueses, ou casar-se com uma mulher rica, eu não vejo razão alguma pela qual isto não se pode praticar justamente. Porque: 1º: é uma virtude ser piedoso, seja qual for o motivo do homem; 2º: não é proibido se casar com uma mulher rica, ou de atrair a si muitos fregueses; 3º: o homem que ganha estas coisas pela sua piedade obtém um bem dos bons, fazendo-se mesmo bom. Por consequência é bom abraçar a piedade, com o fim de obter estas vantagens.
Esta resposta foi recebida com grandes aplausos por todos: julgaram que era muito sã e vantajosa, e pensando que ninguém poderia refutá-la, resolveram propor a pergunta a Esperançoso e Cristão. Para este fim chamaram-os: e quando estes pararam, foi resolvido que o Sr. Pega-no-mundo, e não o Sr. Dois-intentos, lhes falasse para evitar o efeito de qualquer calor que ficasse da primeira conversação.
Tendo-se aproximado, e depois das civilidades do costume, o Sr. Pega-no-mundo propôs a pergunta a Cristão
e seu companheiro, e rogou-lhes que respondessem se podiam.
Certamente, disse Cristão, o menor instruído em matérias de religião podia, sem custo, responder a dez mil perguntas semelhantes. Pois se não se deve seguir a Cristo para ter pão, como se vê em S. João 6:26, quão abominável há de se usar dele como máscara, com que se possa enganar o mundo? E não achamos outros senão pagãos, hipócritas, demônios, e feiticeiros que disso aprovaram.
1º Pagãos. – Porque quando Hemor e Siquém queriam a filha e o gado de Jacó, e não acharam caminho para isso sem abraçar a religião dos Hebreus, disseram, se nos circundarmos os nossos homens, conforme o rito desta gente, a sua riqueza e gados, e tudo o que possuem será nosso. As filhas e os gados era o que tinham em vista, e a religião não era mais que um pretexto para obtê-los. Lede toda a história em Gênesis, capítulo 34, versos 20 até 24.
2º Hipócritas. – Os Fariseus eram dessa religião. Largas orações lhes serviam de máscara; o que queriam era apoderar-se das casas de viúvas, e a sentença do Senhor sobre eles era maior condenação. Vede S. Lucas, capítulo 20, versos 46 e 47.
3º Judas. – O (S. João 6:71) diabo também seguia esta religião: trazia a bolsa e tomava para si o que se meteu nela: mas perdeu-se, foi para o seu lugar, como (S. João 17:12) o filho de perdição.
Simão. – O feiticeiro era da mesma religião; (Atos 8:18-23) queria ter o Espírito Santo para ganhar dinheiro: e a resposta de S. Pedro era: – Estás num fel de amargura e preso nos laços da iniquidade.
5º Além disso, não posso deixar de pensar que aquele que abraça a religião para assim ganhar as coisas deste mundo, estará sempre pronto a renunciá-la pelo mesmo motivo: e com efeito, Judas, que por amor do que esperava ganhar, quis ser companheiro de Jesus pelo mesmo motivo vendeu a sua religião e até o próprio Senhor.
Por tanto, a resposta afirmativa da vossa pergunta, a qual bem vejo que vós haveis abraçado, é pagã, farisaica e diabólica; e vosso salário será conforme ao vosso trabalho.
Então os quatro homens frustrados miraram-se e não tiveram uma única palavra a replicar; confundidos e calados ficaram atrás, para Cristão e Esperançoso se adiantarem deles, e Cristão disse a seus companheiros, se estas pessoas não podem justificar-se diante dos homens, o que farão diante do tribunal de Deus? Se ficam caliadas e confundidas pelas palavras de criaturas mortais, como hão de sentir quando aquele que é um (Hebreus 12:29) fogo consumidor vier para tornar-lhes contas de tudo?
CAPÍTULO XXIV
Pela fome do dinheiro muitas almas se perdem. Prazeres espirituais dos filhos de Deus.
Cristão e Esperançoso foram adiante, e chegaram a uma bela planície, que se chama Livre-de-Dificuldades; e lá caminharam muito contentes: mas sendo de pequena extensão, em pouco tempo passaram-a. do outro lado dela se achava um outeiro, chamado Lucro, no qual há uma
mina de prata: e alguns que passavam por aquele caminho noutro tempo, afastaram-se do caminho para ir vê-la; e chegando-se muito perto à cova, a terra deu de si (porque é muito falaz) e caíram, e morreram miseravelmente: outros, ainda que não perderam lá a vida, foram feridos de maneira que durante todo o resto da vida andaram fracos e coxos.
Ora, vi em meu sonho, que um pouco fora do caminho, e perto da boca da mina, estava Demas, no traje de um senhor abastado, para chamar os viajantes. Olá, olá, gritou a Cristão e Esperançoso, vinde aqui, e vos mostrarei umas coisas lindas.
CRISTÃO. – Que coisa há tão linda que largássemos este caminho para vê-la?
DEMAS. – É uma mina de prata: há gente cavando nela: sem muito custo podereis enriquecer-vos.
ESPERANÇOSO. – Vamos ver.
CRISTÃO. – Eu não vou. Tenho ouvido falar deste lugar que tem causado a morte de muitos. Além disso o peso da prata (S. Lucas 12:15) atrasa muito na viagem.
Então Cristão gritou a Demas. Este lugar não é perigoso? Não tem desviado muitos do caminho celeste?
DEMAS. – Nada, senão aos desacautelados. (Mas quando falava corou de vergonha.)
CRISTÃO ao ESPERANÇOSO. – Irmão, não havemos de dar nem um passo para lá. Guardaremos nosso caminho.
ESPERANÇOSO. – Quando Dois-intentos chegar, se for convidado como nós, julgo que ele irá.
CRISTÃO. – É muito provável, porque seus princípios conduzem a esse mesmo fim, e é quase certo que vai morrer ali.
DEMAS. – Ao menos não quereis vir, e ver?
CRISTÃO. – Demas! Vós sois um inimigo dos caminhos do Senhor: já (2 Timóteo 4:9) fostes condenado por um dos juízes reais, porque vos afastastes do caminho celeste. Por que razão procurais lançar-nos na mesma condenação? Se nos apartássemos da estrada, Nosso Senhor e Rei, havia de saber, e nós ficaríamos envergonhados, em lugar de comparecermos diante Dele com confiança no dia de juízo.
DEMAS gritou então, que ele era viajante para o mesmo lugar como eles, e que se esperassem um pouco, andaram juntos.
CRISTÃO. – Qual é o vosso nome? Não vos chamais vós como, há pouco, vos nomeei?
DEMAS. – Sim, meu nome é Demas. Sou um filho de Abraão.
CRISTÃO. – Bem vos conheço. (2 Reis 5:20.) Geazi foi vosso bisavó, e Judas vosso pai, e vós marchais sobre os seus passos. É feio negócio. Vosso pai foi enforcado como um traidor, e vós mereceis a mesma sorte. Estai seguro de que diremos ao rei como nos falastes hoje. Então caminharam.
No entanto Senhor Dois-intentos e seus companheiros chegaram ao outeiro, e ao menor aceno de Demas foram direitos a eles. Se olhavam da margem e caíram, ou se foram para baixo a cavar e ficaram espedaçados pelas rochas, ou se foram sufocados pelos vapores sulfúreos que se elevam ali continuamente, não posso dizer; mas sei que nunca mais apareceram no caminho celeste.
Pouco depois de passar o outeiro, os viajanes vieram a um monumento muito antigo, perto do caminho, e que causou a um e a outro muita surpresa, porque parecia-lhes ser uma mulher transformada em coluna. Lá pararam e olharam por algum tempo, mas não podiam imaginar o que era. Enfim, Esperançoso descobriu na testa uma inscrição em letras muito antigas e gastas; mas, como ele não tivera grandes estudos, chamou Cristão para ver se podia decifrá-la. Este gastou algum tempo examinando as
letras, e depois achou o sentido, que era: “Lembrai-vos da mulher de Ló.” Leu-a a seu companheiro, e concluíram que era a estátua de Sal (Gênesis 19:26), em que essa mulher foi transformada, quando para atrás; e o espetáculo, tão espantoso como inopinado, deu-lhes ocasião de se discorrerem da maneira seguinte:
CRISTÃO. – Ah! Meu irmão! Este espetáculo vem bem a propósito, depois do convite de Demas, para visitarmos a mina. Se tivéssemos ido, como ele queria, e como tu, meu irmão, tivesse alguma vontade de fazer, poderíamos estar como esta mulher; é um exemplo dos juízes divinos para admoestação daqueles que vierem depois de nós.
ESPERANÇOSO. – Tenho muito pesar de haver sido tão insensato, e admiro-me que não estou como ela; porque, que diferença há entre o pecado dela e o meu? Ela olhou para atrás, eu queria ir ver; seja para sempre louvada a bondade do Senhor, e seja eu sempre profundamente arrependido de ter tido semelhante desejo.
CRISTÃO. – Fique-nos bem impresso n’alma o que acabamos de ver, e nos sirva de exemplo para o futuro. Esta mulher havia escapado de uma terrível desgraça e caiu noutra. Não morreu pelo fogo do céu em Sodoma, mas ficou convertida em uma estátua de sal.
ESPERANÇOSO. – É verdade: e ela pode servir-nos de cautela para evitarmos semelhante pecado; e de amostra
do castigo que nos há de sobrevie quando não estivermos acautelados. Foi assim também que Coré, Datã e Abirão com duzentos e cinqüenta homens morreram em seus pecados, para os outros ficarem avisados. Admiro-me que Demas e seus companheiros possam ter o atrevimento de trabalhar ali fora do caminho, quando têm esta estátua diante dos olhos, e não podem dizer em que hora os juízos de Deus os alcançaram.
CRISTÃO. – É de admirar; mas mostra que seus corações estão inteiramente endurecidos. São semelhantes aos ladrões que furtam na presença do juiz ou à vista do patíbulo. Mas é assim com todos. O senhor nosso juiz está mesmo presente, em todos os lugares e todos os pecados são cometidos não só com desprezo dos exemplos de castigo, e com ingratidão por milhares de favores, mas também diante dos olhos daquele que virá para julgar o mundo. Quão terrível há de ser a destruição daqueles que em tais circunstâncias de opõe às leis de Deus!
ESPERANÇOSO. – Ah! Meu irmão, que misericórdia é que tu, e muito mais, eu não sirvo de sinal, como um navio naufragado jazendo sobre as rochas, para os outros se afastarem do perigo. Certamente nós temos razão de bem dizer a Deus, de temê-lo, e de lembrar-nos da mulher de Ló.
Assim caminharam conversando até que chegaram à beira dum rio muitíssimo ameno, que foi chamado antigamente o Rio Divino, e depois o (Apocalipse 22:1) Rio-da-água-da-vida. O caminho ia pelas margens dele, e os viajantes tiveram lá grandes prazeres: beberam da
água, que era muito agradável, e não somente os refrescava, mas também os fortalecia e reanimava seus espíritos abatidos. Ao lado do rio acharam toda a sorte d frutíferas árvores, e árvores cujas folhas são próprias para purificar o sangue esquentado na viagem. Em cada lado do rio havia um campo que fica verde todo ano, e contém muitas açucenas, e outras belas flores. Tudo era risonho e encantador. Lá se deitaram, e dormiram, pois lá podiam repousar com toda a segurança; quando acordaram, cpmeram do fruto, beberam da água do rio, passearam, descansaram, e tornaram a dormir. Assim é que passaram os dias, e as noites, em quanto viajavam ao longo daquele belíssimo rio de verdadeiras delícias.
Não estavam ainda porém no fim da sua viagem, e por isso depois de se demorarem mais alguns dias naquele paraíso puseram-se outra vez a caminho.
CAPÍTULO XXV
A alma cristã que se aparta do caminho de Deus cai em dúvidas, e as dúvidas conduzem à desesperação.
Depois vi em meu sonho que não tinham ido ainda muito longe, quando o caminho principiou a afastar-se do rio, e isto os afligiu muito.
O caminho lá tornou-se muito áspero e os pés dos viajantes estavam doridos da jornada; por isso se desanimaram e desejavam muito ter melhor caminho. Ora, ao lado esquerdo havia uma campina, e quando se
enfastiavam da estrada descobriram um lugar na cerca onde podiam passar facilmente para a relva da campina. Então disse Cristão a seu companheiro: – Se esta relva continua na ilharga de nosso caminho, vamos andar nela. Ao mesmo tempo chegando-se à aberta na cerca, viu uma vereda do outro lado, que parecia ir na mesma direção que a estrada. Ah! Gritou ele, eis aqui justamente o que eu desejava: é agradável andar aqui. Vinde, meu caro Esperançoso, caminhemos nesta vereda. 

ESPERANÇOSO. – Mas que faremos se a vereda nos levar longe do caminho? 

CRISTÃO. – Isso não é provável. Vede este atalho, não vai ele ao longo da estrada?
Desta sorte Esperançoso, persuadido por seu companheiro, cedeu, e o seguiu pela aberta, na campina que se chama Desviadora. Lá não lhes doía os pés; e viram um homem que andava adiante deles na mesma vereda. Eles o chamaram, e lhe perguntaram onde os conduzia aquele caminho. Ele respondeu: “A porta do céu.” Seu nome, porém, era Confiança enganosa. Muito bem, disse Cristão, vós vedes que não me enganei, e que andamos direitos. Assim o homem continuou caminhando em frente, e eles o seguiram.
Em quanto lá andavam assim principiou a anoitecer, e em breve se fez muito escuro, de maneira que não podiam ver aquele por quem se dirigiam. Este, não vendo o caminho, caiu numa cova profunda, que fora feita lá, de propósito, pelo príncipe daquelas terras, para apanhar os
loucos que, julgando-se sábios, largam os caminhos do Senhor, para seguirem as suas vontades. Foi espedaçado pela queda.
