segunda-feira, 17 de outubro de 2016

HISTÓRIA DA REFORMA - Jean Henri Merle D’Aubigné (1794-1872)




“A morte de Lutero, diziam alguns fará correr torrentes de sangue.” (I)

Em parte alguma estavam os espíritos mais agitados do que em Wormes.

Queixumes enérgicos se faziam ouvir tanto entre o povo como entre os príncipes. Ulrich, Hutten e Hermann Busch enchiam o país de queixumes e gritos de guerra. Carlos V, e os núncios eram acusados publicamente. A nação, esposava a causa do pobre frade, que pela força de sua fé se havia tornado seu chefe.
Em Wurtemberg, seus colegas e amigos, e especialmente Melanchton, ficaram a princípio oprimidos de profunda dor. Lutero tinha transmitido a este jovem sábio os tesouros dessa sagrada teologia que desde esse tempo ocupava seu entendimento. Lutero havia dado substância e vida àquela cultura puramente intelectual que Melanchton tinha levado para Wurtemberg. A profundidade da doutrina do reformador tinha tocado o jovem helenista, e a coragem do doutor na sustentação dos direitos da Palavra eterna contra todas as autoridades humanas o havia enchido de entusiasmo. Ele se lhe havia associado na obra; tinha empunhado a pena, e com aquela pureza de estilo que ele possuía pelo estudo da antiguidade sucessivamente e com mão vigorosa havia abatido a autoridade dos padres e dos concílios ante a soberana Palavra de Deus.
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(I) Gerbelii Epp. In M. s Heokelianis. Lindner, Leb. Luth. p. 244.
Melanchton mostrava na ciência a mesma decisão que Lutero mostrava na vida. Jamais se tem visto dois homens de maior diversidade e ao meso tempo de maior unidade.
“A Escritura, dizia Melanchton, transmite à alma uma delícia santa e maravilhosa: ela é uma ambrosia celestial.” (3)
“A Palavra de Deus, exclamava Lutero, é uma espada, uma guerra, uma destruição; ela cai sobre os filhos de Efraim como uma leva da floresta.”
Assim, um via na Escritura um poder para consolar, e outro uma oposição violenta contra as corrupções do mundo.
Assim, um via na Escritura um poder para consolar, e outro uma oposição violenta contra as corrupções do mundo. Mas ambos a estimavam como o que havia de melhor sobre a terra, e assim eles se entendiam perfeitamente. “Melanchton, dizia Lutero, é uma maravilha; não há agora quem o negue. Ele é o inimigo mais formidável de Satanás e dos escolásticos, porque ele bem conhece suas loucuras e sabe que Cristo é a rocha. Este pequeno grego me excede mesmo em teologia: ele vos será de tanta utilidade como muitos Lutero.” E ele acrescentava que estava pronto a abandonar qualquer opinião com Philippe não concordasse.
Por sua parte também, Melanchton cheio de admiração pelo conhecimento que Lutero tinha da Escritura, o colocava muito acima dos padres da Igreja. Ele o desculpava das chocarrices de que o acusavam, e o comparava a um vaso de barro que encerra em seu grosseiro exterior um tesouro precioso. Guarda-me-ei bem de o censurar por isso inconsideradamente,” dizia ele. (3)
Mal então, essas duas almas tão intimamente unidos, estavam separadas. Esses dois valentes soldados não podiam mais marchar lado a lado ao livramento da Igreja. Lutero havia desaparecido, e talvez estivesse perdido para sempre. A consternação em Wurtemberg era extrema: dir-se-ia um exército desanimado e abatido diante do cadáver sanguinolento do general que o conduzia à vitória.
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(2) Mirabilis in iis voluptas,  imno ambrosia quadum caelestis. Corp. Ref. i. 128
(3) Spirritum Martini nolim temere in ha causa interpelare. Jbid. i 211.

Repentinamente, porém, chegaram notícias mais consoladoras. “Nosso caríssimo pai vive (4) exclamou Phillipe com toda a efusão de sua alma, revesti-vos de coragem e sede firmes.”
Mas não se passou muito tempo sem que de novo voltasse a consternação. Lutero vivia, mas estava preso. O Edito de Wormes, com suas terríveis prescrições, (5) circulavam em milhares de exemplares por todo o império, e até pelas montanhas de Tyrol. (6) Não seria a Reforma esmagada pela mão de ferro que sobre ela pesava? A alma sensível de Melanchton esta oprimida de tristezas.
“Mas uma mão mais poderosa que a dois homens fez sentir sua influência: o mesmo Deus privou o formidável edito de toda a força. Os princípios alemães que sempre haviam procurado abater no império o poder da Roma, tremiam ao ver a aliança entre o imperador e o papa, temendo que esta aliança terminasse na destruição de sua liberdade. Por isso, ao passo que o imperador, em sua jornada através dos Países Baixos, saudava com irônico sorriso às fogueiras que alguns aduladores e fanáticos acendiam nos lugares públicos com as obras de Lutero, estes mesmos escritos eram lidos na Alemanha com contínua e crescente avidez, e numerosos panfletos favorecendo a Reforma infligiam diariamente novos golpes contra o papado. Os núncios envergonhavam-se de ver que este edito, fruto de tantas intrigas, produzia tão pequeno efeito. “Ainda não esta seca a tinta com que Carlos V assinou o seu aresto, diziam eles amargamente, e já em toda a parte o decreto imperial está feito em pedaços.” O povo amava cada vez mais ao homem que, sem fazer caso das ameaças de Carlos e do papa, tinha confessado sua fé com a coragem de mártir. “Ele prometeu retratar-se se o refutassem, dizia ou povo, mas ninguém ousou opor-se-lhe. Não prova isto bem a verdade de suas doutrinas?”Assim o primeiro movimento de alarma foi seguindo em Wurttemberg e em todo o império por um movimento de entusiasmo. O mesmo arcebispo de Mayença, testemunhando esta manifestação da simpatia popular, não ousou dar permissão aos franciscanos para pregarem contra o reformador. A universidade que parecia a ponto de ser esmagada, levantou a cabeça. As novas doutrinas estavam tão firmemente estabelecidas, que a ausência de Lutero não as abalava; e as salas da academia dificilmente podiam conter a multidão de ouvintes. (7)
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(4) Pater noster carissimus vivit. Corp. Ref. i. 389
(5) Di ritur proscriptio horrenda. Ibid.
(6) Dicuntur signatae chartae proscriptionis bis
Mille missae quoque ad Insbruck. Ibid.
(7) Scholastici quorum supra millia ibi tune fuerunt.
Spalatini Annales, 1521, October.

IMPRENSA EVANGELICA.VOL. XXIII, Nº 4.
S. Paulo, 22 de Janeiro de 1887, p.26.

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