segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A viagem da Christiana com os seus filhos – John Bunyan (1628-1688)

A viagem da Christiana com os seus filhos  

Pilgrim’s Progress Part II , John Bunyan (1628-1688)


Caros companheiros. – Há algumas semanas relatei-vos um sonho que tive de Cristão, o peregrino, e a sua viagem penosa para a terra celeste, e suponho que vos foi proveitoso, bem como agradável a mim. Disse-vos também o que presenciei a respeito de sua mulher e seus filhos, como não quiseram acompanhá-lo na sua viagem, de modo que foi obrigado a deixá-los, por ter medo daquela destruição vindoura, se ficasse com eles na cidade da Corrupção; portanto, como já disse, deixou-os e saiu.
     Tendo muitos negócios, fui impedido de encetar as minhas viagens do costume para os lugares donde ele saíra, por isso não se me ofereceu oportunidade de ouvir alguma daquelas coisas que ficaram; porém, como tivesse alguns negócios naqueles sítios, segui ultimamente para ali. Tendo pousado em um bosque à meia légua distante, dormi e sonhei outra vez. Vi no meu sonho passar um velho, e como ia no mesmo caminho que eu, julguei que me havia levantado e o acompanhava.
     Enquanto caminhávamos, como é o costume dos viajantes, travamos conversação e tratávamos de Cristão e das suas viagens.
– Meu senhor, disse eu, que cidade é aquela que fica à esquerda do nosso caminho? Então respondeu o Sr. Sagacidade, que assim se chamava:
– É a cidade da Corrupção, uma praça muito povoada, porém de gente muito má e vadia.
    Julguei que fosse mesmo essa cidade, disse-lhe eu; lá estive uma vez; portanto, sei que o que acabais de dizer é a verdade.
O Sr. Sagacidade. – Pois é, oxalá que eu pudesse contar melhores coisas daqueles que lá habitam e ao mesmo tempo dizer a verdade.
– Por isso, vejo que és um homem que estimas a todos; portanto, deves alegrar-te em ouvir e contar coisas boas, respondi-lhe. Tens sabido do que aconteceu a um homem que há tempo saiu daquela cidade, conhecido por Cristão, que encetara uma viagem para a terra celeste?
     O Sr. Sagacidade. – Pois não; ouvi falar também das desgraças, incômodos, guerras, prisões, gritos, gemidos, sustos e temores que encontrou na referida viagem, além disso todos falam dele nestes sítios; há poucos que tenham ouvido alguma coisa a seu respeito sem procurarem a história da sua viagem e posso mesmo dizer que a sua penosa viagem tem conduzido muitos a imitá-lo, porque, ainda que ele fosse conduzido por todos como um louco, enquanto estivesse aqui, é agora muito estimado de todos. Dizem que vai muito bem onde se acha, e ainda que não queiram afrontar os mesmos perigos, desejam, contudo receber a mesma recompensa.
– Podem ter a certeza, disse-lhe eu, de que ele acha-se muito feliz, porque vive agora junto à fonte da vida e já não tem penosos trabalhos, nem tristezas, visto lá não haver mais dor. O que, porém, dizem dele?
O Sr. Sagacidade. – Muita coisa estranha. Dizem uns que anda vestido de branco, com uma corrente de ouro pendente do pescoço e uma coroa de ouro marchetada de pérolas sobre a cabeça; outros, que os espíritos celestes que lhe apareciam algumas vezes durante a sua viagem, são agora os seus inseparáveis companheiros, com quais harmonizou-se tanto, como um vizinho com outro, aqui na terra.
     Ainda mais, afirma confiadamente que o rei do lugar onde ele está, lhe tem destinado uma morada muito rica e agradável na sua corte e que todos os dias bebe e come, passeia e conversa com ele, recebendo mercês daquele que é o Juiz de todos. (Zacarias 3:7; Lucas 14:14-15).
     Além disso, alguns esperam que o seu rei, o Senhor daquele país, virá brevemente a estes lugares saber qual a razão porque o desprezaram e zombaram tanto dele, quando determinou a sua viagem (Judas 14:15); porque, dizem, o seu rei o ama tão extremamente e afligi-se tanto com as indignidades que com ele praticaram quando viajava, que considera tudo como se fosse feito a si próprio. (S. Lucas 10:16). E não é de admirar, porque, em virtude do seu amor para com o rei é que atreveu-se  a fazer o que fez.
– Não duvido, disse-lhe eu, e muito me alegro com a causa desse pobre home que hoje descansa dos seus trabalhos e recebe com prazer a recompensa das suas lágrimas e também porque está livre do alcance dos seus inimigos e dos que o odeiam. (Apocalipse 14:13; Salmo 125:5-6).
     Estou completamente satisfeito, porquanto a notícia destas coisas está espalhada nestas praças. Quem sabe se aqueles que lá estão não tiram bom resultado. Mas enquanto estamos falando dele, sabes alguma coisa acerca de sua mulher e filhos? Coitados, desejo saber do seu estado.
O Sr. Sagacidade. – Quem? Cristiana e seus filhos? Provavelmente passam tão bem como Cristão. Ainda que enlouquecessem no princípio e não se deixassem persuadir pelas lágrimas e rogos de Cristão, arrependeram-se depois e o seguiram.
    Tanto melhor, respondi-lhe, mas todos? A mulher e os filhos o seguiram?
   O Sr. Sagacidade. – Sim, posso afirmá-lo, porque lá estive quando saíram e sei de tudo.
– Então, disse-lhe eu, pode-se asseverar que é real esse fato?
O Sr. Sagacidade. – Sem a menor dúvida, digo que todos partiram, tanto a mulher como os filhos, e visto que temos de caminhar juntos por algum tempo, revelar-vos-ei a história da sua partida.
   Esta Cristiana (assim se chamava desde o dia em que ela e os filhos partiram), depois que o seu marido atravessou o rio, nada mais ouvindo a seu respeito, principiou a entristecer-se, primeiramente porque tinha perdido seu marido, sendo desfeita aquela relação íntima que havia entre eles.
     Sabes, disse-me ele, que os sobreviventes têm de sofrer muito com a perca daqueles que lhes são caros. A perca, portanto, que ela teve de seu marido, custou-lhe muitas lágrimas. Mas isso não foi tudo: começou a supor que a sua conduta inconveniente para com seu marido fosse a causa de não o ver mais. Veio-lhe então à lembrança todo o seu duro e desnatural comportamento para com o seu caro amigo; doeu-lhe o coração e ela reconheceu a sua culpa. Afligia-se tanto mais com a lembrança dos gemidos agonizantes, das lágrimas e lamentações de seu marido, recordando-se do modo porque endurecia o seu coração contra todos os seus amáveis rogos, quando lhe dizia que o acompanhasse com os seus filhos.