CRISTÃO E ESPERANÇOSO – ouviram o ruído que fez na sua queda e lhe gritaram para saber o que tinha; mas não deu resposta: não ouviram mais que uns gemidos. Então, disse Esperançoso, onde estamos agora? Seu companheiro ficou calado, temendo que o tivesse feito desviar; no mesmo instante começou a chover, com trovões e relâmpagos temíveis, e as águas no caminho subiam depressa.
ESPERANÇOSO. – gemando, disse, oxalá que tivesse seguido o meu caminho!
CRISTÃO. – Mas quem podia imaginar que este atalho nos extraviasse?
ESPERANÇOSO. – Eu o temia desde o princípio, por isso pensei advertir-vos discretamente. É verdade que devia ter falado mais forte, mas sois mais velho de que eu.
CRISTÃO. – Meu querido irmão, não vos escandalizeis. Eu vos tenho desviado do caminho e vos tenho levado em grande perigo, e isto me envche de remorsos. Eu vos rogo, meu irmão, me perdoeis; não o fiz com má intenção.
ESPERANÇOSO. – Tomai ânimo, meu irmão, vos perdôo com todo o meu coração, e creio que até isto tudo contribuirá para vosso bem.
CRISTÃO. – Que felicidade para mim ter encontrado um irmão tão doce e caritativo! Porém, não nos demoremos aqui, voltemos já.
ESPERANÇOSO. – Consenti, pois, que eu vá adiante de vós, meu caro irmão.
CRISTÃO. – Não, se me quereis fazer essa graça. Sou eu que devo ir primeiro; se houver perigo, seja eu o primeiro a corrê-lo, pois por minha culpa estamos fora do caminho.
ESPERANÇOSO. – Não, porque estais perturbado, e vós podereis ainda enganar-vos na vereda.
Nesse momento ouviu-se uma voz que disse: (Jeremias 31:21) “Dirige o teu coração ao caminho direito em que andaste; volta”. E reanimaram-se a voltar. Logo se puseram a caminhar, mas estava tão escuro e as águas subiram tanto, que muitas vezes estiveram em perigo de morrer; e mesmo em toda a noite, por mais diligências que fizessem, não lhes era possível voltar para a aberta na cerca por onde entraram. Enfim, achando um lugar um pouco mais abrigado, se assentaram para esperar o
romper da manhã, e como estivessem muito fatigados dormiram; e eu disse comigo no meu sonho, que é mais fácil sair do caminho quando se está nele do que entrar aí outra vez quando dele se tem afastado.
A alguma distância do ab rigo onde se deitaram, havia um castelo que pertencia ao gigante Desesperança, e tinha por nome o Castelo de Dúvidas. Os viajantes dormiam nas terras do gigante, e este passeando pela madrugada nos campos, apanhou-os ainda carregados de sono, e com uma voz grosseira, gritou-lhes que acordassem, e perguntou o que queriam lá em sua fazenda. Disseram que eram viajantes que perderam o caminho. Respondeu o gigante: Entrastes em minhas terras sem licença, e tivestes o atrevimento de vos deitardes dentro das minhas cercas, e agora haveis de caminhar comigo. Foram obrigados a ir, pois ele era muito mais forte do que eles; também não tiveram nada a dizer, porque bem sabiam que tinham feito mal. Portanto os obrigou a ir adiante, e quando chegaram ao seu castelo os lançou num calabouço escuro, e fetidíssimo que enjoou os corações daqueles dois homens. Ficaram presos nele desde a manhã da quarta-feira, até ao sábado à tarde, sem sequer uma migalha de pão, sem uma pinga d’água, sem luz, e não veio ninguém a perguntar-lhes como se achavam. Longe de parentes e amigos, o seu caso era muito triste, e Cristão tinha dobrada tristeza, pois por sua culpa caíram naquela desgraça.
CAPÍTULO XXVI
A alma que largou o caminho dos conselhos do Senhor, e caiu em dúvidas e desespero, acha o remédio nas promessas de Jesus, e recuperando a liberdade, volta ao caminho do céu.
Ora, o gigante era casado, e sua mulher se chamava Desconfiança, quando, pois, estiveram na cama, ele contou-lhe o que tinha feito, como encontrara dois viajantes nas suas terras, e os lançara no calabouço, e lhe perguntou o que acharia mais a propósito fazer deles. Ela perguntou o que eram, donde vinham e para onde iam, e ele lhe disse. Então ela aconselhou-lhe que, pela madrugada, quando se levantasse, os espancasse sem misericórdia alguma.
O gigante assim que se levantou, foi prover-se de um bastão de carvalho, e então desceu ao calabouço, e desonrou-os com as palavras mais injuriosas que podia achar, como se fossem piores que os cães; posto que, não lhe voltassem uma só palavra desabrida; ao depois lançou-se sobre eles, e lhes deu com o bastão, até que ficaram estendidos sobre o lagedo, sem poder valer-se ou virar-se: então saiu, e os deixou a deplorarem sua desgraça e chorarem sua miséria. Todo aquele dia gastarem em gemidos e lamentações amargas.
Na noite seguinte, quando Desconfiança dalou com seu marido a respeito dos presos, e soube que ainda estavam vivos, ela lhe aconselhou que os recomendasse a se matarem. Logo, pois, ao romper do dia foi ter com eles, e achando-os muito moídos com as pancadas que lhes dera no dia antes, disse-lhes que, vendo que nunca haviam de sair dali, era melhor acabarem de uma vez com sua miséria; e ofereceu-lhes uma faca, uma corda, ou um copo de veneno: porque, disse ele, de que se pode valer a vida,
no meio de tanta amargura? Eles nada responderam senão que os deixasse caminhar. Com isso, olhou-os com fúria e correndo, os teria infalivelmente acabado de matar, senão tivesse um ataque, (porque era sujeito a ataques especialmente no tempo de céu claro) e perdesse o poder de se servir das mãos. Então retirou-se, e os deixou como antes, a pensar no que haviam de fazer. Foi desta maneira que entre si falaram.
CRISTÃO. – Irmão, que faremos? Esta vida presente não é mais que miséria. Por minha parte não sei qual é melhor, viver assim ou morrer já. Antes quero morrer. A cova é melhor que esta masmorra. Que dizeis? Tomaremos o conselho do gigante?
ESPERANÇOSO. – É verdade que nosso estado presente é muito deplorável, e a morte me seria também mais doce que viver para sempre assim: mas lembramo-nos que o senhor do país para onde procuramos ir temdito: não matarás, e se está proibido matar os outros, pior é ser assassinos de nós mesmos; pois aquele que mata os eu próximo não destroi senão o corpo, e o que mata a si mesmo, destroi o seu corpo e a sua alma. Além disso meu irmão, falais de descanso na cova; mas tendes vos esquecido do inferno, onde os matadores serão infalivelmente precipitados? Porque: “Nenhum matador tem a vida eterna.” Lembremo-nos também que este gigante não tem todo o poder em suas mãos. Creio que outros têm estado presos como nós, e escaparam das suas mãos. Quem sabe se o grande Deus que criou o mundo não fará morrer este gigante? Ou talvez se esqueça alguma vez de fechar o calabouço com chave: ou tenha
outro ataque que lhe tolha o uso dos seus membros; e se assim suceder, estou resolvido a tomar coragem e esforçar-me até ao último extremo a livrar-me das suas mãos. Que loucura foi em mim não fazer o esforço quando ele teve o mal hoje! Porém, meu irmão, tenhamos paciência e não desanimemos. O tempo feliz de soltarmo-nos ainda pode chegar; e, suceda o que suceder, nunca nos matemos a nós mesmos. Com estas palavras pôde Esperançoso sossegar o espírito de Cristão, e ficaram todo aquele dia de trevas tristes e doridos.
Pela tardde desceu o gigante ao calabouço, a ver se os presos tinham tomado seu conselho, mais achou-os vivos: e na verdade só se conhecia que eram vivos, porque ainda respiravam, pois pela falta de comer e de beber, e pelas feridas que levaram, era de esperar que estivessem já mortos. Achou-os porém, vivos, e disse-lhes com muita fúria que, por desprezarem os seus conselhos, os carregaria com tormentos até amaldiçoarem o dia de seu nascimento.
Estas ameaças o fizeram tremer muito, e Cristão caiu num desfalecimento. Depois que ele voltou um pouco a si, tornaram a falar do conselho do gigante, se não seria melhor segui-lo. Cristão parecia estar a isso inclinado, mas Esperançoso respondeu: Meu irmão, não vos lembrais da coragem com que viestes até aqui? Apoleão não vos venceu, os terrores do vale da sombra da morte não vos venceu, os terrores do vale da sombra da morte não vos fizeram voltar, a gaiola e o fogo não vos amedrontaram, e agora sois a própria fraqueza! Bem vedes que eu, que por natureza sou muito mais fraco que vós, estou no calabouço também, eo gigante me tem ferido Amim tanto como a vós, me tem privado a mim também de pão e de água, e juntamente convosco estou nas trevas, mas ainda
tenhamos paciência. Lembrai-vos da feira da vaidade e da coragem com que afrontastes tudo, e ainda estejamos firmes.
Depois de anoitecer, quando o gigante e sua mulher estavam na cama, ela perguntou-lhe a respeito dos presos e se tinham tomado o seu conselho: são muito rijos, respondeu ele, e querem antes sofrer todas as misérias de que se matarem. Então, disse ela, tomai-os amanhã ao páteo e mostrai-lhes os ossos e os crancos daqueles que já matastes, e fazei-os crer que antes de passar uma semana mais, os fareis em pedaços como já fizestes aos outros.
Apenas começava a raiar a manhã, quando o gigante, seguindo o conselho de sua mulher, lhes mostrou os ossos espalhados à roda. Aqueles, disse ele, eram também viajantes como vós, entraram em minhas terras como vós, eu os fiz em postas quando quis, e farei o mesmo a vós: por ora, porém, para vossa cova malvados. Dizendo isto os puxou para o calabouço e deu-lhes muitos murros no caminho.
Assim ficaram até ao sábado num lastimosíssimo estado. Naquela noite quando senhora Desconfiança estava na cama com seu marido, o gigante Desesperança, tornaram outra vez a falar dos presos, e o velho admirou-se que não os podia fazer morrer nem pelo suicídio, como ele aconselhava, nem com todas as feridas que lhes dava. Respondeu a mulher: Creio que vivem na esperança de que alguém virá livrá-los, ou que tem consigo uma daquelas ferramentas que se chamam abre-tudo, e que por meio dela esperam fugir. Julgais que é assim minha querida? Disse o gigante, pois amanhã examiná-los-ei melhor.
Ora, no sábado à noite, seria mais ou menos à meia-noite, Cristão e Esperançoso principiram a implorar o socorro do Senhor, e continuaram as suas súplicas até quase ao romper do dia; e pouco antes do dia aparecer, Cristão gritou como um homem espantado, com muito sentimento. Quanto sou insensato! Ficar nesta masmorra de corrupção, quando possa gozar da liberdade. Tenho aqui em meu seio uma chave mestra, que pode seguramente abrir todas as fechaduras deste Castelo de Dúvidas.
ESPERANÇOSO. – Que boa nova! Meu irmão, tirai-a e experimentemos já.
Aquela chave se chama a Promessa do Senhor, e quando Cristão experimentou-a na fechadura no calabouço, e deu-lhe uma volta, abriu-se a porta de si mesma; e ambos saíram. Depois vieram à porta que conduz no páteo; a chave abriu aquela: então chegaram ao grande portão de ferro, que também havia de abrir-se: mas a fechadura era muito pesada, e custou; a chave, porém, valeu, e puxaram a porta para fugir. Esta chiou tanto, que o gigante acordou, e levantou-se com grande pressa para segui-los, mas sentiu logo tremer-lhe as pernas; sobreveio-lhe um ataque; e não lhe foi possível prendê-los. Os viajantes, pois, fugiram, tornaram a entrar na estrada real, pois estavam fora das terras do gigante.
Depois de passar pela aberta na cerca, consideraram o que podiam fazer para impedir outros viajantes de cair no mesmo perigo: e combinaram em levaantar ali um pilar com esta inscrição: “Por esta aberta passa a vereda que conduz ao Castelo de Dúvidas, onde mora o gigante Desesperança, que despreza o rei da cidade Celeste, e procura
fazer morrer os santos viajantes”. Muitos que passaram ali depois deles leram a inscrição e evitaram o perigo.
CAPÍTULO XXVII
Depois de voltar ao caminho do Senhor, a alma crente acha novos prazeres, e alcança um conhecimento mais claro das coisas espirituais e eternas.
Depois disto continuaram a sua viagem, e chegaram às Montanhas deliciosas, que pertencem ao Senhor do Caminho, e lá subiram para ver os belos jardins, as vinhas e as fontes agradáveis; lá beberam das águas, lavaram-se e comeram livremente do fruto das vinhas. No cume das colivas haviam pastores que guardavam seus rebanhos; os viajantes foram ter com eles, e, apoiando-se nos seus bordões, como costumam a fazer os viajantes quando estão fatigados e param no caminho para falar a alguém, perguntaram aos pastores a quem pertenciam essas lindas colinas e as ovelhas que aí pastavam.
OS PASTORES. – É o país de Emanuel, e destas montanhas se pode avistar sua cidade. Estas ovelhas também lhe pertencem, pois ele deu sua própria vida por elas.
CRISTÃO. – Por aqui é o caminho para sua cidade?
PASTORES. – Sim, estais nele.
CRISTÃO. – Em que distância fica daqui?
