quinta-feira, 16 de julho de 2015

Flores do Deserto - NARRATIVA DAS GUERRAS DAS CEVENAS:Cornélie Duval (Capítulo VIII-X)




CAPÍTULO VIII

 A INSURREIÇÃO CAMISARDE (*)

   Os moradores do solar em geral pouco se importavam com a política. Porém de algum tempo a essa parte os acontecimentos que se desenrolavam em França e na Europa eram de tal importância que eles constituíram para a Sra. des Pontes-Marceaux, para sua filha e sua sobrinha o centro de suas preocupações. O duque de Anjou, neto do rei, havia herdado todas as coroas da Espanha.
 
    À testa das raças germânicas e das nações protestantes, para fazer valer os seus direitos, se colocara o rei da Inglaterra Guilherme de Orange. Ele tinha por auxiliares os refugiados huguenotes dos diversos países e os valdenses perseguidos. Ao mesmo tempo estalara a insurreição das Cevenas seguida logo pelas do Languedoe e dos Vivarais. Predicantes de ocasião, que se davam por inspirados do céu chamavam o povo à revolta. O Sr. des Pontes-Marceaux tinha por estes iluminados, como lhes chamava, o mais profundo desprezo.

     “A roda e a forca, dizia ele, eis o remédio para essas explosões de loucura. E se isso não bastar, será preciso que se resolva exterminar, até o último, todos esses fanáticos!”

– Desejoso de ter o seu quinhão de glória na submissão dos rebeldes, o comandante, apesar de sua idade, lá se foi a oferecer os seus serviços ao rei. Porém a volta de seus acessos de gota o impediu de tomar parte ativa na guerra. Estava com tudo sempre bem informado de que se passava e mais frequentemente ele encontrado a conferenciar com o governador de Alais ou com o coronel de Miral, chefe das milícias reais. Elisabeth só raramente saía de casa. Porém pela colheita ela encontrou-se uma ocasião com os seus amigos da Butte. Aí ela ficou sabendo que a insurreição crescia e se fortalecia de dia em dia. Falaram-lhe de Abraão Mazel cujo verbo poderoso levantava o povo dos campos; de Daniel Raul, que fazia os novos convertidos abjurar sua apostasia e formarem-se sob os estandartes da verdade.

– A Sra. não faz uma ideia, lhe disse Joanna Paysae, o que são agora nossas assembleias. Milhares e milhares comprimem-se ali para ouvir a palavra de Deus. Apesar das milícias do rei que correm dia e noite para nos surpreender, a multidão acode de todos os lados. Em Bougés, sob os três faias, eu vi Etiene falar a um povo imenso. Ele saía da prisão.

– “O anjo do Senhor me livrou, nos dizia ele, ele me fez sair como S. Pedro, por entre os guardas e as portas de ferro!” Se tivesse ouvido as aclamações, o entusiasmo das multidões, e nossos salmos de guerra entoados numa só voz!... Ele falou-nos, sem o nomear, de um poderoso monarca, que breve se poria à frente da insurreição e conduziria nossas tropas à vitória.

   Elisabeth compreendeu que esse libertador era Guilherme de Orange.

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(*) Camisarde, protestantes das Cevenas, que tomaram armas depois da revogação do edito de Nantes (1685); eram assim chamados porque traziam sobre suas vestes uma camisa (em dialeto camiso). Seu chefe principal foi Jean Cavalier. Foram submetidos por Villara. - Nota da tradutora.

     Passados alguns dias, a notícia do assassinato de Chayla percorreu as Cevenas como um rastilho. O arcipreste, que havia transformado em prisão a sua casa de pároco de Pont-du Monvert, tinha ali presos os fugitivos huguenotes. Falava-se na redondeza dos suplícios infligidos a esses infelizes: estavam deitados
com os pés nos troncos e para forçá-los a abjurar, torturavam-os a ferro e fogo. Uns cinquenta homens destemidos chefiados por Abraham Mazel, haviam forçado a entrada dos calabouços e livrado os presos, vários dos quais tinham chagas profundas, dedos e mãos carbonizados até o osso. Colocando, em terrível acusação, essas vítimas sob os olhos do arcipreste espavorido, eles o condenaram à morte e, ali mesmo, o vararam com suas espadas. Este ato de represália foi o sinal das guerras camisardes.

