quinta-feira, 20 de outubro de 2016

HISTÓRIA DA REFORMA - Jean Henri Merle D’Aubigné (1794-1872)




Os seus inimigos julgavam que se Lutero não estava morto, ao menos nunca mais ouviriam falar dele; mas o seu gozo não foi de longa duração, porque em pouco tempo não podiam duvidar mais que ele estava vivo. Uma multidão de escritos, compostos em Wartburgo, se sucediam rapidamente uns aos outros, e a palavra autorizada do reformador era saudada em toda a parte com entusiasmo. Lutero publicava simultaneamente obras calculadas para edificar a Igreja, e tratados de controvérsia que perturbavam a alegria prematura de seus inimigos. Quase por espaço de um ano, ele de seu montanhoso retiro instruía, exortava, reprovava e ameaçava simultaneamente; e seus perturbados adversários perguntavam uns aos outros se nessa atividade prodigiosa não haveria alguma conversa de sobrenatural e prodigiosa. “Ele não podia ter tido repouso,” diz Cochloeus. (1)
  Mas não havia outro mistério além da imprudência dos partidários de Roma. Eles davam-se pressa em tomar vantagem do Édito de Worms para ferir a Reforma com um golpe decisivo; e Lutero, condenado, banido do Império, e preso em Wartburgo, empreendeu defender a sã doutrina, como se estivesse vitorioso e em liberdade. Era especialmente no tribunal da penitência que os sacerdotes se esforçavam por segurar as cadeias de seus paroquiados, e por este motivo o confessionário foi o objeto do primeiro ataque de Lutero. “Alegram eles, dizia Lutero, estas palavras de S. Tiago: Confessai os vossos pecados uns aos outros. Singular confessor! Seu nome é Uns aos outros! Daqui segue-se que os confessores devem confessar-se também a seus penitentes; que cada cristão deve ser, ao mesmo tempo, papa, bispo, e padre; e que o mesmo papa deve confessar-se a todos! (2)
     Apenas Lutero acabou este tratado, principiou outro. Um teólogo de Louvain, chamado Latomus, já célebre por sua oposição a Reuchlin e Erasmo, havia atacado as opiniões do reformador. Dali a doze dias Lutero tinha pronta a sua refutação, a qual era um chefe de obra. Ele se defende da acusação que se lhe fazia de falta de moderação. “A moderação do secla, dizia ele, é curvar o joelho diante de pontífices sacrilégios e ímpios sofistas, e dizer-lhes: Gracioso senhor! Excelente mestre! E depois disto podeis condenar à morte a quem quiserdes; podeis mesmo comover o mundo, sem que sejais menos um homem moderado... Longe de mim tal moderação! Quero antes ser franco e não enganar à pessoa alguma. O exterior pode ser duro, mas o âmago é doce e terno.” (3)
     Como a saúde de Lutero continuava alterada, ele começou a pensar em deixar a sua prisão. Mas como fazê-lo? Aparecer em público, seria expor a sua vida. O lado de traz da montanha sobre que se levantava a fortaleza era cruzado por muitos caminhos bordados de silvas. A pesada porta do castelo abriu-se, e o prisioneiro aventurou-se, não sem temor, a sair para colher algumas amoras de silva. (4) Gradualmente ele se aventurava a alongar-se mais da porta do castelo, e em seu traje de cavalheiro começou a passear pelas terras vizinhas acompanhado por um guarda fiel, mas um tanto brusco. Um dia, tendo entrado em uma hospedaria, Lutero incomodado pela espada, a pôs de lado, e tomou com sofreguidão alguns livros que ali achou.
     Sua natureza mostrava-se mais forte do que sua prudência. Seu guarda tremia com medo de que este movimento, tão extraordinário em um soldado, excitasse suspeitas de que o doutor não fosse realmente um cavalheiro. Outra vez os dois camaradas desceram ao convento de Reinhardbrunn, onde Lutero tinha dormido poucos meses antes em sua jornada para Worms. Repentinamente um frade leigo soltou um grito de surpresa. Lutero tinha sido reconhecido. Seu guarda compreendendo isto puxou Lutero apressadamente para fora, e já galopavam longe do convento quando o pobre leigo voltou a si de  sua surpresa.
_________________
(1) Cum quiescere non posset. Cochl. Act. Luth. p. 39
(2) Und der Pabst musse ihm beihten L. Opp. XVII. 701.
(3) Cortex meus esse potest durior, sed nucleus meus mollis et dulcis est. Ibid Lat. II. 213.
(4) Zu zeiten geht er in die Erdbeer am Schlosberg. Mathesius, p.33.

IMPRENSA EVANGELICA.VOL. XXIII, Nº 9.
S. Paulo, 26 de Fevereiro de 1887, p. 66.

Nenhum comentário:

Postar um comentário