PASTORES. – Tão longe que nem todos podem lá chegar.
CRISTÃO. – O caminho é seguro ou perigoso?
PASTORES. – Ele é seguro para aqueles que perseverem até ao fim (Hebreus 3:14); mas há filhos de apartamento para a perdição. (Hebreus 10:39.)
CRISTÃO. – Acham-se aqui refrescos para os viajantes fracos e cansados no caminho?
PASTORES. – O senhor destas montanhas nos ordenou que não nos esquecêssemos da hospitalidade: portanto os refrescos que temos estão às vossas ordens.
Vi também que os pastores sabendo que Cristão e Esperançoso eram viajantes, perguntaram-lhes, donde vieram, como acharam o caminho, como puderam perseverar; porque, acrescentaram eles, do grande número que se pões a caminho são raros os que chegam
até a estas montanhas. Quando ouviram as respostas dos viajantes, os pastores olharam-os com muito amor e disseram: bem, vinde, bem, vinde às montanhas deliciosa.
Os nomes dos pastores eram Sabedoria, Experiência, Vigilante e Sincero. Eles tomaram os viajantes pela mão, conduziram-os também a se demorarem ali por algum tempo para que pudessem fazer um conhecimento mais estreito, e se restaurassem pelos frutos e ares saudáveis das montanhas. Cristão e seu comanheiro consentiram de muito boa vontade, e em breve foram descansar porque já era muito tarde.
Ao romper da manhã os pastores acordaram os viajantes para os levarem a passear pelas montanhas. Saíram, pois, juntos e passearam, tendo de todos os lados uma vista magnífica. Depois um dos pastores disse aos outros. Não será a propósito, fazr ver aos nossos viajantes algumas maravilhas? O que sendo aprovado por todos levaram-os ao cume dum morro chamado Erro, que era muito escarpado de um lado: e lhes disseram que olhassem para o fundo. Olharam, e lá viram os cadáveres de algumas pessoas feitos em pedaços, pois caíram do cume abaixo. Perguntou Cristão o que queria isto dizer: e os pastores responderam que eram pessoas que não ficaram contentes com as coisas que se podiam ver no caminho, e saindo dele vieram rastejando até que anoiteceu, e chegando-se a este cume caíram e perderam-se. Permanecem sem sepultura para servir de exemplo a outros, a fim de que se afastem de erro e se guardem no caminho.
Depois disto os levaram ao cume dum monte que se chama Toma-Sentido, e lhes indicaram um lugar distante dizendo que olhassem para lá. Fizeram-o e parecia-lhes
que viam algumas pessoas andando entre os sepulcros e ulgaram que eram cegos, porque tropeçavam sobre os túmulos e deles não podiam esquivar-se. Disse Cristão: O que é isto?
Responderam os pastores: Antes de chegar ao pé destas montanhas não vistes uma aberta na cerca, na esquerda do caminho que conduz em uma campina? Disseram que sim. Pois, continuaram os pastores, dali há um atalho que vai direto ao Castelo de Dúvidas, onde mora o gigante Desesperança e aqueles homens (mostrando com o dedo os que andavam entre os sepulcros), eram viajantes como vós e chegaram até ali. Então, achando que o caminho era custoso, quiseram sair dele para andar na campina. Lá foram presos pelo gigante e lançados no calabouço. Depois de os ter feito jazer aí por algum tempo, lhes arrancou os olhos e os meteu entre os sepulcros, onde continuam andar vagando. Ouvindo estas palavras Cristão e Esperançoso olharam-se um a outro com as lágrimas nos olhos, mas não disseram nada aos pastores.
Vi, pois, em meu sonho que foram a outro lugar, num vale muito profundo, onde havia uma porta no lado do monte. Os pastores abriram a porta e disseram-lhes que olhassem para dentro. Olharam e viram que era um lugar muito escuro e cheio de fumaça; e pareceu-lhes que ouviam um arruído aterrador como de uma veemente chama, com gritos e gemidos de pessoas e tormentos: e cheirava à fumaça de enxofre. Disse Cristão: Que quer dizer isto?
PASTORES. – É um atalho para o inferno por onde entram os hipócritas como Judas que vendeu seu Senhor,
Alexandre que blasfemou contra o Evangelho, e Ananias e Safira que mentiram e enganaram.
ESPERANÇOSO. – Todos os que nomeastes agora pareciam ser viajantes como nós: não foi assim?
PASTORES. – Sim, e por muito tempo.
ESPERANÇOSO. – Até onde tinham chegado quando se perderam tão miseravelmente?
PASTORES. – Alguns tinham já passado estas montanhas, outros não tinham chegado até aqui.
Então disseram os viajantes: É necessário para nós, chamar-mos ao Poderoso por socorro e fortaleza.
PASTORES. – Sim, e de usar deles quando os tiverdes recebido.
Quando os viajantes queriam continuar a sua jornada, os pastores consentiram, e os acompanharam até a extremidade das montanhas. Então disse um deles aos seus companheiros: “Mostremos aos viajantes as portas da cidade Celeste.” Cristão e Esperançoso desejavam muito vê-las, e para esse fim subiram ao cume de um monte alto, que se chama Iluminação; e os pastores arranjaram-lhes o telescópio para verem. Olharam, mas a lembrança da
última coisa que lhes fora mostrada pelos pastores, fazia ver distintamente os objetos. Porém perceberam uma coisa que tinha alguma semelhança a um grandíssimo portão, donse saíram raios de glória. Então separaram-se e os viajantes caminharam cantando com alegria.
Antes de partirem, porém, um dos pastores lhes deu um mapa do caminho; outro lhes disse que se prevenissem contra o Lisonjeiro: o terceiro, que não se deixassem dormir sobre a terra encantada, e o quarto lhes desejou o socorro de Deus na sua viagem. Então a acordei do meu sonho.
CAPÍTULO XXVIII
Retrato de um homem ignorante que se julga a si mesmo sábio. O fim daquele que se chama Cristão, mas os vícios segue. A alma que tem pouca fé nas palavras do Senhor anda mesquinha quando podia estar farta.
Dormi e sonhei outra vez, e vi os mesmos dois viajantes descendo das montanhas pelo caminho para a cidade. Ora, ao pé dos montes, e um pouco à esquerda, há um país que se chama bem-conceituado-de-si: e há uma veredinha torta dali que vem dar no caminho em que estavam os viajantes. Ali um mancebo esperto que viera daquele país, e que se chamava Ignorância encontrou-os; e Cristão perguntou-lhe donde vinha e para onde ia.
IGNORÂNCIA. – Senhor, nasci no país que está lá um pouco à esquerda, e vou para a cidade Celeste.
CRISTÃO. – E como esperais de entrar na porta? Poderesis achar lá alguma dificuldade.
IGNORÂNCIA. – Farei como outra gente de bem.
CRISTÃO. – Mas, que tendes a mostrar na porta que possa assegurar-vos a entrada?
IGNORÂNCIA. – Eu sei a vontade de meu senhor e nunca fiz mal a ninguém; pago a todos o que lhes devo: não sou adúltero nem ladrão: rezo, jejuo, faço esmolas, e estou d viagem por gosto do lugar onde vou.
CRISTÃO. – Mas, não entrastes pela porta estreita, que está à entrada do caminho: viestes por esta vereda, e, portanto, receio que seja qual for a boa opinião que tenhais de vós, quando chegar o momento de dardes contas; mui longe de entrardes na cidade, sereis tratado como um ladrão e roubador.
Meus senhores, respondeu Ignorância, eu não vos conheço e sou para vós igualmente desconhecido. Seja-vos bastante, praticardes a religião de vosso país como eu sigo a minha. Espero ficar bem, e enquanto à porta estreita de que falais, todo o mundo bem sabe que é muito longe de
nosso país: Creio que nem sequer um dos meus compatriotas sabe o caminho para ela; também pouco importa, pois temos esta bela e verda vereda pela qual podemos chegar na estrada.
Quando Cristão viu que o homem pensava de si que era sábio, disse Esperançoso em baixa voz. Há mais esperança de um louco que dele. Que faremos? Falar-lhe-emos mais, ou deixá-lo por ora? Talvez se ponha a pensar no que acaba de ouvir: depois podemos esperar, e ver se lhe possamos fazer algum bem.
ESPERANÇOSO. – Oxalá que pensasse, pois muitos de perdem eternamente pela falta de consideração. Vamos adiante.
Passaram, pois, adiante, e Ignorância seguiu. Chegaram daí a um pouco a um lugar onde o caminho se tornou muito escuro; lá encontraram um homem amarrado com sete cordas grossas: (os vícios) e dessa maneira sete demônios o levavam para a porta que tinham visto no lado do monte. Vendo isto, Cristão principiou a tremer também como Esperançoso, mas quando os demônios passavam com o seu preso, Cristão olhou para ver se o conhecia; e lhe pareceu que era um homem chamado Vira-costas, que morou na cidade de Apostasia; não viu bem a cara dele, porém, porque abaixava a sua cabeça como um ladrão desmascarado. Quando tinham passado, Esperançoso notou que tinha nas costas este letreito: “Cristão em nome, mas escravo em vícios.”
Então disse Cristão a seu companheiro: Isto me traz à lembrança, uma coisa que se me contou de um homem. E que aconteceu por aqui. Ele se chamava Pouca-fé, mas
morava na vila de Sinceridade. Ora, no lugar onde principia esta escuridão, há um beco que se chama Beco de Morte, e a travessa da Porta-larga: está denominado assim por causa das muitas mortes que se cometem nele. Ora, sucedeu que Pouca-fé, fazendo a mesma viagem como nós, assentou-se lá, e adormeceu; e enquanto ele dormia, vieram pelo beco da Porta-larga três homens péssimos, cujos nomes são: Coração-fraco, Receio e Culpa; os três são irmãos. Estes, pois, avistando Pouca-fé, vieram de carreira, no momento em que o bom homem acordava e se levantava para seguir a sua viagem. Lançaram-se sobre ele todos três ao mesmo tempo, e com muitos ameaços obrigaram-o a parar. Então Pouca-fé se tornou pálido como a morte, e nem podia combater nem fugir. Gritou Coração-fraco: – “Bolsa fora já,” e como ele a não disse prontamente, porque não queria perder o seu dinheiro, Receio acudiu, e metendo-lhe a mão na algibeira tirou-lhe um saquinho com dinheiro. Então gritou Pouca-fé: – Ladrões, ladrões; mas Culpa o feriu na cabeça com um bastão com tanta força que o lançou por terra deitando sangue pela boca, até que parecia moribundo. Os ealteadores pararam olhando-o, mas sem remorsos, até perceberem que alguém vinha, e temendo não fosse Grande-graça, que mora na Cidade de Boa-Confiança fugiram e deixaram-o lá estendido no chão. Depois de algum tempo, Pouca-fé tornando a si, levantou-se e esforçou-se para continuar a sua jornada. Tal foi a história.
ESPERANÇOSO. – Roubaram-lhe tudo quanto tinha?
CRISTÃO.- Não; não acharam o lugar em que tinha as suas jóias, (a vida eterna); essas ainda conversou. Mas, como me disseram, este bom homem sofreu muito pela perda, pois os salteadores levaram-lhe a maior parte do que tinha para gastar no caminho. (Paz, esperança da salvação e alegria no Senhor). Não pilharam as suas joias, e ainda lhe restou algumas moedas miúdas, mas apenas lhe chegavam até ao fim da jornada. Sim, (se não fui mal informado), achou-se obrigado a pedir esmolas para poder subsistir, pois não podia vender as joias; e andou com fome na maior parte do caminho que tinha de passar.
CAPÍTULO XXIX
A alma que aceita o perdão que Deus dá por meio de Jesus, que crê as promessas que Deus faz, e espera o socorro que ele promete, deve estar firme, confiando no Senhor, e sempre alegre. Quando perde de vista a perfeição do perdão pelo sangue de Cristo e pela fé nele, e se entrega a receios, fica triste, fraca e inútil.
ESPERANÇOSO. – Não é de admirar que não lhe tiraram o passaporte, que tinha de apresentar na Porta Celeste?
CRISTÃO. – É: mas não foi por cuidado dele que escapou das unhas dos ladrões. Quando chegaram, ele ficou tão perturbado que não tinha o poder, nem o juízo, de esconder coisa alguma. Foi mais pela boa providência do Senhor, do que por seus esforços que não deram com ele.
ESPERANÇOSO. – Foi sem dúvida uma grande consolação para ele que não pilharam aquela joia.
CRISTÃO. – Certamente podia ter sido para ele um grande consolo, se tivesse sabido aproveitar-se dele: mas aqueles que me contaram a história disseram que pouco uso fez dele, em todo o resto do caminho; e que isto foi porque ficou desanimado pela perda dos eu dinheiro. Na verdade esqueceu-se daquela joia, e quando lhe tornou a memória, e principiava consolar-se, então a lembrança da sua perda tornou também, e fê-lo perder toda a satisfação.
ESPERANÇOSO. – Ah! Pobre homem! Era uma tristeza cruel.
CRISTÃO. – Tristeza! Sim. Que sentiríamos se estivéssemos tratado, como ele, feridos e roubados em um lugar estranho? Era bastante para fazer morrer de tristeza. Disseram-me que até ao fim da viagem andou gemendo, suspirando, queixando-se a todos no caminho que fora roubado, e como foi, quem tinha sido que lho fizeram, quanto perdeu, e como escapou com vida.
ESPERANÇOSO. – Admiro-me que naquela necessidade em que se achou não vendesse nem penhorasse alguma joia para ter com que passar na viagem.