   Foi nessa atmosfera de trovoada que se celebrou o casamento de Laura. A Sra. des Ponts-Marceaux opinava para que se esperasse ainda, porém o visconde insistiu por essa data fixada de há muito. Por vários meses costureiras e bordadeiras haviam trabalhado desde a manhã até a noite. Tratava-se de preparar para a futura viscondessa de Ormancy um enxoval digno de sua nova posição. O casamento que em outros tempos teria dado motivo a festas suntuosas, foi celebrado sem aparato. Depois do luto de Agostinho pairava ainda sobre a família. Pouco tempo depois a Sra. des Ponts-Marceaux caiu de cama atingida por uma tísica galopante. A declaração do médico que o mal era incurável ela não manifestou surpresa nem turbação; se tinha preparado para a morte, e à medida que o fim se aproximava ela tornava-se mais serena, mais conciliante, mais larga nas suas ideias.  Um dia em que seu tio estava fora Elisabeth propôs-lhe a leitura de um capítulo do Evangelho, e foi buscar a Bíblia de Cláudio que ela trazia debaixo de chave, receosa de -la confiscada ou queimada.

– Donde te vem esse livro? Perguntou a Sra. des Pontes-Marceaux.

– Pertence ao amigo de Agostinho, aquele que foi preso aqui mesmo no outono passado. Ele o deixara na torrinha.

     A velha senhora notou a emoção de sua sobrinha, o tremor da sua voz; e, tomando o livro nas suas mãos, folheou-o por alguns instantes. Então, lendo o nome na primeira página perguntou:

O que aconteceu com esse rapaz?

      Elisabeth tentou responder, mas não foi capaz. Então, escondendo rosto no ombro de sua tia, desatou em pranto.

– Minha filha, minha querida filhinha, conta-me o teu segredo, abre-me o teu coração! Murmurava a doente acariciando a cabeça loira que se apoiava sobre ela.

     Elisabeth sentiu que havia chegado a hora. Com voz entrecortada que aos poucos se acalmava ela fez toda a sua confissão. A Sra. des Ponts-Marceaux ficou grandemente comovida.

– Pobre menina! Pobre menina! repetia ela, tu és vítima de uma imaginação viva demais e de um coração extremamente sensível. Compreendo o respeito e a simpatia que te inspira este homem. Não se pode recusar a admiração a quem afronta a prisão e a galé para ser fiel as suas convicções. Mas, pobrezinha, vais ao encontro de muitas flores! Foge desses pensamentos, esforça-te por esquecer!

   Desse dia em diante, Elisabeth teve licença para ler-lhe o Evangelho. As parábolas de Jesus, os seus discursos cativavam a Sra.  des Ponts-Marceaux. Porém ela recebia também com agrado as visitas do padre Charmes. A presença dele a aliviava nos seus grandes sofrimentos. “Ele ajudou-me a viver, dizia ela, e ajudar-me-à morrer!”

      Sentindo vir o fim, ela quis confessar e comungar. Apertou a mão ao seu marido, sorriu para a sua filha que soluçava ao do seu leito. O seu último olhar foi para Elisabeth. Confio-lhe a minha ovelha, disse ela ao dominicano, vele sobre ela...”

     Abriram a sepultura da Sra. des Ponts-Marceaux ao lado da do seu filho que ela tanto tinha amado. Por ocasião do enterro todas as demonstrações de simpatia foram para Laura. A viscondessa trajada, no seu luto, com extrema elegância, enxugava os olhos com seu lencinho de cambraia, bordado e perfumado. Todos se admiravam do silêncio da sua prima, da sua aparente insensibilidade.

