segunda-feira, 5 de outubro de 2015

MÊS DA REFORMA PROTESTANTE: MARCAS DA FÉ EVANGÉLICA NO BRASIL - DIA 05




FIDELIDADE DE UM JOVEM COLPORTOR

“Uma tarde”, disse ele, “eu estava sentado à porta de minha casa, refrescando-me depois do cansaço de um dia de labor num calor estafante. Um moço se aproximou, trazendo consigo maleta nos ombros e que parecia muito pesada. Ele mostrava-se cansado e faminto, e, com muita humildade me pediu pousada para aquela noite.

Imediatamente, disse-lhe que era bem-vindo, que podia arriar a mala que trazia e que estava em casa. Mas o jovem aproximou-se mais e disse:

– Antes que eu aceite a boa dádiva quero dizer-lhe que tenho feito este mesmo pedido a alguns dos seus vizinhos, e todos se recusaram a me dar hospedagem. Alguns deles até me ameaçaram, açulando os seus cães.

Perplexo, perguntei-lhe:

– Qual o seu crime?

[...].

O rapaz respondeu-me com toda sinceridade:

– Eu não sou criminoso, mas sou protestante, e por esta causa tem-me sido negada hospedagem. Percebi imediatamente a dificuldade, e arrependi-me de ter aberto as portas ao visitante, porque também fui advertido a não dar qualquer guarida a um protestante: a não recebê-lo em casa, nem mesmo dar-lhe um copo d’água para matar-lhe a sede! Eu gostava de cumprir minha palavra e, olhando para o hóspede e sabendo que não havia outro morador perto, compadecei-me do rapaz e disse-lhe:

– Muito bem, não volto atrás com a minha palavra, o senhor pode ficar por aí e dormir no celeiro, mas amanhã de manhã, antes de o sol raiar, o senhor se retire muito caladinho, que ninguém o veja. Que ninguém saiba que eu dei hospedagem a um protestante e o diga ao padre!

O jovem agradeceu-me humildemente e, achando um canto em um dos muitos celeiros pegados à casa, ocultou-se, ou melhor “escondeu-se”. Na hora do jantar, porém, enquanto eu tomava o meu cafezinho quente, lembrei-me do rosto esfomeado e do cansaço do pobre viajante que acolhera sob meu teto. Pensei que talvez o rapaz não tivesse comido nada naquele dia, e disse a um dos meus filhos para levá-lo à cozinha e dar-lha uma xícara de café. O jovem aceitou e apreciou imensamente o cafezinho com beijus. Voltando-se para mim, disse:

– Eu agradeço muito sua bondade e gostaria de demonstrar-lhe a minha gratidão por tudo que me tem feito, porque de fato o senhor me salvou a vida; mas sou tão pobre e nada posso fazer. Em todo caso, se o senhor não leva a mal, eu faço uma oração ao nosso Pai do Céu, que é Todo-Poderoso, para abençoá-lo e recompensá-lo pelo que me fez.

O poder da oração

O velho não entendeu o que o rapaz disse, mas, curioso para saber o que seria, deu-lhe permissão para fazer o que desejava. O colportor ajoelhou-se então e, levantando os seus olhos e mãos ao céu, pediu as bênçãos de Deus sobre o homem, sobre os seus queridos e para todos os vizinhos e amigos. Toda vez que o fazendeiro contava esta história, não continha as lágrimas. Nunca tinha ouvido um homem orar. [...]. 

O colportor voltou ao seu aposento para dormir, e o fazendeiro recolheu-se também aos seus, mas não pode conciliar o sono. Aquela oração penetrou-lhe o coração e fê-lo abismado. Além de tudo, o protestante tinha alguma coisa com que ele nunca sonhara. Cedinho, antes de o sol sair, ele pôs-se de espreita para ver o colportor sair. Quando, finalmente, o jovem apareceu, pronto para viajar, o fazendeiro o chamou à sala de jantar para tomar um cafezinho antes de ir-se. Logo que ele tomou o café, o fazendeiro pediu-lhe que lhe ensinasse aquela oração da noite passada. O colportor disse-lhe que não tinha oração impressa, mas que orava espontaneamente, exatamente como um filho pede ao pai o de que necessita.

– Bem – disse o fazendeiro – então faça o favor de orar outra vez e peça ao nosso Pai Celeste que me abençoe e a todos os meus.

O colportor prontamente atendeu ao pedido. Na presença de todos, ajoelhou-se, fez uma oração comovente, pedindo a Deus que o abençoasse e abrisse os olhos de todos os presentes, para verem a verdade como está em Jesus. Quando terminou, quase todos estavam com os olhos rasos de lágrimas, e o velho pediu-lhe que escrevesse aquela oração para que ele a aprendesse de cor.
Mas o colportor disse-lhe que tinha coisa melhor para ele, e era um livro que lhe ensinaria como falar com o seu Pai do Céu; e deu-lhe aquela pequena Bíblia, marcando muitos capítulos para ele ler. Logo que se apoderou do livro, começou a lê-lo, primeiro os trechos marcados pelo colportor, depois leu-o todo de capa a capa. Primeiro leu-o sozinho, depois perante a mulher e os filhos. Então eu cheguei àquela fazenda e depois de passar algumas semanas ensinando, pregando e batizando, organizei uma igreja com mais de cinquenta crentes! Oh! o zelo daqueles conversos! Havia uma menina de doze a treze anos de idade que caminhava três, cinco e até dez léguas para convidar algum amigo ou parente para as reuniões. Hoje temos naquele distrito uma série de igrejas, sustentando-se a si mesmas, centros espirituais e de poder, para honra e glória de Deus. 

UM JUDEU ERRANTE NO BRASIL.
SALOMÃO GINSBURG.
JUERP (CASA PUBLICADORA BATISTA).
RIO DE JANEIRO-RJ. 2ª ed., 1970, p. 103-106.

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