CRISTÃO. – Vós falais, meu irmão, como se tivésseis ainda a casca na cabeça; porque a quem podia vendê-las? Em todo o país onde ele foi roubado, suas joias não tinham preço algum, nem carecia dos alívios que os homens do país podiam dar; e, além disto, se lhe faltassem as joias à porta da cidade Celeste, seria (como ele bem sabia), excluído da herança lá; e para ele, isto era pior do que encontrar cem mil salteadores neste mundo.
ESPERANÇOSO.- Vós sois um pouco severo, meu irmão; Esaú vendeu o seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas: aquele direito foi sua maior joia; e se ele fez isso, porque não podia Pouca-fé também fazê-lo.
CRISTÃO. – Esaú vendeu seu direito de promogênitura, e muitos seguem seu exemplo e se excluem como ele do gozo dos maiores bens; mas haveis de distinguir entre Esaú e Pouca-fé. O deus de Esaú era seu ventre, mas não foi assim com Pouca-fé. Aquilo que Esaú carecia era comer para satisfazer seu apetite carnal; a falta que Pouca-fé sentia não era dessa qualidade. Esaú não olhava além da satisfação da sua vontade presente. “Estou para morrer, disse ele, e que bem me poderá fazer este direito de rimogenitura.” Mas Pouca-fé, ainda que a fé que tinha era pouca, foi livrado por ela de uma tão grande loucura, e por aquela mesma pouca fé, sabias que as suas jóias valiam tanto que não as queria vender. Nunca se lê que Esaú tivesse fé ainda que fosse pouca; e não é de admirar que uma pessoa em que só a carne governa, (como faz naqueles que não tem fé alguma), vendesse seus
privilégios, alma e tudo ao mesmo demônio do inferno. Um homem tal, conforme as expressões do profeta, é semelhante a um asno selvagem no deserto, quando se entrega a qualquer vício há de gozá-lo, seja qual for o preço. Pouca-fé, porém, tinha outro gênio: ele desejava coisas celestiais; não podia fartar-se senão com as palavras de Deus, e coisas espirituais. Que motivo, pois, tinha ele de trocar as suas joias por coisas que não gostava? Um homem daria um vintém sequer para encher seu ventre de capim? Podereis persuadir uma rola a comer carnes podres como um abutre? Enquanto aquele que não tem fé possa vender tudo, e até a si mesmo também, para satisfazer suas paixões, o homem que tem fé, verdadeira fé nas palavras de Deus, a respeito de Jesus e das coisas eternas, ainda que sua fé seja pouca, não pode; e foi sobre este ponto que erraste, meu irmão.
ESPERANÇOSO. – O confesso; mas vossas palavras a respeito da “casca na cabeça” me fizeram algum pesar.
CRISTÃO. – Ora, meu irmão, não fiz mais que comparar-vos a um pinto vivo dos pássaros que logo ao saírem do ovo correm por aqui e por ali em caminhos desconhecidos com a casca ainda na cabeça. Não façais caso disto: considerai o assunto, e tudo ficará bem entre nós.
ESPERANÇOSO. – Porém, Cristão, estou persuadido em meu coração que esses três malvados são gente covarde. Se não fosse asssim, julgais que teriam fugido ao ruído
que ouviram? Pouca-fé devia ter tido mais coragem, e não ceder sem dar sequer uma ferida.
CRISTÃO. – Muitos têm dito que são covardes, mas poucos os têm achado tais na hora da luta. Falais de coragem, mas Pouca-fé não tinha nenhuma, e se vos estivésseis a pessoa atacada, parece que talvez tereis dado uma ferida só, e então cedido; e se vossa coragem é tão fraca quando os salteadores estão longe, o que seria se vos sobreviessem a vós como fizeram a Pouca-fé?
Lembrai-vos, enfim, que esses três salteadores não são mais que criados que servem o rei do abismo sem fundo, e que quando hão mister, este mesmo vem em pessoa para socorrê-los; e a voz dele é como a voz de um leão. Eu me achei um dia assalatdo como Pouca-fé, e foi terrível o combate. Estes três se lançaram sobre mim, e, quando, como um verdadeiro cristão, principiei a resisti-los, gritaram e seu senhor, e este veio; então não podia ter tido esperança alguma de vida se não fosse revestido da armadura de Deus (Efésios 6:13). Sim, e em despeito disto, custou-me. Ninguém pode dizer o que é combater com esses inimigos senão aquele que tem-o experimentado.
ESPERANÇOSO. – Mas fugiram quando parecia-lhe que Grande-graça vinha.
CRISTÃO. – Sim: eles, e seu amo também têm muitas vezes fugido quando Grande-graça aproximava: e não é de
admirar, pois ele é o campeão de El-rei. Mas vos haveis de lembrar que hé muita diferença entre Pouca-fé e o campeão de El-rei. Nem todos os súditos do rei são tão valentes como Grande-graça: nem podem fazer obras heróicas como ele. Alguns são fortes, e outros fracos, alguns têm muita fé, outros têm pouca. Este Pouca-fé era um dos fracos: e não se deve procurar a força de um touro nas pernas de um pardal, nem o poder de um gigante no braço de uma criança.
ESPERANÇOSO. – Eu teria desejado que fosse Grande-graça que vinha, e que o tivesse pilhado.
CRISTÃO. – Ainda quando fosse ele mesmo, podia ter-lhe custado bastante; porque, posto que Grande-graça seja muito hábil em manejar as suas armas, e tem feito, e pode fazer muito bem com estes inimigos, em quanto os têm a ponta da espada, quando chegam a entrar nele, a saber, este Coração-fraco, Receio, e Culpa, é quase certo que o farão cair, e que pode fazer um homem estendido por terra?
Quem olha de perto na cara de Grande-graça, vê golpes e cicatrizes, que bem provam o que digo: e tenho ouvido contar que estando uma vez a lutar com esses inimigos ouviu-se-lhe gritar: “Até da vida desespero.” Que prantos e gemidos, não têm estes mesmos arrancado a Davi, e outros muitos campeões do rei; e S. Pedro querendo experimentar o que ele podia fazer contra eles, (ainda que muitos tenham-o por príncipe dos apóstolos), trataram-o tão cruelmente que no fim tinha medo de uma criada (S. Mateus 26:69).
Acrescentai que o rei desses ladrões está sempre tão perto que ouve quando dão o menor assobio, e corre para valer-lhes; e dele se pode dizer ainda o que foi dito há muitos séculos. Ainda quando uma espada o alcançar não valerá ela contra ele, nem lança, nem couraça, porque ele reputará o ferro como as palhas, e o metal como um pão podre. Não o fará fugir homem frecheiro, as pedras da funda se tornarão em palhas. Todas as peças de artilheria não o podem ferir, anda seguro no meio de batalhas. Que pode alguém fazer contra um tal? É verdade que se tivesse um cavalo semelhante àquele de que se fala em Jó (Capítulo 39, verso 21 até 25), e coragem de montá-lo, talvez fizesse alguma coisa; pois ele não conhece medo nem cede à espada; arrojando espumas, e rinchando, serve a terra, e não faz caso do som da trombeta. Logo que ouve a buzina diz: “Val, cheira de longe a batalha, a exortação dos capitães e o alarido do exército.” Por pobres soldados a pé, porém, como nós, é melhor que nunca desejemos um tal encontro; e que não nos gloriemos quando ouvimos de que outros falharam, aquele que fia no seu valor é o mais fraco na hora de tentação. Vede como aconteceu a S. Pedro. Ele se gabava de que faria melhor que todos os outros discípulos, e disse que “ainda quando todos se escandalizassem”, e quem foi mais batido que ele?
Quando ouvimos falar de tais salteadores no caminho real, devemos fazer duas coisas; a primeira é de andarmos sempre armados, e sobretudo ermos o escudo, que é uma grande arma no combate com esses homens e com seu rei, tanto que, quando não o temos, o inimigo nada nos teme. Por isso está escrito: “Embraçai sobre tudo o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do mais que maligno.” (Efésios 6:16)
A segunda coisa é, pedir de el-rei ima guarda, ou antes pedir que ele mesmo nos acompanhe. Foi a presença de nosso rei que fez Davi triunfar no vale da Sombra de morte, e Moisés antes queria morrer no lugar onde estava do que dar um passo sem seu Deus. (Êxodo 33:15). Ah, meu irmão, se Deus estiver conosco, quem será contra nós? Não temeremos os milhares de milhares que se levantarem contra nós; mas sem Ele o socorro dos mais valentes protetores de nada vale.
Eu já estive no combate, e ainda vivo; mas é pela bondade do Senhor, e não por minha bravura. Estarei muito contente se não tiver mais algum semelhante conflito, mas temo que ainda não estamos além do perigo. Vendo, porém, que o leão e o urso não nos devoraram, esperemos que Deus nos livrará também da mão do Filisteu incircunciso. (1 Samuel 17:26)
CAPÍTULO XXX.
As lisonjas são perigosas à alma cristça. – Louco atrevimento do ateu. – Propensão a uma sonolência espiritual.
Cristão e Esperançoso continuaram a sua viagem, e Ignorância veio seguindo.
Andaram até que chegaram a um lugar onde outro caminho juntou-se àquele em que estavam, e parecia ser tão direito como ele. Não sabendo por qual deviam caminhar pararam a considerar, e enquanto deliberavam veio ter com eles um preto coberto de um vestido leve e
branqueado, e perguntou-lhes porque estavam ali parados. Responderam-lhe que iam para a cidade Celeste, mas que não sabiam bem qual desses caminhos era que deviam tomar. “Segui-me, disse ele, eu vou lá.” Seguiram-o, pois, pela vereda que estava ao lado da estrada real, e pouco a pouco iam dando voltas até que tinham as costas para o lugar aonde queriam ir. Continuaram, porém, a segui-lo. E, enfim, acharam-se enredados em uma rede de tal sorte que não lhes era possível desembaraçar-se. Nesse momento caiu o vestido branco de cima das espáduas do o preto; então perceberam o que lhes tinha acontecido.
Lá ficaram algum tempo chorando, mas se poderão livrar-se.
Agora, disse Cristão ao seu companheiro, reconheço meu erro. Os pastores não nos acautelaram contra o lisongeiro? Hoje experimentamos o sentido das palavras do sábio. “O homem que usa de palavras lisongeiras e fingidas armam uma rede aos pés daquele que o acredita.” (Provérbios 29:5)
ESPERANÇOSO. – Nos deram também direções a respeito do caminho, mas esquecemo-nos de tê-las, e por isso, não nos temos conservado do caminho do Destruidor. Davi neste respeito um muito mais sábio que nós, pois, tomando sentido nas palavras do Senhor, ele se guardou dos caminhos de Satanás.
Enquanto deploravam assim as suas culpas e desgraça, distinguiram um senhor alvo e brilhante, cujos olhos eram como uma chama de fogo (Apocalipse 19:12); vinha para eles com um flagelo na mão, elogo que chegou perto perguntou-lhes donde vieram e o que faziam ali.
Responderam que eram pobres viajantes, que iam à montanha de Sião, e que foram desviados por um homem preto que trazia um vestido branqueado; e que lhes dissera que o seguissem porque ele também ia lá. Então aquele que levava o flagelo disse-lhes: – É Lisongeiro um falso apóstolo que se transformou em um anjo de luz (2 Coríntios 11:13-14). Ao mesmo tempo rasgou a rede e os pôs em liberdade, dizendo-lhes: – Segui-me agora, para eu vos pôr outra vez no caminho. E os reconduziu à estrada que deixaram para seguir Lisongeiro.
Chegados ao caminho, perguntou-lhes aonde haviam dormido à noite precedente.
CRISTÃO E ESPERANÇOSO. – Na casa dos pastores sobre as Montanhas Deliciosas.
SENHOR BRILHANTE. – Não vos deram direções a respeito do caminho?
CRISTÃO E ESPERANÇOSO. – Sim, Senhor.
SENHOR BRILHANTE. – Quando estivestes em dúvida não examinastes o escrito que vos deram?
CRISTÃO E ESPERANÇOSO. – Não senhor.
SENHOR BRILHANTE. – E por quê?
CRISTÃO. – Esquecemo-nos, senhor.
SENHOR BRILHANTE. – Os pastores não vos disseram também que vos acautelásseis de Lisongeiro?
CRISTÃO E ESPERANÇOSO. – Sim, senhor, mas não podíamos imaginar que este tão bom falador fosse ele.
Então vi em meu sonho que lhes ordenou que se prostrassem sobre a terra, e quando fizeram assim os castigou severamente com o flagelo, para fazê-los lembrar de ter mais sentido nas instruções que receberam; e em quanto os castigava disse: – Eu, aos que amo, repreendo e castigo. Armai-vos, pois, de zelo e arrependei-vos (Apocalipse 3:19). Depois disto disse-lhes que continuassem a sua viagem e cuidassem bem no que ouviram dos pastores.
Eles agradeceram-lhe toda a verdade que lhes mostrara, e andaram adiante lentamente no caminho direito.
Depois de algum tempo viram ao longe um homem que vinha encontrá-los e que andava devagar e sozinho. Então disse Cristão a seu companheiro. Lá está um homem com as costas para a Cidade Celeste, e vem encontrar-se conosco.
ESPERANÇOSO. – Eu o vejo: tomemos cuidado esta vez; pode ser outro Lisongeiro.
No entanto ele se aproximava mais e mais, até que se ajuntaram. Seu nome era Ateu, e perguntou-lhes aonde iam.
CRISTÃO. – Estamos de viagem à Cidade Celeste.
Então Ateu se pôs a rir a bandeiras despegadas, mas contudo o seu rir tinha alguma coisa de forçado e contrafeito.
CRISTÃO. – Oh! Por que rides vós dessa maneira?
ATEU. – Eu rio de ver pessoas tão simples como vós, fazendo uma viagem tão enfadonha, sem ganhar mais que o próprio enfado.
