sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Joaninha e a sua ovelha

    Era em uma formosa manhã de verão que Joaninha chamou por sua mãe para dar-lhe o seu almoço. Tomou a sua taça, sentou-se em um banco coberto de relva, que havia à porta de sua choupana, e principiou a comer as suas sopas de leite, que lhe sabiam muito bem, porque nem sempre tinha tão bom almoço.
     Enquanto ela almoçava, pensava num livro muito bonito, que na semana anterior lhe haviam dado como prêmio de sua pontual assistência à escola dominical, porque no espaço de seis meses nem uma só deixou de assistir. Deus lhe havia concedido desfrutar a melhor saúde, e ela bem sabia de quanto proveito era o que na escola aprendia; não deixou, pois de assistir sempre que lhe era concedido.
    Nunca ouvi dizer que ela fosse encontrada nos domingos brincando com meninos malcriados e folgazões; porque isto era violar o domingo, e o seu desejo era guardá-lo.
     Que meninos pensais vós que são mais felizes os que andam brincando e fazendo dano aos domingos, ou os que assistem à igreja e procuram guardar o santo dia do Senhor?
     E, pois, como ia dizendo, Joaninha estava comendo as suas sopas, e pensando em seu livro, que era a JOVEM ALDEANA, e desejando em seu coração poder amar o Salvador e ser feliz como a outra Joaninha d’aldeia.
     E quando já havia quase concluído o seu almoço, viu vir para seu lado um homem com umas poucas de ovelhas, que levava para vender na próxima povoação.
     Algumas destas ovelhas traziam suas crias, e algumas delas estavam tão cansadas que apenas podiam andar.
    Uma delas ao passar por onde Joaninha estava sentada, deitou-se.
    O homem tratou de levantá-la, e vendo que não podia mover-se; (tal era a sua fadiga) disse: “Quando mais não seja, ao menos aproveitarei a sua pele.”
    E dizendo isto começou a atar-lhe os pés para pô-la ao ombro e levá-la, quando Joaninha lhe pediu muito encarecidamente que a deixasse, que ela a trataria.
     “Para isso,” disse o homem, “melhor será que fiques com ela; além de que agora me lembro, tu és a menina que o verão passado, quando eu estava em ajuste, veio dizer-me que uns rapazes tinham espantado duas das minhas melhores ovelhas por aquele caminho abaixo; e, a não seres tu, não as teria encontrado tão depressa; assim, pois, se queres a ovelhinha, toma-a, e Deus te ajude com ela.”
    Dito isto, o homem chamou a seu perro e proseguiu em seu caminhp com as ovelhas. Joaninha deu-lhe os agradecimentos, e deixando a tigela tomou a sua ovelhinha nos braços, e pôs-se a pensar o que faria dela. O animalzinho tinha os olhos tão fechados que parecia que estava expirando. “Pobre bichinho,” disse ela, “que te importa mais.” “Amanhã ou depois te haviam de matar; não obstante eu quisera que vivesses, para brincar contigo. Eu havia de cuidar, porque a Bíblia diz que devemos usar de misericórdia para com as pobres criaturas mudas como tu. O mesmo que me criou a mim, também te criou a ti; e eu me lembro de ter lido que a Sua misericórdia paternal se estende a todas as Suas criaturas.”
   Enquanto ela estava nesta conversação, a ovelhinha abriu algum tanto os olhos e soltou um débil balido; pelo que Joaninha sobremaneira se alegrou.
     “Minha pobrezinha, disse ela, “quem sabes tens fome!” E tomando a colher deitou-lhe um pouco de leite na boca, e com grande prazer viu que o tragava; então deu-lhe mais duas ou três colheres, e envolvendo-a no seu avental, teve-a por algum tempo agarrada ao colo. Bem depressa a ovelhinha reviveu com o calor de seu corpo, e já podia ter-se em pé; tanto assim que por si mesma foi e bebeu o leite que restava do almoço de Joaninha. Por aqui podeis ver que ela não era nada glutona.