     Não havia coisa que Cristão lhe houvesse dito ou feito, enquanto andava com o fardo às costas, que não se lhe rememorasse como um relâmpago e não lhe doesse o coração, principalmente aquele grito terrível: “Que hei de fazer para me salvar!” Soou-lhe dolorosamente nos ouvidos. Disse ela então aos filhos: “Meus filhos, estamos perdidos. Pequei contra o vosso pai e ele já não está aqui. Ele queria levar-nos consigo, sem que eu aquiescesse; também vos impedi de acompanhá-lo.
    Imediatamente os moços de desfizeram em lágrimas e dispuseram-se a seguir o exemplo de seu pai. Oxalá, disse Cristiana, que o tivéssemos seguido, teríamos procedido melhor naquela ocasião do que hoje.

     Outrora julguei que os incômodos de vosso pai fossem provenientes de uma fantasia, ou de um espírito melancólico; mas agora reconheço terem-se originado de outra razão, que consiste em ter-lhe sido dada a luz da vida (Tiago 2:23-25; João 8:12), escapando ele assim das ciladas da morte (Provérbios 14:27). Tornaram então eles a chorar e clamaram: ai de nós, ai de nós!

IMPRENSA EVANGELICA.

Ano XIV, Nº 39, 26 DE SETEMBRO DE 1878, p. 307-308.

Deus me ajuda


Igreja Perseguida



sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O grumete generoso


O grumete generoso
(Imprensa Evangelica, Vol. IV, nº 20, 17 de Outubro de 1868, p. 156-158 )

Um navio francês voltava de Toulon para Havre, foi acometido por um violento temporal. Vendo-se em perigo de naufragar, o capitão e a tripulação inteira lançaram mão de todos os meios para afastá-lo da terra; porém, apesar de todos os seus esforços, viram que a tempestade os impelia sempre mais próximos da costa.

