sexta-feira, 21 de outubro de 2016

HISTÓRIA DA REFORMA - Jean Henri Merle D’Aubigné (1794-1872)




CAPÍTULO III

Começo da Reforma – Casamento de Feldkirchen – O casamento dos frades – Teses – Tratado contra o monarquismo – Lutero não é já frade.

Havia, com efeito, entre as duas questões uma grande diferença. O casamento dos padres não era a destruição do sacerdócio; pelo contrário, isto mesmo podia restaurar ao clero secular o respeito do povo; mas o casamento dos frades era a terminação do monarquismo. A questão, pois, era se seria conveniente debandar e dissolver esse poderoso exército que os papas tinham sob suas ordens. “Os padres, escrevia Lutero a Melanchton, são instituídos por Deus; e por consequência estão isentos da obrigação de obedecer aos mandamentos humanos. Mas é por sua própria vontade que os monges adotam o celibato; e, portanto, não podem sacudir o jugo que voluntariamente tomaram sobre si;” (1)
O reformador estava destinado a avançar, e a levar de vencida por outra luta interna esta nova posição do inimigo. Já tinha ele calcado aos pés muitos abusos romanos e a mesma Roma; mas o monarquismo ainda estava de pé. O monarquismo, que tinha antigamente levado vida a tantos desertos, e que, depois de ter atravessado tantos séculos, enchia os claustros de ociosidade, parecia ter tomado um corpo para ir defender seus direitos a esse castelo da Turíngia, onde a questão de sua vida ou morte se discutia na consciência de um homem. Lutero lutava com esse corpo: umas vezes o reformador chegava quase a ponto de ganhar a vitória, outras vezes quase ficava vencido. Afinal não podendo sustentar o combate por mais tempo, ele se lançou em oração aos pés de Jesus, exclamando: “Ensina-nos e livra-nos! Estabelecemos, por tua misericórdia, na posse da liberdade que nos pertence, porque certamente somos teu povo!” (2)
O livramento não se fez esperar: uma revolução importante se operou no espírito do reformador: e foi ainda a doutrina da justificação pela fé que lhe deu a vitória. Essa arma que tinha destruído a doutrinas das indulgências, as práticas de Roma e o mesmo papa, também pôs fim ao monarquismo no espírito de Lutero e em toda a cristandade. Lutero viu que o monarquismo estava em violenta oposição à doutrina da salvação de graça, e que a vida monástica fundava-se inteiramente nos pretendidos méritos do homem. Convencido desde aquela hora que a glória de Cristo estava envolvida nesta questão, ele ouvia uma voz repetir continuamente em sua consciência: O monarquismo deve cair! “Enquanto a doutrina da justificação pela fé se conservar pura e sem mancha na Igreja, ninguém poderá fazer-se frade,” dizia ele. (3) Esta comvicção ganhava cada dia raízes mais profundas em seu coração, e no começo de Setembro ele enviou “aos bispos e diáconos da Igreja, de Wurttemberg,” as seguintes teses, que eram a sua declaração de guerra contra a vida monástica:


“Tudo o que não é segundo a fé, é pecado. (Romanos XIV.23)
“Tudo o que faz voto de virgindade, de castidade ou de serviço a Deus, sem fé, faz um voto ímpio e idólatra – um voto ao diabo mesmo.
“Fazer tais votos é pior do que fazer-se sacerdote de Cybele ou vestal, porque os frades pronunciam os seus votos indevidamente, crendo que serão justificados e salvos por eles; e o que devia ser atribuído somente à misericórdia de Deus, é assim atribuído a obras meritórias.
“Deve-se destruir totalmente tais conventos, porque são habitações do diabo.
“Só há uma ordem que é santa e faz o homem santo, a qual é o Cristianismo ou a fé. (4)
“Para que os conventos fossem úteis deveriam ser convertidos em escolas onde as crianças sejam educadas até o estado de homem; mas em vez disto, são eles casas onde os adultos se tornam crianças, e crenças permanecem sempre.”






Vê-se, pois, que Lutero ainda teria tolerado os conventos como casas de educação; porém dali em diante os seus ataques contra estes estabelecimentos tornaram-se mais enérgicos. A imoralidade e práticas vergonhosas que prevaleciam nos claustros, se apresentavam com força a seu espírito. Estou resolvido, escrevia ele a Spalatin em data de 14 de Novembro, a livrar os moços das chamas infernais do celibato.” (5) Depois escreveu ele contra os votos monásticos um livro, que dedicou a seu pai.
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(1) Me enim vehementer movei, quod sacerdotum ordo, a Deo institutus, est líber, non autem monachorum quia sua sponte statum eligerunt. L. Epp. II. 34.
(2) Dominus Jesus erudiat et liberet nos, per misericordiam suam, in libertatem nostram. A Melanchton, sobre o Celibato, em 6 de Agosto de 1521, I. Epp. II.40.
(3) I. Opp. (W. XXII 1466.
(4) Est ist nicht mehr denn eine einige Geistlichkeit, die da heilig ist, und heilig macht... I. Opp. XVII. 718
(5) Adolescentes liberare ex isto inferno coelibrais L. Opp. II. 95.

IMPRENSA EVANGELICA.VOL. XXIII, Nº 11.
S. Paulo, 12 de Março de 1887, p. 82.

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