     Joaninha foi então aonde estava sua mãe, e lhe mostrou a ovelhinha, contando-lhe ao mesmo tempo tudo o que se havia passado. Sua mãe disse-lhe que a levasse ao pasto, atrás da casa. Fê-lo assim a menina, e antes da noite já a ovelha estava como se nada tivesse tido.
    Joaninha tinha todos os dias de ir ao seu trabalho; porém não haja medo que se esquecesse da ovelhinha. Todas as manhãs, a hora do almoço tinha o cuidado de dar-lhe de comer, e a ovelha acudia assim que ouvia a sua dona chamá-la.
     Já podeis fazer ideia do prazer que eu Joaninha sentia cada vez que via a sua ovelhinha. Como a havia tratado com tanto esmero, é natural que assim sucedesse; porém quão diferente teria sido, se a houvesse deixado morrer! Tenho conhecido meninos que se comprazem em maltratar os pobres animais; porém sempre tenho notado que os tais meninos são perversos.
    A ovelhinha em pouco tempo tomou tanto carinho à Joaninha, que andava sempre atrás dela; e se alguma vez Joaninha tardava em vir para casa, deitava-se à porta, e aí estava esperando; e logo que a enxergava corria para ela, fazendo-lhe mil carinhos que manifestavam a sua alegria.
    Pouco mais me resta a dizer acerca de Joaninha e da sua ovelhinha. A mãe ficava todos os anos a lã que ela produzia; e se houvésseis entrado na sua choça em uma noite de inverno, teríeis visto a mãe ocupada com seu fuso, enquanto Joaninha e seus irmãos estavam empregados em outros serviços, lendo um deles a Bíblia em voz alta, ou qualquer outro livro proveitoso. Quando a lã estava fiada, Joaninha fazia dela meias para si, e para seus irmãos, que os aqueciam e abrigavam no inverno.
    Jovens leitores, que tendes lido esta história, aprendei do exemplo de Joaninha a exercitar a caridade com todos os vossos semelhantes, porque este é o sinal característico de todo o verdadeiro cristão. Vede qual foi o resultado da bondade de Joaninha para com o seu pobre animalzinho, e ao depois como ela colheu bom resultado de ter meias para calçar e abrigar-se do frio. Pois se ela recebeu recompensa pelo que fez com um animal irracional, muito mais recebereis vós da mão de Deus se observardes os seus preceitos, porque ele diz:
    “Exercitai a caridade para com todos os homens. Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos tem ódio; e orai pelos que vos perseguem e caluniam.” S. Mateus 5:44.
   E S. Paulo descrevendo o caráter da caridade diz: “A caridade é paciente, é benigna; a caridade não é invejosa, não obra temerária, nem precipitadamente, não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo sofre. I Coríntios 13:4-7.
     A recompensa é grande para todos os obradores do bem. No dia de Juízo quando o Cordeiro aparecer para julgar os justos e os ímpios dirá: “Vinde benditos de Meu Pai, possui o Reino que vos está preparado desde o princípio do Mundo; porque tive fome, e deste-me de comer; tive sede deste-me de beber; era hóspede, e recolheste-me; estava nu e cobriste-me; estava enfermo, e visitaste-me; estava no cárcere, e viestes ver-me” S. Mateus 25:34-36.
       Considerai, pois, “que ainda que vós faleis as línguas dos homens, e dos anjos e não tiverdes caridade, sois como o metal que soa, ou como o sino que tine, e se tiverdes o dom de profecia, e conhecerdes todos os mistérios, e quanto se pode saber; e se tiverdes toda a fé, até o ponto de transportar montes, e não tiver caridade não sois nada. E se distribuirdes todos os vossos bens em o sustento dos pobres, e se entregardes o vosso corpo para ser queimado, se todavia não tiverdes, caridade nada disto vos aproveitará.”

IMPRENSA EVANGELICA.
    ANO VIII, 19 DE OUTUBRO Nº 20, 1872, p. 157. 
  
IMPRENSA EVANGELICA.
ANO VIII, 02 DE NOVEMBRO Nº 21, 1872, p. 163, 164.

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