    Laura partiu no dia seguinte. As visitas se espaçaram.  Na grande casa vazia Elizabeth sentia agora todo o horror de uma absoluta solidão, de um completo isolamento moral.

     O Sr. des Ponts-Marceaux confiou logo a direção da casa a uma senhora viúva de certa idade, parenta afastada do cavaleiro de Gartel, a Sra.. Des Coudrets. Esta, entendida e diplomada, cumpria as suas funções com inteira satisfação de seu patrão, sobre o qual ela não tardou em ter verdadeiro prestígio. Para com Elisabeth ela mostrava-se amável, carinhosa, por vezes até respeitosa e a moça, a princípio confiante, acabou por sentir por aquela mulher uma invencível aversão. Ela encerrava-se cada vez; mais no seu quarto onde levava a bordar, a ler e especialmente e a estudar afim de ocupar o espírito e fugir dos sonhos vãos. Ela só saía à tardinha para encontrar-se no salão com seu tio e a governante. Conversava-se sobre literatura ou política e às nove horas Elisabeth voltava para o seu quarto onde frequentemente caída sobre uma cadeira, aí permanecia por longo tempo, sem coragem de se por ao trabalho e sem desejo de dormir. Ela sentia-se esmagada pelo sofrimento presente, pelas saudades do passado e acima de tudo pelo medo deste futuro que se abria ante seus passos, não só misterioso, mas sombrio e sem saída.

Jornal O Estandarte. Ano XXXVI, Nº 09, São Paulo, 01 de Março de 1928, p. 12-13.

CAPÍTULO IX
NA GALERA

    Diante do velho porto de Marselha, algumas galeras haviam ancorado sob o ardente sol de junho. Três galés, sob a guarda do comitre (*) chefe de “A Favorita”, desembarcaram de uma chalupa e foram conduzidos a seus respectivos lugares. Todos os três tinham a cabeça raspada e traziam calções compridos, saial grosseiro e a casaca vermelha dos galés. Levavam ao ombro o capote, amplo vestuário que lhes servia ao mesmo tempo de coberta e de capa. Um deles, já velho, tinha o rosto cortado de cicatrizes, cara de bandido. Parecia indiferente ao que o rodeava. O outro, sem se importar com os dichotes que choviam sobre ele, lamentava-se. Era um desertor. O companheiro deles olhava com atenção em volta de si. Pelo seu andar correto, seu rosto inteligente, alumiado por grandes olhos negros, reconhecemos facilmente o nosso amigo, o cevenol Cláudio Noguier.

     Seguindo a ordem do comitre-chefe; um comitre tomou uma corrente de ferro, fixou-a ao banco e voltou a argola ao tornozelo de Cláudio. Vendo o jovem, robusto e com forte musculatura, o comitre o escolhera para o posto de honra e de fadiga, o de primeiro remador ou voga-avante.

    Libertando-se do capote, ele de relance passou em rápido exame os seus companheiros de banco. Ao seu lado achava-se um galé de estranho rosto, cujos olhinhos cinzentos, curiosos e investigadores, também o encaravam.

    Voltando-se para os outros remadores, este disse à meia voz:

– Apostaria a minha cabeça que este é um “parpaillot”! (Termo insolente dado a calvinistas).

      Chicot, o número três, figura brutal e repulsiva, não tardou muito em reclamar a boa-vinda.

  É de uso, explicou o vizinho de Cláudio, que cada novo pague a boa-vinda, isto é, alguns picheis de vinho. Isto para beber a sua saúde, a sua próxima libertação, acrescentou ele com um tom de cortesia que contrastava com seu estranho exterior.

   Cláudio tirou algumas moedas, subtraída à rapacidade dos flecheiros. Ele tivera o cuidado de confiar a sua bolsa ao capitão de armas que, sentido-se honrado por isso, lha restituíra em  Marselha. Um turco, homem alto e trigueiro, prisioneiro de guerra, incumbiu-se da compra. Os turcos, em número do cinquenta nas galeras de Marselha, traziam argola, mas não corrente, e assim podiam circular livremente, e até ir à cidade onde os particulares no inverno os ocupavam em diversos trabalhos.
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(*) Comitre: oficial, que manda, e castiga os forçados da galé. – Nota da tradutora.