CRISTÃO. – Oh! Homem! Por quê? Julgais que não nos receberão?
ATEU. – Receberão! Não há tal lugar como aquele que figurais: não há, nem se pode achar em todo este mundo.
CRISTÃO. – Mas há no mundo futuro.
ATEU. – Quando estava em casa, na minha pátria, ouvi falar dele e saí para buscá-lo: já há mais de vinte anos que tenho procurado essa cidade, mas nada dela tenho achado.
CRISTÃO. – Nós temos ouvido e acreditado que existe, e que se pode alcançar.
ATEU. – Se eu não o tivesse acreditado também, quando esteve em minha casa, não teria chegado até aqui em busca dela; mas não achando nenhuma (e havia de a ter descoberto se existisse, pois tenho ido mais adiante do que vós, e feito mais diligência por achá-lo), tenho voltado, e vou tomar algum refresco nas coisas que abandonei por aquilo que, agora bem sei, não há.
CRISTÃO, virando-se para Esperançoso. – O que este homem acaba de dizer será verdade?
ESPERANÇOSO. – Tomai sentido. É um enganador. Lembrai-vos quanto já nos tem custado termos dado ouvidos a essa qualidade de gente. O que? Nenhuma Cidade Celeste? Não vimos das Montanhas Deliciosas à porta da cidade? E não é verdade que por ora havemos de andar por fé e não por visão. (2 Coríntios 5:7). Vamos, que não venha outra vez ter conosco o homem com o flagelo. Sois vós quem deveis dizer a mim as palavras do sábio que eu vos cito; “Cessai, meu filho, de ouvir as doutrinas que
conduzem aos enganos.” Digo-vos, meu irmão, larguemos esse homem, e creiamos para a salvação das nossas almas.
CRISTÃO. – Não te propus a questão, meu irmão, porque duvidasse da verdade de nossa fé, mas para provar-te, e ter uma amostra da lealdade do teu coração. Quanto a este homem, eu sei que está cegado pelo deus deste mundo; quanto a nós, continuemos a nossa viagem, sabendo que não seguimos fábulas engenhosas, mas temos as próprias palavras daquele que é a mesma verdade, e não pode mentir.
ESPERANÇOSO. – Agora me regozijo na esperança da glória de Deus.
Com estas palavras se separaram de Ateu; e rindo-se deles, este também seguiu seu caminho.
Vi depois em meu sonho, que caminharam até a um país cujo ar causa muita sonolência aos que lá chegam de fora. Esperançoso começou a ter muito sono, e disse a Cristão: – Agora estou to carregado de sono que muito me custa ter os olhos aberto. Deitemo-nos aqui, e tomemos um soninho.
CRISTÃO. – Não. De maneira alguma, a não ser que nos exponhamos a dormir para sempre.
ESPERANÇOSO. – Por que, meu irmão? O sono é doce ao fatigado, e nos pode dar novas forças para a viagem.
CRISTÃO.- Não vos lembrais do conmselho dos pastores, que estivéssemos de vigia na Terra Encantada? Queria dizer que estivéssemos prevenidos contra a modorra da alma. Não durmamos, pois, como também os outros, mas vigiemos, e sejamos sóbrios (1 Tessalonicenses 5:6)
ESPERANÇOSO. – Eu me confesso culpado: e se viera só, teria dormido aqui, e assim estado em perigo de morrer. Agora vejo a verdade do dito do Sábio, melhor é, pois, estarem dois juntos do que estar um só (Eclesiastes 4:9). Até agora a vossa companhia me tem sido muito vantajosa, e vosso trabalho não ficará sem recompensa.
CRISTÃO. – Para evitar a sonolência vamos falar de alguma coisa interessante.
ESPERANÇOSO. – Eu o quero de todo o meu coração.
CRISTÃO. – Por onde quereis, pois, começar?
ESPERANÇOSO. – Pelo começo da obra de Deus em nossas almas; mas se vos agrada, vos haveis de principiar.
CAPÍTULO XXXI
A obra de Deus na alma preparando-a para se chegar a Jesus. Convicção do pecado. As nossas obras não podem pagar por nossos pecados, nem recomendar-nos a Deus. Justificação pela fé em Cristo.
Pergunto-vos, pois, disse Cristão, como principiastes a pensar em fazer aquilo que agora fazeis?
ESPERANÇOSO. – O que quereis dizer? Como principiei a pensar no bem eterno da minha alma?
CRISTÃO. – Sim, é exatamente o que queria perguntar.
ESPERANÇOSO. – Eu por muito tempo gostei das coisas que veem, e que se vendem na nossa feira, e que me teriam precipitado infalivelmente no inferno, se as tivesse continuado a procurar.
CRISTÃO. – Quais coisas eram estas que procurastes?
ESPERANÇOSO. – Os tesouros e riquezas do mundo: gostei também de borracheiras, gulodices, extravagâncias, brincadeiras nos domingos, e todos os prazeres sensuais, que tendem para a perdição da alma. Achei, porém, depois,
pelo ouvir dizer, e pela meditação das coisas divinas, que o fim de uma tal vida é a morte, e que “por tais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da incredulidade” (Efésios 5:6).
CRISTÃO. – Vos entregastes logo à influência destas convicções?
ESPERANÇOSO. –Não, não quis saber da maldade do pecado, nem da condenação que há em segui-lo; esforcei-me a fechar os olhos contra a luz quando as palavras de Deus me principiaram a abalar a alma.
CRISTÃO. – Mas qual foi a causa porque desta maneira resististes ao Espírito de Deus?
ESPERANÇOSO. – As coisas eram: 1ª. Que não sabia que era obra de Deus em mim. Nunca tinha imaginado que a conservação salvadora da alma principiasse pela convicção de pecado; 2ª. O pecado ainda era muito agradável a minha alma, e não queria largá-lo; 3ª. Não sabia como pudesse afastar-me dos meus companheiros antigos, cuja presença e maneiras me agradaram tanto; 4ª. Os momentos em que senti estas convicções me eram tão enfadonhas e aterradores, que eram insuportáveis, e não podia consentir a pensar nas coisas eternas.
CRISTÃO. – Parece então que tivestes às vezes algum alívio das vossas tristezas e inquietações.
ESPERANÇOSO. – Tive, mas sempre tornaram, e depressa se fizeram tão más, ou até piores, que antes.
CRISTÃO. – O que foi que tornou a trazer vossos pecados à memória?
ESPERANÇOSO. – Muitas coisas, tais como: 1º. Encontrar um homem de bem na rua; 2º. Ouvir ler na Bíblia Sagrada; 3º. Ter uma dor de cabeça; 4º. Saber que algum dos vizinhos estava doente; 5º. Ouvir dobrar os sinos por um morto; 6º. Pensar no fim da minha vida; 7º. Ouvir dizer que alguém morreu de repente; 8º. Principalmente, o pensar que em breve havia de ser julgado.
CRISTÃO. – E podeis livrar-vos facilmente do peso de vossas culpas e pecados, quando por qualquer dessas coisas vinha carregar sobre a vossa alma?
ESPERANÇOSO. – Não. Agarraram-se mais e mais firmemente na minha consciência, e se lembrei-me de largar as rédeas às paixões, (ainda que não me agradaram como dantes), aumentava minha miseria.
CRISTÃO. – O que fizestes, pois?
ESPERANÇOSO. – Parecia-me que devia trabalhar mais para mudar de vida: aliás, disse eu comigo, serei perdido para sempre.
CRISTÃO. – Vós esforçastes a viver melhor?
ESPERANÇOSO. – Sim; não somente abstive dos meus vícios, e fugi à companhia dos viciosos; mas entreguei-me também aos deveres da religião; chorei meus pecados, rezei, li, falei a verdade, e fiz outras muitas coisas semelhantes.
CRISTÃO. – E então pensastes que estáveis muito bom?
ESPERANÇOSO. – Sim, por algum tempo; mas, enfim, as minhas inquitações voltaram em despeito de todas as minhas emendas.
CRISTÃO. – Como foi isto, vendo que já vos tivestes reformado?
ESPERANÇOSO. – Muitas coisas mais fizeram voltar, particularmente, certas palavras das ecrituras sagradas,
tais como estas: “Todas as nossas justiças são como trapos sujos” (Isaías 64:6). “Pelas obras da lei não será justificado nenhum homem” (Romanos 3:20). “Depois de ter feito tudo o que vos foi mandado, dizei, somos uns servos inúteis” (Lucas 17:10), e outras. Principiei a considerar, que se minhas melhores obras eram como trapos sujos; se pela obediência à lei nenum homem pode ser justificado, e se quando tivermos cumprido com tudo havemos de dizer “somos servos inúteis,” então é uma loucura imaginar que eu possa alcançar o céu por este caminho. Pensei também que se um homem devia cem mil reis em uma venda, e depois pagasse cada dia, aquilo que cada dia comprava, não pagaria assim os cem mil reis que já devia; o vendeiro ainda chamá-lo à justiça por aquela dívida.
CRISTÃO. – Como aplicastes isto a vosso próprio caso?
ESPERANÇOSO. – Disse comigo: Já está contra mim nos livros de Deus uma dívida imensa por meus pecados; se me emendar, e não acrescentar nada à dívida, nem assim pago o que já devo; e ainda hei de perguntar como possa livrar-me da condenação que mereço pelos pecados que cometi.
CRISTÃO. – Muito bem aplicado; continuai caro amigo.
ESPERANÇOSO. – Havia outra coisa que me pesava, e ainda me pesa, a saber, que quando examinei as minhas melhores obras, achei (e ainda acho) nelas mesmas, todos
os dias, tanto mal, que estou obrigado a julgar-me merecedor da condenação eterna, e que o seria ainda, quando toda a minha vida passada tivesse sido sem mancha.
CRISTÃO. – Então o que fizestes?
ESPERANÇOSO. – Não sabia o que havia de fazer até que falei com Fiel; pois nós éramos muito unidos; e ele me disse que enquanto eu não alcançasse os merecimentos de um homem que nunca pecou, nem minhas obras, nem as de todo o mundo me poderiam salvar.
CRISTÃO. – Acreditastes que ele vos dizia a verdade?
ESPERANÇOSO. – Se mo tivesse dito quando estava contente com minhas reformas, eu o teria chamado louco em recompensa do seu conselho: mas nessa ocasião conhecendo a minha fraqueza, e achando pecados em tudo o que fazia, não podia resistir as suas palavras.
CRISTÃO. – Quando vos falou pela priemira vez de um homem, de quem se podia dizer em verdade que nunca havia pecado, parecia-vos que era possível que se achasse um tal?
ESPERANÇOSO. – Confesso que ao princípio não me pareceu ter ar de verdadeiro. Porém, depois de algumas conversações que teve com ele, fiquei plenamente convencido.
CRISTÃO. – Perguntaste-lhe qual é esse homem? E como os merecimentos dele podiam valer para vos livar da condenação?
ESPERANÇOSO. – Perguntei, e ele me disse que é o Senhor Jesus, que está assentado à direita de Deus (Hebreus 8:1), e que Deus mesmo tem prometido lançar os merecimentos de Jesus em conta a favor fr todos os que creem, o que Ele nos diz a seu respeito (Romanos 4). Perguntei-lhe mais, como os merecimentos daquele homem podiam valer aos criminosos, e justificá-los diante de Deus. Ele me disse que esse homem é também o altíssimo de Deus: que tudo que Ele fez e sofreu foi por outros; que Ele só, valia mais que todos os pecadores, e que quando deu a si mesmo à morte, pagou tudo quanto basta pelos pecados de todo o mundo. Disse-me ainda mais que, os merecimentos Dele seriam lançados em conta a meu favor, se eu acreditasse a Deus (S. João 5:24).
CRISTÃO. – Pois então, o que fizestes?
ESPERANÇOSO. – Julguei que, talvez, Ele não estaria contente de me salvar.
CRISTÃO. – E o que vos disse Fiel?
ESPERANÇOSO. – Disse-me que experimentasse. Respondi-lhe que seria grande audácia. Ele me disse que não seria audácia, porque estava convidado; (S. Mateus 11:28) e me deu um livro escrito por ordem de Jesus mesmo para animar-se a ir com mais confiança, assegurando-me que todas as palavras daquele livro eram mais seguras que os alicerces do céu e da terra. Eu lhe perguntei ainda, o que devia fazer quando fosse a Jesus. Ele me disse que de joelhos pedisse ao Pai, com todo o meu coração, que me fizesse conhecer seu Filho. Mas perguntei-lhe o que devia dizer ao Filho; e me respondeu, o achareis assentado sobre um trono de misericórdia, onde Ele está durante todo o ano, para dar arrependimento e remissão de pecados a todos os que os procuram (Atos 5:31). Eu disse-lhe que não sabia como falar-lhe, se fosse. Respondeu-me que falasse: Meu Deus, sê propício a mim pecador (S. Lucas 18:13). Faz-me conhecer-Te, e confiar em Ti, pois vejo que se Tu não tivesse vindo como homem, se não tivesse cumprido a lei, se não tivesse morrido por meus pecados, e se eu não tiver confiança em Teus merecimentos, hei de ficar eternamente perdido. Senhor, tem-se-me assegurado que Tu és um Deus de misericórdis; que por isso tomaste a natureza humana, e vieste para salvar o mundo, e que queres que os pobres pecadores, tais como eu, tivessem o proveito daquilo que Tu fizeste e sofreste. Senhor, salvai a minha alma para a glória de Teu santo nome. Amém.
CRISTÃO. – Fizestes o que ele vos mandou?
ESPERANÇOSO. – Sim, por certo, e não uma vez nem duas, mas muitas e muitas.
CRISTÃO. – E o Pai Eterno fez-vos conhecer o Filho?
