terça-feira, 18 de outubro de 2016

HISTÓRIA DA REFORMA - Jean Henri Merle D’Aubigné (1794-1872)




Entretanto o cavalheiro Jorge, tal era o nome de Lutero em Wartburgo, vivia solitário e desconhecido. “Se me vísseis, escrevia ele a Melanchton, tomar-me-eis por um soldado, e vós mesmo dificilmente me reconhecereis” (1) Lutero a princípio entregou-se ao repouso, gozando de um descanso que até ali nunca lhe havia sido permitido. Ele passeava livremente por toda a fortaleza, mas não podia passar além das muralhas. (2) Todos os seus desejos eram satisfeitos, e nunca havia ele sido melhor tratado. (3) Uma multidão de pensamentos lhe enchiam a mente, mas nenhum tinha o poder de perturbá-lo: Olhava para as florestas que o cercavam e depois elevava os olhos ao céu.
“Sou um prisioneiro singular, exclamava ele, cativo por minha vontade contra minha vontade!” (4)
“Orai por mim, escrevia ele a Spalatino, vossas orações são a única cousa; de que necessito. Não me importa com cousa alguma de mim se diga no mundo. Afinal, estou em descanso. (5) Esta carta, bem como muitas outras do mesmo período, é datada da ilha de Patmos. Lutero comparava Wartburgo àquela célebre ilha para onde, na antiguidade, havia sido banido o apóstolo S. João pela ira do Imperador Domiciano.
______________
(1) Equitem videres ae ipse vix agnoceres. L. Epp. ii. II.
(2) Nunes uni hic otiosus, sicut inter captivos líber. L. Epp. ii. 3,12 de Maio
(3) Quanquam et. Hilariter et Fbenter omania mihi ministret. Ibid. 13, 15 de Agosto.
(4) Ego mirabilis captivus qui et volensi et nolens hic sedeo. Ibid. 4, 12 de Maio

No meio das sombrias florestas da Turíngia repousava o reformador das lutas violentas que lhe tinham agitado a alma. Ali estudava ele a verdade cristã, não para combater, mas como meio de regeneração e de vida. O começo da Reforma foi de necessidade polêmico, novos tempos requeriam novos trabalhos. Depois de arrancados os espinhos e as moitas, era necessário semear pacificamente a Palavra de Deus no coração. Se Lutero tivesse de lutar continuamente, nunca teria completado uma obra durável na Igreja. Assim, pelo seu cativeiro, escapou ele a um perigo que podia ter arruinado a Reforma, – o perigo de atacar e destruir sem jamais defender ou edificar.
IMPRENSA EVANGELICA.VOL. XXIII, Nº 6.
S. Paulo, 5 de Fevereiro de 1887, p.42.

Nenhum comentário:

Postar um comentário