    Com o vinho as línguas se desataram. Em duas palavras o segundo remador contou a sua história. Sem pai, nem mãe, ele havia experimentado de tudo, lacaio, cocheiro, limpador de chaminé, ladrão de estrada. Havia percorrido o país sob diversos trajes e diversos nomes. O de Capuchinho lhe ficara. Preso vinte vezes, ele fugia das prisões de uma maneira maravilhosa. Ao menos, ele o afirmava. Ele ia contar a história de uma das suas fugas quando Chicot lhe cortou a palavra.

– Conta antes tua aventura da barraca no inverno passado! O comitre, hein? Ele não caiu no laço! E a corda foi para ti e não para nós! Explicaram ao Cevenol que, quando se dava uma evasão, fato extremamente raro, todos os companheiros do evadido e os dos dois bancos vizinhos recebiam a bastonada.

      A história de Capuchinho foi trazida à balha com um maligno prazer.  Com uma velha lima ele cortara a argola, depois, sob o pretexto que o ferro o machucava, envolvera o pé em trapos. Mas o embuste foi descoberto e o mísero desapiedadamentc surrado. Este, sem negar a aventura, esforçou-se contudo por se rir dela.

– Pois é! Trinta açoites de corja, uma salada temperada com sal e vinagre... A gente será mais esperta da próxima vez!

      Chicot, sem o menor acanhamento, mesmo com uma cínica vaidade, confessou que estava na galera por assassínio e roubo. Os dois seguintes eram um parricida e um falsário. O último, condenado por questão de costumes, entremeou sua história com ignóbeis chocarrices.

      As risadas grosseiras de seus companheiros o tinham estimulado. Cláudio ouvia com o cenho carregado. O filho do Dr. Noguier sentia por instinto uma irresistível aversão a tudo o que é vil, ou simplesmente equívoco.

       Essa ostentação desavergonhada de infâmia e de vício o enojava. E virando-se bruscamente:

– Obrigado, basta! Disse ele com tal acento que o narrador interrompeu-se de chofre enquanto as risadas se transformavam em risotas. Por um minuto só se ouviu a vozeria confusa dos outros bancos e o surdo marulho das ondas. Cláudio meditava. Três assassinos, um falsário, um ladrão de estrada... E eram estas criaturas que, durante anos, seriam seus companheiros de cada dia, sua única relação! Contudo ele lembrou-se que, não obstante sua degradação, seus companheiros de cativeiro eram homens. O Mestre a quem ele servia não os tinha desprezado. Ele resolveu tratá-los com diferença e, quando alguma ocasião se apresentasse, prestar-lhes todo o serviço que estivesse ao seu alcance.

    Voltando a vista para a própria galera, ele pôs-se a examiná-la, e, graças às explicações que Capuchinho se apressou em lhe dar, ele pode fazer uma ideia bastante exata da mesma.

   O que em primeiro lugar atraiu a sua atenção foi a coxia, um caminho mais alto que percorria a galera de popa à proa. Era feito de duas grossas pranchas de carvalho, fixas sobre o convés. Entre essas pranchas havia uma separação de três pés mais ou menos, formando casinhas onde eram guardadas tendas, cabos, cordas e também a roupa dos galés. A coxia era coberta de tábuas atravessadas.

    Pela ocasião da “borrasca”, grande limpeza – cada banco tinha de limpar as suas. Podia-se, pois abrir e fechar a coxia.