ESPERANÇOSO. – Não na primeira vez que pedi, nem na segunda, nem na terceira, nem na quarta e nem sequer na quinta.
CRISTÃO. – Que fizestes, pois?
ESPERANÇOSO. – Eu não sabia o que devia fazer.
CRISTÃO. – Não vos veio ao pensamento abnadonar a oração?
ESPERANÇOSO. – Sim, mais que cem vezes.
CRISTÃO. – Por que o não fizestes?
ESPERANÇOSO. – Acreditei que aquilo que ouvira era verdade, isto é, que se não tivesse os merecimentos de Jesus, lançados em conta, a meu favor, nunca podia ser salvo. Por isso pensei comigo: se largar, morro; se continuar, nãos erá pior que morrer. Lembrei-me também das palavras do profeta: “Se demorar, espera-O, porque infalivelmente virá, e não tardará.” (Habacuque 2:3). Por isso continuei a rogar até o Pai mostrou-me Seu Filho.
CRISTÃO. – E como vos foi manifestado?
ESPERANÇOSO. – Não o vi com os olhos do corpo, mas com os olhos do meu entendimento, e foi desta maneira: Eu estava um dia muito triste, mais triste que em qualquer outra ocasião em toda a minha vida, e a tristeza foi causada pela vista que tive da grandeza e enormidade dos meus pecados. Quando não via outra coisa diante de mim, senão o inferno e a perdição eterna da minha alma, de repente parecia-me que o Senhor Jesus olhava do céu para mim, e que me disse: “Crê no Senhor Jesus, e serás salvo.” (Atos 16:31)
“Porém, Senhor, lhe disse eu, sou um muito grande pecador.” Respondeu-me: “Meu sangue purifica de todo pecado.” (1 S. João 1:7). Disse-lhe eu: “Senhor, que é crer?” Logo vi das palavras: “O que vem a Mim não terá jamais fome, eo que crê em Mim não terá jamais sede” (S. João 6:35), que crer e vir é a mesma coisa, e que aquele que, com o amor do coração procura o Senhor para ser salvo por Ele, crê em Cristo. Então os meus olhos se banharam de lágrimas, e perguntei: “Senhor, é possível que um tão grande pecador como eu poderá ser recebido
por Ti e ainda ser salvo?” Então ouvi estas palavras: “O que vem a Mim não o lançarei fora.” (S. João 6:37). “Porém, Senhor, repliquei-lhe, como Te hei de considerar quando vier a Ti, para que minha fé seja verdadeira e bem posta?” Disse Ele: “Jesus Cristo veio a este mundo para salvar aos pecadores (1 S. Timóteo 1:15); e Ele é o fim da lei para justificar a todo o que crê (Romanos 10:4); morreu por nossos pecados, e ressuscitou para nossa justificação (Romanos 4:25); nos amou e nos lavou dos nossos pecados no Seu sangue (Apocalipse 1:5); é mediador entre Deus e os homens (1 S. Timóteo 2:5); vivendo sempre para interceder por nós (Hebreus 7:25). De todas estas palavras tirei a conclusão que devia confiar em Sua morte, como pagamento suficiente por meus pecados, e esperar ser recebido pelo Pai, só por causa dos merecimentos do Filho: compreendi o que fez, e o que sofreu foi para o bem daquele que O quer aceitar por seu Salvador, e ser grato. Sobre isto o meu coração se achou cheio de alegria, meus olhos cheios de lágrimas, e todas as faculdades da minha alma cheias de um amor ardente ao nome, ao povo e aos caminhos do Senhor Jesus.
CRISTÃO. – Isto foi, na verdade, uma revelação de Jesus a vossa alma. Mas diga-me que efeito teve sobre vosso espírito.
ESPERANÇOSO. – Fez-me ver que todo o mundo está condenado: que o Pai Eterno, ainda que perfeitamente justo, pode justificar, em conformidade com a justiça, o pecador que o busca; fez-me ter muita vergonha das abominações da minha vida passada; e me confundiu com um sentimento da minha ignorância; pois nunca até
aquela hora tinha entrado em meu coração um pensamento que me mostrasse a beleza de Jesus; fez-me gostar de uma vida santa e desejar que pudesse fazer alguma coisa para a honra e glória do nome de Cristo; parecia-me que se tivesse dez mil vidas podia dá-las todas por causa de Jesus.
CAPÍTULO XXXII.
Os ignorantes se enganam com ideias falsas a respeito de si mesmos, a respeito de Deus, e a respeito de Jesus Cristo.
Depois vi em meu sonho, que Esperançoso, virando-se, viu Ignorância, que há algum tempo haviam deixado atrás; e que vinha seguindo-os. Olhai, disse ele a Cristão, quão longe aquele mancebo tem ficado atrás.
CRISTÃO. – Sim, o vejo bem: não se importa com nossa companhia.
ESPERANÇOSO. – Creio, porém, que não lhe teria feito mal se tivesse caminhando conosco.
CRISTÃO. – É verdade; mas, sem dúvida, ele não pensa assim.
ESPERANÇOSO. – Pode ser; mas esperemo-lo.
Esperaram-o, e quando aproximava Cristão disse-lhe: Vinde, senhor; vos havemos esperado; por que ficais tão atrás?
IGNORÂNCIA. – Gosto muito mais de andar só, do que em companhia, se não estiver muito boa.
Então disse Cristão a Esperançoso, em voz baixa: Não vos disse que ele não se importava com nossa companhia? Mas vamos falar-lhe neste lugar solitário; então, dirigindo-se Ignorância, disse. Pois, senhor, vamos. Como estais? Como achava-se vossa alma para com Deus?
IGNORÂNCIA. – Espero que está boa; porque estou sempre cheio de bons sentimentos que vêm consolar-me no caminho.
CRISTÃO. – Que bons sentimentos? Tenha a bondade de dizer-vos.
IGNORÂNCIA. – Penso em Deus e no céu.
CRISTÃO. – Os demônios fazem o mesmo, e as almas perdidas também.
IGNORÂNCIA. – Mas eu penso neles, e os desejo.
CRISTÃO. – Assim fazem muitos que não vão lá: o preguiçoso quer, e nada tem.
IGNORÂNCIA. – Mas eu penso neles, e largo tudo por amor deles.
CRISTÃO. – Isso duvido; porque custa muito largar tudo; sim, custa mais que muitos pensamentos; mas, que razão tendes de julgar que deixastes tudo por amor de Deus e do céu?
IGNORÂNCIA. – Meu coração mo diz.
CRISTÃO. – Está escrito pelo sábio: Aquele que confia no seu coração, é um insensato (Provérbios 28:26).
IGNORÂNCIA. – Isso se diz a respeito de um coração maus, enquanto o meu é bom.
CRISTÃO. – Que provas tendes de que é bom?
IGNORÂNCIA. – Me consola pela esperança do céu.
CRISTÃO. – Isso pode suceder por engano do próprio coração. O coração pode consolar um homem pela esperança de bens, que ele nunca vai ter.
IGNORÂNCIA. – Mas minha vida corresponde com o meu coração, por isso minha esperança está bem fundada.
CRISTÃO. – Quem vos disse que vossa vida corresponde com vosso coração?
IGNORÂNCIA. – Meu coração mo diz.
CRISTÃO. – “Pergunta a meu companheiro se eu sou ladrão.” Vosso coração vos diz! Que diz Deus? Se o testemunho dele não estiver a vosso favor, todos os outros de nada valem.
IGNORÂNCIA. – Mas não é bom o coração que tem bons pensamentos, e não é boa a vida que está conforme os mandamentos de Deus?
CRISTÃO. – Sim, certamente; mas é uma coisa ter; e é outra. E muito diferente pensar que temos.
IGNORÂNCIA. – Pois, que pensamentos vos parecem bons? E que vida está conforme a lei de Deus?
CRISTÃO. – Há bons pensamentos sobre vários objetos: uns sobre nós, outros sobre Deus, outros sobre Cristo, e a respeito de outras coisas.
IGNORÂNCIA. – Que pensamentos a respeito de nós mesmos são bons?
CRISTÃO. – Aqueles que estão conforme à Palavra de Deus.
IGNORÂNCIA. – Quando estão conforme à Palavra de Deus?
CRISTÃO. – Quando o julgamento que lançamos sobre nós mesmos, conforma-se com as Escrituras Sagradas. Por exemplo: elas dizem do homem no seu estado natural: “Não há, pois, nenhum justo, não há quem faça o bem.” (Romanos 3:10-12). Diz também: “Depravado é o coração de todos (Jeremis 17:10), e o sentido e o pensamento do coração do homem são inclinados para o mal desde sua
mocidade (Gênesis 8:21). Ora, quando pensamos assim, e sentimos assim a respeito de nós mesmos, os pensamentos são bons, pois estão conforme às palavras de Deus.
IGNORÂNCIA. – Eu nunca hei de crer que o meu coração seja tão mal.
CRISTÃO. – Assim mostrais que nunca haveis tido em toda a vossa vida um bom pensamento sobre vós mesmo. Mas deixai-me dizer mais, como Deus condena nossos corações, também condena nossa conduta; e quando nossos pensamentos sobre nossos corações e sobre nossa conduta condizem com essa condenação, são bons, pois são semelhantes aos de Deus.
IGNORÂNCIA. – Explicai-me o que dizeis?
CRISTÃO. – Ora, Deus diz nas Escrituras Sagradas que as obras dos homens não são boas; são perversas; que sem sabê-lo dos homens dão fora do caminho do céu, em caminhos tortos e maus, e quando um homem pensa e sente, com humildade em seu coração que é verdadeirament assim, então tem bons pensamentos sobre a sua vida, porque seus pensamentos concorrem com o juízo de Deus.
IGNORÂNCIA. – Que pensamentos sobre Deus são bons?
CRISTÃO. – Temos sempre a mesma regra. Quando nossos pensamentos são conformes ao que Ele diz a respeito de si mesmo, são bons. Não posso entrar agora no que diz respeito da sua existência e caráter em geral; mas quanto estes nos tocam, direi que as Escrituras afirmam, que Deus nos conhece melhor do que nos conhecemos a nós mesmos; e que Ele pode descobrir em nós, pecados, quando e onde nós, nenhum podemos achar. Pois quando pensamos que Ele conhece nossos desejos; e que as afeições mais ocultas, até as que temos escondidas na maior profundidade do coração, estão todas sempre expostas claramente diante dos seus olhos, e também que todos os nossos pensamentos mais elevados, e sentimentos mais nobres são baixos e abomináveis na sua estimação; e por isso que Ele não pode sofrer que nos apresentemos a Ele com confiança em quaisquer de nossas obras; então nossos pensamentos a respeito de Deus são bons, são verdadeiros, são conformes ao juízo de Deus.
IGNORÂNCIA. – Pensais vós que eu seja tão ignorante que imaginasse que Deus não vê mais longe do que eu? Ou que eu pretenda justificar-me diante Dele por minhas boas obras?
CRISTÃO. – Quais são, pois, vossos sentimentos a esse respeito?
IGNORÂNCIA. – Digo-vos em duas palavras, que penso que devo crer em Jesus Cristo, para ser justificado por Ele.
CRISTÃO. – Como! Pensais que deveis crer em Cristo para justificação, quando não sentis necessidade alguma do seu socorro! Quando não sentistes o peso da vossa corrupção original, nem dos vossos pecados atuais; tendes uma ideia tão elevada de vós e das vossas obras, que nunca pudestes ver a necessidade dos merecimentos pessoais de Cristo para vossa justificação diante de Deus. Como, pois, podeis dizer: Eu creio em Cristo?
IGNORÂNCIA. – Eu te davia creio muito bem.
CRISTÃO. – Pois, o que credes?
IGNORÂNCIA. – Creio que Cristo morreu pelos pecadores, e eu hei de ser justificado diante de Deus, e livrado da maldição, por sua graciosa aceitação da minha obediência as suas leis. Ou, desta maneira; Cristo por seus méritos faz os meus deveres religiosos serem agradáveis a seu Pai; e asseim serei justificado.
CRISTÃO. – Permiti-me responder a esta profissão de fé.
1º Credes com uma fé fantástica, pois em todo o livro de Deus não se acha uma só palavra a respeito de uma semelhante fé.
2º Credes com uma falsa fé, pois não atribuis a justificação aos merecimentos pessoais de Cristo, mas aos vossos.
3º Esta fé não reconhece Cristo como justificador de vossa pessoa pelas vossas obras.
4º A verdadeira fé que salva descansa sobre as palavras em que Deus nos diz, que Jesus obedeceu toda a lei por nós, e sofreu todo o castigo que a justiça demandava por nossos pecados; e em que promete que aquele que crê, terá o proveito do que Jesus fez e sofreu.
Ela aceita Jesus, e sua obra perfeita, como cumprimento de tudo quanto a lei tinha contra nós; e a alma vestida contra esses merecimentos pessoais de Jesus, está apresentada ao Pai pelo Filho, e está recebida na família do céu, livrada de toda a condenação. Mas, vossa fé, não aceitando os merecimentos perfeitos, e pessoais de Jesus, como alicerce da vossa justificação, não vos valerá no dia final; mas vos deixará debaixo da ira do todo poderoso Deus.
IGNORÂNCIA. – O que é isso? Quereis que confiássemos no que Jesus mesmo acabou há tantos séculos independentemente de nós. Esta doutrina largaria as rédeas das paixões, e nos deixaria viver conforme as nossas fantasias; pois que importa como vivamos, se podemos ser justificados de tudo, pelos merecimentos pessoais de Cristo, com a única condição de crer Nele?
