quarta-feira, 7 de outubro de 2015

MÊS DA REFORMA PROTESTANTE: MARCAS DA FÉ EVANGÉLICA NO BRASIL - DIA 07




Os sons de pés meio arrastados, vozes abafadas, uma risadinha nervosa aqui, um psiu mais alto ali se aproximavam lenta mas inexoravelmente pela rua mal iluminada. A escuridão da noite abafada desabara sobre a casa e pesava sobre as pessoas reunidas na sala. Era o último dia de 1927.

A mesinha disposta entre a porta de entrada e a grande janela que dava para a varanda servia de apoio a um livro de capa preta. Ao lado dela, em pé, ereto, um senhor de cabelos ondulados e farto bigode corria os olhos pelo aposento como que alheio ao ruído surdo de passos no lado de fora.

Sentado ali perto, um homem moreno, os cabelos muito lisos penteados para trás, procurou com os olhos a face da esposa, que se encontrava do outro lado da sala, mas olhava pela janela aberta por onde entrava o barulho da rua. De repente, ela fitou o marido, uma expressão perplexa e magoada no olhar. Ele quase podia ler-lhe os pensamentos: “Por que? Por que, Augusto? São os nossos amigos aí fora!”

Wanda, a senhora ainda jovem, de expressivos olhos castanhos, a custo mantinha-se sentada agora que as vozes eram quase inteligíveis. Reconhecia o som de vozes infantis. Provavelmente alguns dos seus alunos estariam no meio do grupo...talvez os pais...talvez até professoras. Como saber?

Com um sobressalto, ela viu o pregador apanhar o livro da mesinha e dirigir-se à janela por onde entrava o barulho. Um ajuntamento amorfo de crianças e adultos chegara à frente da casa e permanecia ali, hesitante, sem saber o que fazer.

A voz sonora, levemente anasalada do pregador ressoou pelo aposento de modo a ser claramente ouvida no lado de fora. “Vamos ler agora a Palavra de Deus.” As mãos seguravam com firmeza o livro; não tremiam. A expressão serena que ele trazia no rosto e o tom tranquilo com que começou a ler foram como um bálsamo suave derramado sobre os ouvintes atentos, e agora meio apavorados.

Aos poucos, fez-se grande silêncio na rua.

“Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todos os dias; fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Pois estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.”

O pregador fechou o livro, e fitando as pessoas que o ouviam, falou:

– É esse Jesus, o Filho Unigênito de Deus, que vocês escolheram seguir. Ele já nos avisou que, por causa Dele, enfrentaremos muitas dificuldades, que já estão começando. Por isso o que está acontecendo não é inesperado. Mas Ele disse também que não devemos desanimar, pois Ele venceu o mundo. E sabemos que nada, nada neste mundo pode nos separar do amor de Deus que temos em Seu Filho.

Dificuldades, sim. Mas nada que o fato de eu ter finalmente encontrado meu Pai não compense. Já não sou mais órfã, pensou Wanda, sentindo-se inundada por um senso de segurança e paz.
O pregador voltou-se agora, e fitando a jovem senhora diretamente, falou:

–Temos hoje três pessoas que desejam declarar publicamente que Jesus é o seu Salvador e seu Senhor. São três gerações de mulheres de fé: Dona Mila, Dona Wanda e Dirce.

A um sinal, levantaram-se três mulheres: Maria Emília, os cabelos já prateados, o rosto sulcado por rugas, a expressão séria; Wanda, a pesada cabeleira castanho-acobreada na qual reluziam uns poucos fios brancos, o semblante tranquilo, os olhos brilhantes; Dirce, mocinha de cabelos ondulados e grandes olhos castanho-esverdeados, muito emocionada ao lado da mãe e da avó. As três se colocaram diante do pregador e, respondendo às suas perguntas, afirmaram crer em Deus, em Jesus como seu Salvador e Senhor e no Espírito Santo de Deus, que habitava agora em seus corações. Enquanto curvava a cabeça e fechava os olhos para a oração final, Wanda elevou fervorosamente ao trono de Deus todos os presentes, pedindo que Deus lhes desse forças para viver sua fé ali, na pequena cidade de Pereiras.

Quando cessaram as palavras da oração, ouviu-se o som de uma pedra caindo sobre a calçada, solta pela mão que a segurava; depois outra, e mais outra. Não haveria o gesto agressivo que era esperado naquela noite. O pequeno monte que ficou para trás quando as pessoas se dispersaram era um monumento da ineficácia da estratégia paroquial para evitar que o movimento evangelístico se espalhasse. Logo voltou a reinar silêncio absoluto na rua. Uma poderosa prece de gratidão e louvor elevou-se dos corações presentes rumo aos céus. Com fervor especial, do coração de Wanda.

Pai, como Te sou grata pelo Teu obstinado amor, que não me abandonou durante todos estes anos em que Te procurei sem Te conhecer, em que fiz tantas coisas pensando Te agradar e merecer o Teu amor. Obrigada, querido Pai, porque agora sei que tu me amas e me deste a salvação em Teu Filho Jesus. Em nome Dele é que tudo Te agradeço. Amém.

À SOMBRA DE SUAS ASAS.
WANDA DE ASSUMPÇÃO.

Nenhum comentário:

Postar um comentário