    Cláudio contou vinte e cinco bancos de cada lado, ocupados cada um por seis remadores. Esses bancos aproximadamente de dez pés de comprimento, Cram de vigas grossas cobertas de almofadinhas e de couro de boi. Os pés dos galés descansavam sobre a banqueta.
Por baixo circulavam livremente as águas do mar cujas ondas sobre o convés em declive se vinham quebrar até a coxia. De ambos os lados da galera havia uma viga maciça, o encosto sobre o qual eram presos em equilíbrio os remos cuja grossa ponta vinha findar na coxia. Esses enormes remos mediam aproximadamente cinqüenta pés de comprimento. Eles tinham asa ou manilha para se poder segurá-los. Na galeria que corria ao longo do encosto achavam-se os soldados e oficiais, estes na maior parte das vezes os filhos mais moços das famílias e cavaleiros de Malta. O quarto da popa era reservado ao capitão, ao capelão, aos oficiais-majores, assim como o castelo de trás aos arrais e aos marinheiros da popa e proa.

     Chegava a hora da ceia.

O comitre-chefe, um homenzarrão de fisionomia brutal, tomou o assobio de prata que lhe pendia no pescoço e soltou duas notas estridentes. Capuchinho, que parecia tomar amizade ao seu novo companheiro, disse-lhe que durante as vogas, as ordens eram dadas por meio de assobios por causa do ruído ensurdecedor dos remos. Era igualmente o assobio, modulado de cem modos diversos, que dava o sinal de levantar, de deitar e das várias ocupações dos galés.

    Estava a cargo dos comitres o serviço das refeições. Eles vieram com baldes cheios de um caldo nauseabundo.

     Cláudio, como os outros, entendeu a sua vasilha e tomou um gole do mesmo, mas não foi capaz de o engolir.

– Hein? Não é gostosa como a sopa da mamãe? Disse Capuchinho que o observava, um tanto divertido, mas com certa simpatia. Pois é isso, é essa imundície que nos servem três vezes por dia. Os marinheiros e os soldados comem toucinho, carne de vaca, bacalhau, queijo, tudo isso regado de bom vinho. O capitão se regala: ele pode, com uma renda de doze mil libras. Para nós, vinte e seis onças de bolachas, quatro onças de ervilhas incomíveis e esse caldo de tripas que nem mesmo os cães aceitariam!...

     Para a chusma tudo serve!

    Cláudio contentou-se em molhar na água do copo sua dura bolacha de bordo. Ele tinha hábitos de sobriedade.

     Novo assobio ao cair da noite.

       Marinheiros, oficiais inferiores e soldados estiravam-se sobre a galeria. Os galés não puderam fazer o mesmo. Presos à corrente, permaneceram uns sentados, outros agachados sobre a banqueta, a cabeça sobre o banco. Cláudio encostou-se à coxia. Antes de adormecer ele permaneceu por longo tempo com os olhos fixos na imensidade do firmamento. Ele sentia a necessidade de elevar o seu pensamento acima do todas estas misérias, de todas estas ignomínias, de todas estas abjeções. Seu olhar buscou a constelação da Lyra onde brilhava a esplêndida estrela Vega. Lembrou-se do que sua mãe a amava. Uma outra imagem, um puro e gracioso rosto de moça passou ante os seus olhos. Mas temendo enternecer-se ele afugentou a dulcíssima visão e se pôs a pensar em todos os sofrimentos que tinham padecido os seus avós, para ficarem fieis a sua fé, no longo martírio da sua raça. Todos eles tinham segurado firme seu estandarte apesar dos opróbrios e dos suplícios. Querendo ser digno de sua heroica linhagem huguenote, ele elevou o seu coração a Deus em fervente prece. E assim apaziguado e fortalecido adormeceu enfim, em profundo sono nesta primeira noite nas galeras de Marselha.

Jornal O Estandarte. Ano XXXVI, Nº 10, São Paulo, 08 de Março de 1928, p. 12-13.

CAPÍTULO X
 A VOGA ARRANCADA

    Pela madrugada, a alvorada estridente tocou o despertar. Depois do almoço, duas galeras passaram ao lado da Favorita ao som cadenciado dos seus remos. Cláudio observou que os galés vestiam casacas e bonés azuis.