CRISTÃO. – Vós mostrais bem por esta resposta que sois de fato, como d enome, Ignorância. Ignorais qual é o verdadeiro alicerce de justificação, e a maneira em que vossa alma possa aproveitar-se dele e livrar-se da ira vindoura. Ignorais os efeitos da fé nos merecimentos de Cristo, que ela faz prostrar-se o coração, e o ganha para Deus, que o faz amar Seu nome, Seu serviço e Seu povo; e não deixa o homem escravo dos vícios do demônio.
ESPERANÇOSO. – Perguntai-lhe se Cristão foi jamais revelado a sua alma, do céu.
IGNORÂNCIA. – Como! Sois, pois, gente de revelações! Creio que quanto vós e vossos irmãos, têm dito a esse respeito, não é mais que o fruto de miolos virados.
ESPERANÇOSO, - Ah! Senhor! Vós ignorais que Cristo é tão escondido em Deus ao entendimento do homem natural, que ninguém pode conhecê-Lo para a salvação, se o Pai Eterno não lho revelar? (S. Mateus 11:27)
IGNORÂNCIA. – Será essa vossa fé, mas não a minha. Eu creio, com tudo, que a minha é tão boa como a vossa; posto que não tenha na cabeça tantas fantasias como vós.
CRISTÃO. – Deixai-me dizer uma palavra, não deveis falar tão levemente sobre este assunto. É verdade, como meu bom companheiro tem dito, que ninguém pode conhecer Jesus Cristo, a não ser que o Pai o revele. Sim; e a fé pela qual a alma chega-se ao Senhor Jesus verdadeiramente, há de ser obra do grande poder de Deus. mas bem vejo que tudo isto ignorais. Acordai-vos, senhor, reconhecei vossa miséria, e recorrei humildemente ao Senhor Jesus; e por seus merecimentos que são os merecimentos de Deus mesmo (pois Ele é Deus) sereis livrado da condenação.
IGNORÂNCIA. – Vós andais tão depressa que não posso acompanhar-vos; é melhor que passeis adiante; eu hei de ficar um pouco mais atrás.
CRISTÃO. – Quereis ainda ser insensato e desprezar bons conselhos? Considerai no que vos há de suceder. Se não; sois vós que haveis de levar o castigo.
Vinde, meu querido Esperançoso, havemos de seguir a nossa viagem como dantes.
CAPÍTULO XXXIII
As marcas do verdadeiro temor de Deus: os motivo porque alguns que pareciam ter interesse nas coisas espirituais e eternas largam-as: a maneira em que voltam aos prazeres e vícios do mundo e se perdem eternamente.
Vi, pois, em meu sonho que Cristão e Esperançoso foram caminhando muito apressadamente, e Ignorância de vagar. Então disse Cristão: PAI deploro muito o estado daquele pobre cego; quão miserável há de achar-se no fim!
ESPERANÇOSO. – Ah! Há muitos tais em nossa cidade; há famílias inteiras, e até ruas inteiras de pessoas que se chamam Cristãos, e que estão na mesma condição. Quantos não hão de haver no país onde Ignorância nasceu!
CRISTÃO. – Fecharam os seus olhos para não suceder que vejam (S. Mateus 13:15). Porém, agora, que estamos sós, dizei-me que pensais dessas pessoas. Nunca tem a convicção de que são pecadores, e que por isso estão em perigo?
ESPERANÇOSO. – Vós sois o mais velho, por isso respondei vós mesmo a esta pergunta.
CRISTÃO. – Pois julgo que de vez em quando tem; mas não entendem que tais convicções são para seu bem; por isso procuram afogá-las, e continuam a lisongear-se, enquanto andam servindo seus vícios.
ESPERANÇOSO. – Eu o creio também, e que o medo faz muito bem aos homens, porque os obriga a cuidar bem no princípio da sua viagem.
CRISTÃO. – Por certo que o faz, contanto que seja o verdadeiro medo. Pois está escrito – O temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Provérbios 1:7).
ESPERANÇOSO. – Como descreveis o verdadeiro temor do Senhor?
CRISTÃO. – O verdadeiro e saudável temor do Senhor se conhece por três marcas:
1ª Na sua origem, procede de uma sincera convicção do pecado.
2ª Dispõe a alma a abraçar o Salvador Jesus Cristo.
3ª Produz e sustenta na alma muita reverência para com Deus, suas palavras e serviço. Faz a consciência sensitiva, e mete-lhe medo de desviar dos preceitos do Senhor para uma banda ou para outra, e de tocar em qualquer coisa que possa desonrar a Deus, destruir a Sua paz, entrisecer ao Espírito Santo, ou dar ocasião aos inimigos a blasfemar.
ESPERANÇOSO. – Muito bem dito. Creio que dissestes a verdade. Porém não estamos ainda quase fora da Terra encantada?
CRISTÃO. – Por que? Já estais enfadado desta conversação?
ESPERANÇOSO. – Não, de certo; mas queria saber aonde estamos.
CRISTÃO. – Não temos uma légua de andar nela agora. Mas, voltemos agora ao nosso assunto. Os ignorantes não sabem que essas convicções tendem para seu bem, e por isso procuram afogá-las.
ESPERANÇOSO. – Como procuram afogá-las?
CRISTÃO. – 1º Pensam que tais medos são obra do demônio (quando são obra de Deus) e pensando assim as resistem como coisas perniciosas. 2º Pensam também que o temor faz enfraquecer a sua fé (quando, coitados, não têm nenhuma), por isso se endurecem contra Ele. 3º Julgam que não devem temer, e por isso me despeito das convicções, se tornam presuntuosamente confiado. 4º Sentem que esses medos servem de tirar-lhes o miserável auto-conceito que tem de si mesmos, e da sua santidade, e não gostando disto, os resistem quanto podem.
ESPERANÇOSO. – Eu sei alguma coisa deste estado por experiência própria; fazia assim antes que eu me conhecesse.
CRISTÃO. – Deixemos agora de parte o nosso Ignorância e proponhamo-nos um outro assunto proveitoso.
ESPERANÇOSO. – De muito boa vontade; mas outra vez vos haveis de começar.
CRISTÃO. – Pois bem, conhecestes vós, há talvez dez anos, um homem em vosso país que se chamava Temporário? Era então um homem muito zelos da sua religião.
ESPERANÇOSO. – Como podia eu deixar de conhecê-lo? Ele morava na cidade Fora-de-Graça, que é duas léguas distante de Boa-fé, e sua casa pegava na de Vira-Costas.
CRISTÃO. – É esse mesmo; morava debaixo do mesmo teto com Vira-Costas. Ora, ele numa ocasião afligiu-se muito por causa dos seus pecados, e do castigo que por eles merecia.
ESPERANÇOSO. – Eu também assim creio, porque minha casa não era mais que uma légua distante da sua, e
ele muitas vezes veio ter comigo, chorando amargamente. Tinha muita pena dele, e alguma esperança de que se salvasse; mas nem todos os que dizem – Senhor, Senhor – entram no reino dos céus. (S. Mateus 7:21)
CRISTÃO. – Ele me disse uma vez que tinha resolvido pôr-se a caminho na estrada em que nós agora andamos; mas, de repente, se fez companheiro d eum homem chamado Salva-si-mesmo, então separou-se inteiramente de mim.
ESPERANÇOSO. – Agora que chegamos a falar dele, examinemos qual pode ser a causa de uma deserção tão repentina da parte dele, e de outros.
CRISTÃO. – Pode ser proveitoso; mas desta vez vós haveis de começar.
ESPERANÇOSO. – Com muito gosto. Pois, segundoo meu entender, isto procede de quatro motivos:
1º. – Posto que a consciência destes homens seja acordada, contudo suas inclinações não são mudadas; portanto, logo que acabam de sentir que estão culpados, acaba também o motivo de seguir a religião e voltam para os seus primeiros caminhos. São como o cão que, quando está nauseado do que comeu, lança e vomita tudo; não é por desgosto do que comera, mas somente porque lhe incomoda o estômago. Logo que a náusea lhe passa, e o
estômago está melhor, não sendo mudada a sua inclinação, torna a comer o que lançou; conforme o provérbio: “Voltou o cão ao que havia vomitado.” (2 S. Pedro 2:22). Assim, digo, os Temporários enquanto têm medo do inferno largam os vícios, e parecem procurar o céu. Quando o temor abranda, também abranda o zelo; e quando o medo da perdição acaba inteiramente, o seu zelo e desejo do céu ficam em nada.
2º. – Outra razão é, que tem medo dos homens. Enquanto se lembram das penas do inferno, e têm medo de perder-se eternamente, não fazem caso dos homens; mas depois de acalmar-se aquele maior medo põem-se a pensar que não lhes faz conta sofrer incômodos, perder o respeito e amizade do mundo, e encontrar seu desprezo e escárneo; por isso voltam a viver como os seus vizinhos. Como está escrito: “Aquele que teme ao homem depressa cairá.” (Provérbios 29:25)
3º. – A religião parece-lhes uma coisa vil e desprezível: eles são cheios de orgulho e de ambição. Quando se lhes passa o temor da ira vindoura, se entregam de novo ao mundo e ao pecado.
4º. – A lembrança dos seus pecados, e os receios do futuro, não lhes agradam; querem afogá-los; e uma vez que estão afogados, endurecem os seus corações, e se entregam nos divertimentos e ocupações que os endureceram mais, contra toda a consideração da morte, de Deus e do mundo futuro.
CRISTÃO. – Vós tendes razão; o grande motivo de tudo é, que suas vontades e inclinações ficam no mesmo. Portanto são semelhantes ao criminoso diante do juiz;
estremece e parece arrepender-se profundamente, mas o que tem é medo da força, e nada mais; e por isso quando está solto torna a cometer os mesmos crimes. Se fossem verdadeiramente mudadas as suas inclinações, não cairia outra vez na mesma vida.
ESPERANÇOSO. – Eu vos mostrei os motivos pelos quais se voltam. Mostrai-me vós agora a maneira em que o fazem.
CRISTÃO. – De muito boa vontade:
1º. – Eles fazem quanto podem para arredar os seus pensamentos de Deus, da morte e do dia de juízo.
2º. – Em seguida largam pouco a pouco os deveres particulares, tais como a oração, tristeza por ter escandalizado a Deus, e vigilância contra as tentações.
3º. – Evitam a companhia daqueles que creem o Evangelho, querem realmente servir a Deus, e sentem que os negócios da alma são da maior importância.
4º. – Então largam os deveres mais públicos tais como ler, e ouvir as palavras de Deus.
5º. – Procuram saber das culpas em que caem os cristãos, e as representam como provas que a religião não presta.
6º. – Andam na companhia de homens viciosos e libertinos.
7º. – Tomam licença de entreter se em particular, com coisas que Deus proíbe; e gostam de achar que algum verdadeiro cristão tenha ofendido a Deus, da mesma maneira; pois lhes dá mais ânimo a pecar.
8º. – Principiam a pecar abertamente sem vergonha.
9º. – Assim mostram o que são, e se não for por um milagre de misericórdia, se perderam eternamente.
CAPÍTULO XXXIV
Felicidade da alma cristã, quando se está chegando ao fim da vida as aflições e agonias da morte.
Neste ponto notei que os viajantes tendo atravessado a Terra Encantada entraram noutra chamada Beulá.
Alegraram-se muito com as delícias que acharam nela. Ouviam continuadamente o cântico dos pássaros, e a voz da rola; todos os dias encontravam lindíssimas flores no caminho; e andavam sem medo. Naquele país o sol nunca se põe, o ar é sempre sereno, puro, e doce; lá não há sombra de morte, nem gigante Desesperança, nem Castelo de Dúvidas. Lá tiveram à vista a cidade para onde iam, até já encontraram alguns dos seus habitantes, porque vinham passear no país que se achava tão vizinho do céu; ali se renovaram as promessas entre o Esposo e a Esposa, assim folga Deus com o seu povo. (Isaías 62:5). Não lhes faltava paão, nem vinho; tiveram em abundância tudo que com ânsia procuraram na viagem. Ouviam também vozes,
altas vozes que partiam da cidade, dizendo: – Eis aí vem o teu Salvador; eis aí a sua recompensa com Ele. Os habitantes do país chamaram-os o povo santo, os remidos pelo Senhor, buscados, e não desamparados. (Isaías 62:11-12)
Sentiram, pois, caminhando naquele país, alegrias maiores que tiveram nos lugares mais remotos do reino; e à poroporção que se aproximavam da cidade, mais perfeitamente a viam. As muralhas dela são feitas depedras preciosas, as ruas são calçadas de ouro, e a sua glória é tão grande, que o reflexo do sol, brilhando sobre os seus edifícios, fez com que Cristão adoecesse de desejos de entrar. Esperançoso teve também alguns ataques da mesma moléstia. Lá, pois, se demoraram, e no meio das suas dores, ouvi Cristão dizer: – Se encontrardes a meu Bem amado, fazei-o saber que estou enfermo de amor. (Cânticos 5:8)
Depois de haver tomado um pouco de repouso e de força, eles continuaram seu caminho, aproximando-se cada dia mais da cidade; e lá acharam vinhas, pomares e jardins; as suas portas estavam abertas, e quando os dois viajantes passavam, o jardineiro estando perto, perguntaram-lhe a quem pertenciam essas boas vinhas e deliciosos jardins. “Pertencem ao Rei,” respondeu-lhes ele, e são plantados aqui para seu receio, e para referesco dos viajantes.” Então convidou-os a entrar nas vinhas, e refrescar-se com as delícias. Mostrou-lhes também os passeios do Rei, e as cabanas rústicas em que Ele gosta de descansar. Lá também se demoraram e passaram algum tempo.
Percebi em meu sonho que ali falaram, durante o sono, mais que em qualquer outro lugar na viagem; e como eu
me admirasse, o jardineiro disse-me: Por que vos admirais? É da natureza destas uvas; elas fazem falar até os que dormem.
