domingo, 16 de outubro de 2016

HISTÓRIA DA REFORMA - Jean Henri Merle D’Aubigné (1794-1872)




HISTÓRIA DA REFORMA
POR
 J. H. Merle D’Aubigné

(TRADUÇÃO)
PRIMEIRAS REFORMAS 1521-1522

CAPÍTULO I
Progresso da Reforma – Um novo período – Utilidade do Cativeiro de Lutero em Wattburg – Agitação na Alemanha – Melanchton e Lutero – Entusiasmo
    O povo não vendo mudança alguma em suas devoções ordinárias, entregou-se sem o menor temor a seu novo mestre.
    O povo admirava-se mesmo dos ataques contra um homem que ainda lhe deixava sua missa, seu rosário e seu confessor, e os atribuía à inveja mesquinha de rivais obscuros, ou à cruel injustiça de poderosos adversários. No entanto, as ideias de Lutero agitavam os entendimentos, renovavam os corações, e minavam de tal sorte o antigo edifício, que em pouco tempo este caiu por terra sem intervenção de mão humana. As ideias não atuam instantaneamente; operam em silêncio, como as águas que se filtram por trás das rochas dos Alpes até desprendê-las das montanhas em que repousam: repentinamente manifesta-se a sua obra secreta, e um único dia é suficiente para manifestar a agência de muitos anos, e talvez de muitos séculos.
Começava uma nova era para a Reforma. Já a verdade estava restabelecida na doutrina, e a doutrina estava prestes a restabelecer a verdade em todas as formas da Igreja e da sociedade. A agitação é demasiadamente grande para que os entendimentos dos homens permaneçam fixos e imóveis no ponto já por eles atingido. Sobre esses dogmas, então tão vigorosamente abalados, passeavam-se costumes que já ameaçavam cair por terra, e que deviam desaparecer com eles. A nova geração tem demasiada coragem e vida – não pode continuar silenciosa diante do erro. Os sacramentos, o culto público, a hierarquia eclesiástica, os votos monásticos, a constituição da Igreja, a vida doméstica e pública – tudo está prestes a modificar-se. O navio lenta e cuidadosamente construído vai deixar por fim o porto e ser lançado sobre o vasto mar aberto e seguiremos sua marcha através de muitos escolhos.
      O cativeiro de Wartburg separa estes dois períodos.
     A providência que se estava dispondo para dar tão grande impulso à Reforma, tinha preparado o seu progresso conduzindo a um profundo retiro o instrumento destinado a efetuá-la. Durante algum tempo parecia que a obra tinha sido sepultada juntamente com o obreiro; mas a semente deve ser lançada na terra, a fim de que produza fruto; e desta prisão, que parecia ser o túmulo reformador, a Reforma estava destinada a sair para fazer novas conquistas, e espalhar-se pela face de todo o mundo.
     Até ali a Reforma tinha estado concentrada na pessoa de Lutero. O dia de seu comparecimento ante a dieta de Wormes foi sem dúvida o mais sublime de sua vida. Seu caráter parecia então quase imaculado; e é isto que tem dado lugar a dizer-se, que, se Deus que ocultou o reformador por espaço de dez meses dentro dos muros de Wartburg, o tivesse feito desaparecer naquele instante aos olhos do mundo, o seu fim terei sido uma apoteose. Mas Deus não designava apoteoses para seus servos; e Lutero foi preservado para a Igreja, a fim de ensinar, por sua mesmas faltas, que a fé dos Cristãos deve basear-se na Palavra de Deus somente. Ele foi transportado repentinamente para longe da cena em que teve lugar a grande revolução do século décimo sexto; a verdade que durante quatro anos ele tinha proclamado com tanto vigor, continuou durante sua ausência a agir sobre o Cristianismo: e a obra, de que ele era apenas o débil instrumento, apresentou dali em diante, não o selo do homem, mas o do mesmo Deus.
A Alemanha estava comovida pelo cativeiro de Lutero. Os boatos mais contraditórios a este respeito circulavam pelas províncias. A ausência do reformador excitava mais os espíritos do que a sua presença. Aqui, dizia-se que amigos da França o tinham posto em segurança do outro lado do Reno; (*) ali, que ele tinha sucumbido sob o punhal do assassino. Até nas povoações mais pequenas o povo perguntava por Lutero, interrogava aos viajantes, e se reunia em grupos nos lugares públicos. Às vezes algum orador desconhecido narrava com animação como o doutor tinha sido levado, descrevia os cruéis cavaleiros  ligando as mãos do preso, esporeando os cavalos, e fazendo-lo caminhar a pé adiante de si até desfalecer, cerrando os ouvidos a seus gritos, e fazendo que seus membros vertessem sangue. (**)
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(*) Hic... invalescit opinio, meesse ab amicis captum e Francia missis. L. Epp. II.5
(**) Et inter festinantes cursu éqüites ipsum pedestrem raptim tractum fuisse ut sanguis e digitis erumpers. Cochlaus, p. 39
– O cadáver de Lutero, ajuntava ele, foi visto traspassado de lado a lado. (*) Ao ouvir estas palavras o povo soltava gemidos de tristeza. “Ah!” diziam alguns, “nunca mais veremos nem ouviremos esse homem generoso, cuja voz penetrava até nossos corações!” Os amigos de Lutero tremiam de indignação, e juravam vingar de sua morte. As mulheres, as crianças, os homens pacíficos e os anciãos, previam com temor a aproximação de novas lutas. Nada podia igualar o terror dos partidários de Roma. Os padres e os frades que a princípio não tinham podido ocultar a sua alegria, julgando-se certos da vitória por causa da morte de um homem, e que tinham levantado a cabeça com ar de insultante triunfo, desejariam então ter fugido para longe da ira ameaçadora do povo.
(4) Esses homens que enquanto Lutero estava livre tinham dado largas a sua fúria, temiam então que ele estava cativo.
Aleander, especialmente, estava consternado. “O único meio que resta de salvar-nos, escrevia um católico romano ao arcebispo de Mayença é acender tochas e procurar Lutero por todo o mundo, para entregá-lo à nação que o está reclamando.” (7) Dir-se-ia que a sombra do Reformador, arrastando cadeias espalhava por toda a parte o terror, e clamava por vingança.
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(5) Fuit qui testatus sit, visum a se Lutheri transfossum...
Pallavicini, Hist. Cons. Frid, i. 122
(6) Molem vulgi imminentis ferre non possunt.
L. Epp. II.13.

IMPRENSA EVANGELICA.VOL. XXIII, Nº 3.
S. Paulo, 15 de Janeiro de 1887, p.18.

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