– Esta é a Comandante, disse Capuchinho, e a outra é a Grande-Real.  Vês aqueles tipos? Eles são mais bonitos do que nós. Eu trocaria de bom grado por aquele pano azul a minha libré de macaco!

    Um assobio agudo, prolongado, interrompeu Capuchinho. Imediatamente os galés despiram a casaca e a camisa. Então soou um novo assobio. Em um abrir e fechar de olhos todos se puseram de pé, descansando um deles sobre o apoio (grossa travessa de madeira presa à banqueta), o outro sobre o banco. A voga ia começar. Tomaram das manilhas; depois, estendendo-se os braços retesados, levaram o remo até junto ao corpo dos seus companheiros do banco vizinho. Com um esforço enérgico
eles o levantaram e com um só golpe e em perfeito conjunto os cento e cinquenta remos feriram ali alguns. Atirando-se então para trás, os galés cabiam sentados no seu banco. Era preciso uma atenção continua para conservar o movimento. Se o golpe falhava, os seis infelizes iam quebrar a cabeça contra o remo que vogava atrás deles.

       Seria impossível imaginar um exercício mais penoso e que mais derreasse que o manejo daqueles formidáveis remos. Em menos de um quarto de hora Cláudio ficou compreendendo o sentido do rifão popular: “Trabalhar como um galé”.

     Tendo-se a Favorita deixado distanciar, os segundo-comitres se esforçaram por acelerar o movimento. Armados de cordas ou de azorrague, eles percorriam a coxia e os golpes cabiam como saraiva. Os oficiais superiores, irritados com o fato de sua galera não conservar o seu posto, gritavam para que os açoites aumentassem. E não foi só uma ou duas horas, porém oito horas consecutivas que durou esta fadiga atroz. Quando enfim o comitre ordenou à meia voga que descansava alternadamente a metade da chusma, Cláudio, meio morto de cansaço, deixou-se cair sobre o seu banco. Capuchinho, com um gesto paternal e de animação, lhe pôs a mão sobre o ombro.

– Hás de te acostumar, camarada. Neste mundo a gente se acostuma com tudo!

– Tarefas como estas são frequentes? Perguntou o Cevenol. Eu não aguento mais!

– Oh, replicou Capuchinho, a primeira vez a gente pensa que não aguentará mais do que meia hora, e acaba por suportar, vogas de dez e doze horas. Uma vez, fugindo de um corsário que nos dava caça, fizemos uma voga de vinte e quatro horas. Até os mais fortes desfaleciam e caíam. Para nos manter em pé, metiam-nos na boca bolachas molhadas no vinho. E as cordas estalavam, e os comitres berravam... Foi uma coisa medonha!

   O rosto de um galé acorrentado a alguma distância tinha impressionado vivamente a Cláudio. Perguntou pelo nome dele. Chamava-se Mauriac.  Era um moço esbelto, de aparência delicada. O seu infamante boné vermelho assentava sobre uma fronte nobre. Seu olhar distinto e seu olhar profundamente triste, fizeram lembrar a Cláudio, Agostinho d’Arville. Um dia em que o jovem desconhecido lançava em torno de si o seu olhar cheio de horror e de apreensão, os olhos de Cláudio e os dele se encontraram. Aquele sorriu-lhe e acenou amigavelmente. Imediatamente os traços ensombrados iluminaram-se, os olhos abatidos brilharam de estranha viveza. Ele reconhecera um irmão de infortúnio. Através do espaço, esses dois corações se tinham encontrado.