Tornaram a caminhar outra vez, e o brilho da cidade se fez cada vez mais glorioso, de maneira que já não podiam olhá-la com os olhos descobertos, pois era toda de ouro, e o reflexo dos raios do sol o fazia como o mesmo sol, e precisavam de usar de um instrumento feito de propósito para poderem vê-la.
Como eles continuassem a andar, econtraram dois homens, cujos vestidos eram brancos como a neve, e os seus rostos brilhavam como a luz. Estes perguntaram a nossos viajantes donde vieram, que desgostos e que consolações haviam encontrado no caminho, e que dificuldades e perigos; e lhos contaram. Então os homens de branco lhes avisaram que ainda tinham duas dificuldades a vencer, e que depois entrariam na cidade.
Cristão pediu-lhes que os acompanhassem. Responderam que sim; mas que, contudo, era por sua própria fé que haviam de vencer. Assim andaram juntos até que estavam já bem perto da porta.
Ora, entre eles e a porta havia um grande rio: não havia ponte, e o rio era muito fundo. A vista daquele rio os viajantes ficaram muito abalados; mas os outros que andavam com eles lhes disseram que para chegar a porta era indispensável passar o rio. Perguntaram se não havia outro caminho que lá chegasse. Responderam que sim, mas que desde o princípio do mundo só dois homens entraram por ele: que estes eram Enoque e Elias, e que mais ninguém poderá entrar por ele enquanto não tocar a trombeta do juízo final. A estas palavras o coração começou a tremer aos viajantes, especialamente a Cristão,
e puseram-se a olhar de um e do outro lado, mas não acharam meios para escapar a passagem. Então perguntaram aos homens se a profundidade do rio era a mesma em todos os lugares. Disseram que não. Mas que não lhes podiam valer a esse respeito; porque, continuaram, vós o achareis mais ou menos profundo, segundo a fé que tiverdes no Rei.
Então entraram na água, e Cristão ia se submergindo; gritou, pois, a seu bom amigo: “Afundo-me na ságuas profndas. Todas as ondas passam por cima da minha cabeça, as vagas me cobrem.”
Respondeu-lhe o outro, tomai ânimo, meu irmão, eu acho o fundo e é bom.
CRISTÃO. – Aide mim! As agonias da morte me cercam. Não hei de ver o belo país.
Ao proferir estas palavras, foi assaltado de um grande terror, e lhe sobrevieram trevas tão espessas que nada via à roda. Seu espírito foi tão perturbado, que não podia pensar, nem dizer coisa alguma com acerto, nem se quer lembrar-se das consolações que encontrara na viagem. Tudo quanto disse, deu a entender a perturbação, e temor que tinha de que morresse no rio, e nunca chegasse à porta. Aqueles que estavam presentes perceberam que seus pecados muito o afligiram, tanto os que cometera antes, como os que cometera depois de principiar a sua viagem.
Se viu também que foi turbado com visões de espíritos malignos, e de demônios, pois suas palavras entrecortadas indicaram-o.
Lá, pois, custou muito ao Esperançoso suster a cabeça de seu irmão. De vez em quando até parecia ir embaixo das águas, e depois veio à superfície, mais morto que vivo. No entanto Esperançoso não deixou de esforçar-vos de consolá-lo, dizendo: “Meu irmão, estou vendo a porta e lá estão pessoas que nos esperam; e se dispões a receber-nos.” Ah, “respondeu Cristão”, é a vós que eles esperam; pois vós tendes sido sempre Esperançoso desde que vos conheço.” “E vós também,” disse Esperançoso. “Ah, meu irmão,” tornou Cristão, “se eu fosse justo diante de Deus, viria valer-me agora: por meus pecados me trouxe aqui, e me deixa sem socorro.”
“Meu irmão, (disse Esperançoso), vós tendes esquecido o que está escrito dos ímpios: – Não são turbardos, nem aflitos como outros homens. – As aflições e agonias que vós agora sofreis nestas águas, não têm sinal algum de que Deus vos tivesse abandonado; são para provar a vossa fé, e para ver se vos lembrareis da bondade do Senhor e confiareis nela ainda neste aperto.”
Cristão ficou calado um pouco, e seu semblante mostrou que se lembrava de alguma coisa e pensava cuidadosamente. Então lhe disse Esperançoso: “Coragem, meu caro irmão! O Senhor Jesus Cristo te sara.” Gritou Cristão de rijo: “Ah! Agora torno a vê-lo e ouço a sua voz! Me diz: – Ainda que passares pelas águas Eu serei contigo, e os rios não te submergirão (Isaías 43:2).” Ambos, pois, tomaram ânimo e os inimigos não os incomodaram mais. Cristão logo achou fundo para firmar-se, e quanto mais andaram menos profundo acharam o rio; assim passaram.
Sobre a margem do rio, do outro lado, viram os dois homens brilhantes que os tinham acompanhado e que os
esperavam. Receberam-os bcom muito amor, e saudáramos dizendo: “Nós somos espíritos administradores enviados para servir os herdeiros da salvação (Hebreus 1:14).” E juntos começaram a caminhar para a porta.
Ora, é de notar que a cidade está no cume de uma montanha muitíssimo alta, além de todas as nuvens; mas nada custou aos viajantes subir, porque os dois homens ajudaram-os, e além disto já não tinham os vestidos pesados da mortalidade; os deixaram no rio. Subiram, pois, com muita rapidez e facilidade além dos limites dos ares, cheios de alegria por terem passado aquele rio, e se acharem emtão boa companhia.
CAPÍTULO XXXV
A entrada nos céus
Cristão e Esperançoso falaram com os dois homens brilhantes a respeito da glória do lugar para onde iam, e estes lhes disseram que sua beleza e glória são inefáveis. Lá, disseram, está o Monte Sião, a Jerusalém Celestial, o congresso de muitos milhares de anjos, e dos espíritos dos justos aperfeiçoados. Agora, acrescentaram eles, vós ides entrar no paraíso de Deus, onde vereis a árvore da vida; e comereis dos seus frutos incorruptíveis. Vós aí sereis revestidos com hábitos resplandecentes, andareis e falareis com o Rei todos os dias; sim, até todos os dias da eternidade. Nunca mais vereis coisas tais como vistes na terra, a saber: aflições, doenças, tristeza e morte, nem a
raiz donde elas todas nasceram, que é o pecado; porque as primeiras coisas já passaram. Agora vós ides ter com Abraão, Isaque e Jacó, com os profetas e apóstolos, homens que Deus tirou de todo o mal que tem de cair sobre o mundo.
Os viajantes perguntaram: Que faremos nós, pois, naquele santo lugar? Vós aí recebereis, responderam eles, a recompensa de todos os vossos trabalhos. Lá colhereis o fruto do que semeastes, isto é, das vossas orações; lágrimas, tristezas e sofrimentos no caminho por causa do Rei. Lá tereis coroas de ouro, e vos regozijareis para sempre na presença do Senhor dos Santos, e sereis semelhantes a Ele, porquanto O vereis bem como Ele é. (1 S. João 3:2). Lá também servireis com louvores, com cânticos, com alegria e gratidão Aquele que no mundo servistes com muita custa, com dores e gemidos causados pela fraqueza da carne. Lá vossos olhos se regozijarão de ver o Todo-Poderoso, e vossos ouvidos de ouvir a sua voz. Lá achareis os amigos que entraram na cidade antes de vós; e recebereis com júbilo aqueles que vos seguirem; e quando o rei da glória vier ao som da trombeta, sobre as nuvens, haveis de vir em glória e em majestade com ele. Quando se assenta sobre o trono de juízo, vos sentareis com Ele, como acessores da Sua pessoa. Sim, quando Ele proferir o julgamento contra os peversos, quer sejam homens, quer sejam anjos, vós também dareis contra eles os vossos sufrágios, porque são seus e vossos inimigos. Quando Ele voltar para a cidade em triunfo, vós haveis de acompanhá-lo, e estareis eternamente com Ele.
Enquanto assim falavam, chegaram quase à porta, e lhes saiu ao encontro uma companhia do exército celeste. Então, os dois que com eles vinha, apregoaram dizendo: “Estes são homens que amavam nosso Senhor quando
estavam no mundo, e largaram tudo por amor do Seu santo nome; Ele nos enviou para trazê-los até aqui, e os trouxemos para eles entrarem e verem, face a face, seu Redentor com transportes de alegria.
Então o exército do céu deu um grande brado de triunfo, dizendo: “Bem-aventurados são aqueles que foram chamados à ceia das bodas do coredeiro.” (Apocalipse 19:9). Depois disto alguns dos músicos do Rei lhes vieram também ao encontro, todos vestidos de roupas brancas e brilhantes, e fazendo retiniur o céu com as altas e lindas vozes dos seus instrumentos. Estes saudaram Cristão e Esperançoso, dizendo-lhes: “Sede bem-vindos, e dez mil vezes bem-vindos do mundo, fieis vencedores.” Então os rodearam por todas as partes: uns marchando adiante, outros aos lados, e outros atrás, como se fossem suas guardas de honra, e sempre a tocar seus belos instrumentos, e cantar hinos de alegria e cânticos de triunfo. Era lindíssima vista; podia-se imaginar que o céu mesmo viera recebê-los. Eles assim caminharam; os semblantes risonhos e os gestos em cada lado mostrando quanto era agradável aos habitantes do céu a sua chegada, e com que alegria os recebiam. No meio de tanta glória e alegria, pareciam estar no céu já, enquanto não chegaram à porta. Não se pode contar o que sentiram quando olharam àquela cidade, e ouviram todos os sinos do céu soar, a dizer-lhes: Bem-vindos; e pensaram que lá eles mesmos haviam de ter sua morada, e com essa companhia, por toda a eternidade. 
Chegados à porta leram a inscrição sobre ela em letras de ouro: 

BEM- AVENTURADOS AQUELES QUE LAVARAM AS SUAS VESTIDURAS NO SANGUE DO CORDEIRO, E GUARDAM OS SEUS PRECEITOS; PARA TEREM PARTE NA ÁRVORE
DA VIDA, E PARA ENTRAREM NA CIDADE PELAS PORTAS.
Vi, pois, em meu sonho, que os mensageiros celestes lhes ordenaram que batessem à porta, fizeram-o, e algumas pessoas olharam por cima da muralha, a saber: Enoque, Moisés, Elias e outros, aos quais foi dito que estes homens vieram da Cidade de Corrupção, pelo amor que tiveram ao Rei. Então os viajantes entregaram os passaportes, foram imediatamente levá-los ao Rei, e quando Ele os tinha lido, perguntou logo: – Aonde estão estes homens? Responderam que ainda estavam à porta. Imediatamente mandou o Rei abrir a porta, para que, disse ele, entre a gente justa que observa a verdade 
(Isaías 26:2) 
Entraram, pois, na cidade, e no mesmo instante foram transfigurados e vestidos com roupas que resplandeceram como o ouro. 

Trouxeram-lhes também harpas e coroas de ouro; todos os sinos da cidade outra vez repicaram alegremente, e lhes foi dito: 
ENTRAI NO GOZO DE VOSSO SENHOR. (a) 
Ouvi os homens mesmos cantarem então com alta voz, dizendo: 
AO QUE ESTÁ ASSENTADO NO TRONO E AO CORDEIRO, BÊNÇÃO E HONRA – E GLÓRIA E PODER POS SÉCULOS DE SÉCULOS. (b) 
Quando se abriram as portas para deixar entrar estes homens, olhei para dentro e vi que toda a cidade brilhava como o sol. As ruas eram calçadas de ouro e nelas andavam muitas pessoas que tinham coroas de ouro na cabeça com palmas nas mãos, e harpas de ouro com que entoarem os cânticos do céu. Havia também pessoas com asas que clamavam sem cessar: “Santo, santo, santo Senhor Deus de Exércitos, cheia está toda a terra da sua glória.” (Isaías 6:3) 
CONCLUSÃO 
O fim da ignorância das coisas divinas é a perdição da alma. 
Depois de ter olhado todas estas coisas com atenção, eu virei a cabeça e vi Ignorância a chegar na beira do rio. Ele o passoi prontamente, sem encontrar a metade da dificuldade que os outros acharam; porque naquela ocasião havia lá um barqueiro que se chama Esperança-vã, que ajudou-o a passar em seu batel. Ele também principiou a subir o monte para chegar à porta, mas ia só; não havia quem viesse ajudar ou animá-lo. 
Chegaram à porta, leu a inscrição em cima e se pôs a bater julgando que se lhe abrisse imediatamente. Mas, quando os homens olharam de cima da porta e perguntaram: “De onde vindes e o que quereis?” Ele respondeu: “Tenho comido e bebido na presença do Rei, e Ele ensinou em nossas ruas.” (S. Lucas 18:26). Perguntou-se-lhe logo pelo seu passaporte para o mostar ao Rei: ele todo confuso meteu a mão no seio em procura de um, mas nenhum achou... 

Disseram-lhe: – Não tendes passaporte? 
Mas ele ficou calado. Foram dizer ao Rei, que não quis, nem se quer vê-lo, mas mandou os homens brilhantes que vieram com Cristão e Esperançoso à cidade, ir ter com Ignorância, ligar-lhe as mãos e os pés, e lança-lo nas trevas. Eles prenderam-o, ataram-o e lavaram-o através dos ares, à porta que os pastores mostraram aos viajantes no lado do monte, e o lançaram dentro. 
Vi, pois, que há um caminho ao inferno até das portas do céu, também como da Cidade d Corrupção. 
Então acordei e achei que era um sonho. 
FIM.
_________________
(a) S. Mateus 25:21
(b) Apocalipse 5:13

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