A noite inteira o navio combateu com as ondas e o vento. O comandante demonstrava pela tristeza de um semblante o perigo em que se achavam. De repente um choque terrível os avisou de que o navio havia encalhado.
- Lançai os botes na água! gritou o capitão.

Os marinheiros obedeceram à ordem, porém a violência da tempestade e das ondas fez soçobrar os botes.

Entre os mais ativos da tripulação estava Thomaz, que servia de grumete. As ondas lançando-se sobre o navio, banhava-no; as plicas das velas o cubriam, o vento e a chuva lhe batiam no posto, porém ele permanecia sereno e até com sorriso nos lábios no meio do perigo, pensando em sua mãe que vivia mui pobre em um dos bairros de Havre, e para a qual havia reunido um pequeno tesouro, que constava de quatro peças de cinco francos cada uma.

 – A única esperança que nos resta, disse então o comandante, é que um de nós vá nadando para a praia, com uma corda atada em roda de seu corpo, para que por meio dela, alcancemos a terra.

Nenhum dos marinheiros teve a coragem de oferecer para a execução de uma empresa tão perigosa. Porém, logo se apresentou o grumete Thomaz ao capitão dizendo que estava pronto para ir para a praia. O capitão fez-lhe ver o perigo que corria, porém o mancebo não recuou, até que afinal o comandante consentiu que ele fizesse a tentativa.

Já estando de todo pronto, aproximou-se Thomaz do capitão, entregou-lhe seu pequeno tesouro, e lhe pediu que, caso perecesse, fizesse chegar, se fosse possível, esse dinheiro às mãos de sua mãe, e que lhe dissesse que a amava muito, e também a seus irmãos. O capitão lho prometeu, e o grumete se dirigiu para o lado do navio donde ia lançar-se ao mar.

Os marinheiros estavam tristes e envergonhados pelo exemplo de valor que lhes dava esse mancebo; pelo que se dirigiram ao capitão a fim de pedir-lhe que proibisse Thomaz de ir para a praia. Ele anuiu a seu pedido, e todos, pois, foram para o lado onde julgavam ainda achar o grumete. Porém este já se havia lançado ao mar, e estava combatendo corajosamente com as ondas.

A ansiedade que reinava entre a tripulação era grande. Quando a corda se desenrolava com rapidez aplaudiam os marinheiros; e quando fazia pouco ou nenhum movimento, criam que Thomaz havia perecido.

De repente divisam através das águas que os separam da terra, o grumete Thomaz sair das ondas, e o veem logo depois lhes acenar. Vendo isto, um grito de júbilo ressoou a bordo do navio; pois estavam salvos. Por meio da corda que Thomaz havia levado à terra passou-se-lhe um cabo, e por meio deste todos os que se achavam no navio conseguiram alcançar a praia. Pouco depois do navio ficar abandonado, ele afundiu-se para sempre.

Thomaz caiu doente em consequência dos golpes das ondas e da fadiga; porém se sentia suficientemente recompensado por haver salvo a muitos de seus semelhantes de uma morte iminente.

Não deverá esta história trazer-nos à memória ao Senhor Jesus Cristo, que não somente expôs a suavida, mas deu-a livremente para nos salvar? Aqui verdadeiramente ha amor divino: Jesus morreu na cruz para salvar-nos, porque- nos amava. Amemo-lo pois, e ponhamos toda nossa confiança nele, para alcançarmos o perdão dos nossos pecados e a vida eterna unicamente pela sua morte expiatória sobre a cruz. As palavras que ele nos dirige são: “Como Moisés no deserto levantou a serpente, assim importa que seja levantado o Filho do Homem, para que todo o que crê Nele, não pereça, mas tenha a vida eterna.” S. João 3: 14, 15.


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O Hóspede Jesus!


“Quem quer receber a Jesus tem de renunciar a muita cousa; porque este hóspede não quer somente um cantinho em teu coração, Ele o quer todo.”

Jornal Estandarte Christão.

Vol. II, nº 10. Porto Alegre-RS, Outubro de 1894.