Nesse dia a voga foi extraordinariamente rude. Durou longas horas. Foi demasiada para Mauriac. Cláudio que o observava viu-lhe o rosto contraído, a respiração ofegante, a boca a espumar. De repente ele largou o remo e caiu sobre o banco. Sua deserção foi logo notada. Armado da terrível corda, o sub-comitre aproximou-se e açoitou-lhe brutalmente as espáduas nuas. Como o moço não se levantasse, o bárbaro enfureceu-se sobre a sua vítima, berrando e vociferando. Finalmente chamou os seus auxiliares. Cláudio viu o corpo do moço atravessado sobre o banco, a cabeça pendente, desmaiado provavelmente. Viu um dos sub-comitres desacorrentá-lo, e outro trazer uma bala de canhão que lhe ataram aos pés. Um grito de horror escapou-lhe do peito e foi-se perder entre o fragor dos remos. Os sub-comitres levantaram o corpo inerte e, com um gesto brutal, o lançaram ao mar. No mesmo instante um marinheiro tomou o lagar deixado vazio e a galera vogou e as manobras se operaram como se nada houvesse acontecido. Nenhum galé parecia surpreendido nem escandalizado com esta cena atroz. Fazia parte dos acontecimentos diários de sua vida. Tinham visto coisas piores!

   À noite, porém, Cláudio ouviu de um companheiro:

Pobre Mauriac! Foi descansar. Nós outros sabemos bem porque aqui estamos. Mas ele, que fez?

       Por várias vezes Cláudio examinara de longe os seus companheiros de galera, buscando algum rosto conhecido.
Havia acenado a alguns. Um dia ele estremeceu ouvindo o seu nome. Interpelavam-no em língua d’oc, o dialeto familiar das Cevennas.

Noguier, é você!

     Um grupozinho de galés passava sobre a coxia, indo a algum serviço.

Pedro Mazel, meu amigo, meu bom camarada! Exclamou ele pondo-se de pé. Um homem de fisionomia aberta, grisalho, achava-se na sua frente. Os dois amigos trocaram um enérgico aperto de mão. Mas apenas trocaram algumas palavras e já o sub-comitre dava ordem de caminhar.

Até a vista! Disse voltando-se Pedro Mazel.
     
       Cláudio sentiu aquecer-lhe o coração. Não estava mais só. Ele sabia, aliás, que por esse tempo havia nas galeras de Marselha várias centenas de galés huguenotes, compatriotas, irmãos que sofriam as mesmas tribulações e combatiam o mesmo combate. E quantos deles não carregavam, já para quinze, vinte e trinta anos, sem desfalecer, sua pesada cadeia?

     Após várias semanas durante as quais a esquadra, quer toda ela, quer por unidade, nada mais fez senão bordejar ao largo, inquietando com alguns tiros de canhão a costa italiana ou rechaçando para o lado da Espanha algum navio corsário, Cláudio fez em voz alta a seguinte reflexão.

– Pelos milhões de libras que a corte despende anualmente com as galeras; a sua utilidade me parece mínima!

– Ao contrário, são de grande utilidade! Replicou sentenciosamente Capuchinho. Em primeiro lugar elas servem de escoadouro para todos os celerados do reino, e, demais, servem-lhes de espantalho. A cadeia, a roda, a forca, o patíbulo não os amedrontava suficientemente. Foi por isso que inventaram a galera.

    Em fins de agosto, porém, deu-se um incidente que ficou por muito tempo gravado na memória da equipagem da Favorita. Três galeras percorriam o mar alto. Logo no horizonte avistaram-se dois navios à capa, surpreendidos, pela calmaria. Um deles parecia ser um grande navio mercante; o outro, uma fragata, devia servir-lhe de escolta.

   Os navios afastados um do outro cerca de meia légua levavam pavilhão inglês. O navio parecia uma fácil presa. Reuniu-se o conselho de guerra no meio do júbilo das equipagens. Ficou decidido que as galeras, à força de remos, se aproximariam de três lados, far-se-ia a abordagem galhardamente e o navio, pesado demais para ser rebocado, seria entregue à pilhagem. A Favorita devia esporeá-lo de flanco. Carrearam-se todos os canhões.
Granadeiros e soldados, de pé na proa, já se achavam prontos para abordagem, levando na mão a espada nua e a machadinha. O navio parecia em grande aflição; sua equipagem, aterrorizada por esses preparativos ameaçadores, quedava-se. De seus lados, dois canhões de tiro curto produziram hilaridade nos oficiais da Favorita.

      Capuchinho voltava incessantemente para o navio seus olhos cinzentos, perspicazes e inquisidores.

–Tudo isto não me cheira bem, resmungava ele entre os dentes. Camarada, olha só do lado da popa, quanta vela, quanto pano! Não será que estão disfarçando? E nem um gato no tombadilho! Dá para desconfiar!  Os ingleses são uns finórios; eles têm saída para tudo! E nosso capitão que nem mesmo mandou o brigantim para reconhecer!

    A um assobio do comitre de repente levantou-se um clamor. Os berros de várias centenas de galés, agitando suas correntes, era uma coisa pavorosa.  Julgando a equipagem inimiga suficientemente amedrontada, o comandante intimou-a que se rendesse. Mas a resposta foi muito diferente da que esperavam.

     No momento em que a Favorita o tocava com o seu esporão, deu-se um fato extraordinário.

      O navio abriu suas canhoneiras. De todas as escotilhas, uma negra multidão de oficiais invadiu o tombadilho. Os marinheiros puseram em movimento as suas polés. O navio mercante, desmacarando os seus canhões, transformou-se repentinamente em um formidável navio de guerra, cujas descargas  de artilharia, varrendo a coberta das galeras, abatia-lhes os mastros, acifava os aparelhos, punha em postas com a metralha tanto os galés como os oficiais e soldados amontoados nas suas galerias.  Foi um momento de pânico indescritível.

     Só o capitão conservou o sangue-frio. Vendo levantar-se os terríveis guindastes que iam arpoar a sua galera, gritou com voz que dominou o fragor da metralha: “Vou fazer explodir o paiol da pólvora!”

    Esta ameaça surtiu efeito. A manobra parou. No mesmo instante o assobio do comitre ordenou a contra-voga.

   Dar volta teria sido perigosíssimo; a Favorita sob uma espessa fumarada fez marcha ré.

       Para agravar a situação o vento começava a soprar e do horizonte negro e ameaçador, a fragata, abrindo as suas velas vinha em socorro do navio de guerra. Foi um salve-se que puder, geral.

      Não havia tempo para desacorrentar os galés feridos ou mortos, porém eram prontamente substituídos por marinheiros do remo. Então começou a mais terrível voga arrancada (ou voga-forçada) que jamais tiveram de sustentar os condenados das três galeras. Era preciso alcançar antes da noite os bancos de areia onde os navios inimigos, vasos de alto bordo, não poderiam segui-los. Na voga-arrancacada, duplica-se a rapidez do movimento. Por horas e horas afio, a chusma exausta, mantendo as forças a poder de chicote; remou desesperadamente. Finalmente às dez horas nas galeras puderam ancorar em lugar seguro.

    Os sub-comitres transportaram então os fardos para o porão, desacorrentaram os mortos, que eram lançados ao mar pelos robustos turcos. Chicot e dois companheiros foram retirados despedaçados da banqueta onde tinham caído.

– Que felizardos! Disse ofegante Capuchinho, estirando um após outro os seus membros doloridos.

      Ensopados até os ossos, cobertos de espuma, de suor e de sangue, os galés não puderam, tão moídos estavam, vestir as suas roupas. Deixaram-se cair, acocoraram-se como puderam, meio nus, para dormir.

      Cláudio não tinha sido atingido pela metralha. Porém, como seus companheiros, ele estava esfalfado, aniquilado. A única oração que pode articular foi este grito para o Poder infinito: “Oh Deus, tem piedade de mim!” Sua cabeça caiu sobre a coxia, suas pesadas pálpebras fecharam-se e, tomando de um pesado sono, dormiu até pela manhã.

Jornal O Estandarte. Ano XXXVI, Nº 11, São Paulo, 15 de Março de 1928, p. 11-13.

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