quinta-feira, 16 de julho de 2015

Flores do Deserto - NARRATIVA DAS GUERRAS DAS CEVENAS:Cornélie Duval (Capítulo XIV-XVI)



 

CAPÍTULO XIV
A CARTEIRA

      Havia chegado a hora do repouso: as grandes lâmpadas já se tinham apagado sem que Cláudio tivesse achado um momento propício para abrir seu pacotezinho.

        Entretanto a impaciência não o devorava. Ele gozava ao sentir debaixo da mão este pequeno objeto tangível. Meus olhos, dizia ele, contemplaram seu exterior delicioso, porém aqui tenho alguma coisa ainda melhor. Este embrulho contém uma carta. É o seu pensamento, a sua vida profunda que se me revelam. É mesmo o coração dela que aqui sinto junto ao meu!

O dia seguinte foi um domingo. Durante a missa da manhã, Cláudio, envolto no seu capote, meio deitado sobre o banco como os outros huguenotes (1), abriu seu precioso embrulho. Para preservar-se de olhares indiscretos ele tinha levantado como barreira na aba do pano azul. A primeira coisa que lhe apareceu foi a carteira.

         A inscrição bordada sobre veludo escuro pela mão querida – “Vencerás” – soou-lhe como um toque de clarim. Era uma promessa e também uma ordem. Desdobrou a carta, viu o pequeno Evangelho e reconheceu o longo e perseverante trabalho que tudo aquilo representava. No fundo da carteira ele encontrou algumas moedas de ouro. A moça não devia possuir senão a mesada que lhe proporcionava o seu tio. Este ouro seria sem dúvida o preço de mais de um sacrifício de adornos ou jóias. Leu a carta. Toda a confiança, a simpatia, o carinho que transpareciam em cada linha o comoveram profundamente. Do fundo misterioso da sua alma ele sentia como que brotar uma fonte de gozo, duma infinita doçura que se apossava dele penetrando-o todo. Tornou a tomar a carteirazinha, acarinhou-a com os olhos, passou os dedos sobre o veludo. Examinando-a atenciosamente, percebeu que aquilo que ele havia suposto ser um fio de seda era na realidade um fio de cabelo; era um fio luminoso de cabelo da jovem que aureolava a magnífica divisa: “Vencerás”! Leu de novo algumas linhas da carta de Elisabeth que dizia assim: foi de joelhos que pedi a Deus a mensagem que eu devia enviar-lhe. E esta palavra impôs-se-me irresistivelmente no pensamento. Receba-a, pois, como uma promessa direta, um “sursum corda” da parte do Todo Poderoso.

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(1) Um major das galeras, o Sr. de Bombelles, tentara açoitar todos os calvinistas que se recusavam a ajoelhar durante a missa. Porém, cedendo às representações das potências, a corte tolerou uma outra postura. (Nota da Autora).

      Ao seu Evangelho, Elisabeth tinha acrescentado os sete versículos do Apocalipse que começam por estas palavras: “Ao vencedor”... Eles terminam assim: “Ao vencedor, fá-lo-ei sentar-se Comigo no meu trono, assim como Eu venci e sentei-me com meu Pai no seu trono. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”.

     Terminando estas linhas Cláudio sentiu o seu coração como o de um soldado bem armado, bem encouraçado, e que tem nas mãos uma espada invencível. Não temia mais o porvir. Na véspera Pedro Mazel lhe havia passado uma carta de seu irmão Abraão o chefe do Deserto, cheia de perspectivas novas e de firmes e alegres esperanças. Abraão falava dos novos chefes. Roland, Cavalier, que conduziam as tropas deles à vitória. Ele afirmava que quando fosse concluída a paz o primeiro artigo submetido à corte seria a libertação dos condenados da galé. E se a liberdade de culto fosse recusada, insistiriam pela imediata abertura das fronteiras (2).

      Cláudio via o horizonte da sua vida, nebuloso por tanto tempo, colorir-se duma luz maravilhosa. Ela pertencia-lhe. Aquela mão que com tanto amor havia trabalhado para ele, toma-la-ia na sua e não a largaria mais. Juntos afrontariam a pobreza, o sofrimento, o exílio. Mas não, para eles não existiria o exílio. Nem tão pouco sofrimento ou pobreza. Genebra seria a sua pátria, Deus, o amor e a alegria que os uniria seriam a sua riqueza, maior que todos os tesouros da terra!

       Assim sonhava ele enquanto as orações latinas, passando por sobre as cabeças dos galés ajoelhados se iam confundir com o marulho do mar. O padre Lacoste acabara a sua ladainha. Era talvez o melhor - ou o menos mau - dos lazaristas de Marselha. Déspota como todos os seus colegas, apresentava, entretanto ao lado de seu autoritarismo, modos afáveis e uma certa benevolência. Ao passar por Cláudio, ele parou.

Boas notícias? Perguntou ele piscando maliciosamente. Eu vi que você estava lendo durante a missa! E como o Cevenol se mostrasse perturbado, exclamou: – Oh! Não se assuste, eu não vou traí-lo! Somente tome cuidado, meu amigo, cuidado com as esperanças enganosas! O caminho mais curto para a liberdade você já sabe qual é!

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(2) Luís XIV, revogando o edito de Nantes, proibiu ao mesmo tempo a saída dos calvinistas do reino e fortes guardas foram postos nas fronteiras. Se alguém era apanhado tentando atravessá-las, eram os homens levados às galés e as mulheres e crianças levadas aos conventos.  (Nota da Autora)

Jornal O Estandarte. Ano XXXVI, Nº 15, São Paulo, 12 de Abril de 1928, p. 10-11.

CAPÍTULO XV
ABARRACAMENTO DE INVERNO

   Todas as galeras descarregadas do carregamento de pólvora haviam entrado no velho porto. Em frente armaram-se barracas de tábuas. Os galés que praticavam ofícios ocupavam essas barracas durante o dia.

      Porém esses industriais tinham em Marselha uma triste reputação. Os sapateiros falsificavam o couro, os alfaiates roubavam a fazenda. Havia ali trapaceiros, tabeliães para testamentos falsos e atestados falsos, pois que sabiam imitar com perfeição qualquer caligrafia.

     Eles possuíam sinetes de todas as espécies: selos de cidades ou de bispos. Hábeis em falsificar atos autênticos aqueles gatunos trabalhavam barato. Todos eram dolosos.

    Os turcos também traficavam. Alguns vendiam café, fumo, aguardente, outros iam à cidade onde particulares os empregavam em rachar lenha. Os galés que ficavam na galera faziam trabalhos de malha. Os turcos vendiam-lhes o fio que eles pagavam depois com o seu trabalho.

    Porém acontecia frequentemente que algum velhaco vendia o fio e gastava o dinheiro em aguardente. Sob o depoimento do turco, o culpado era inevitavelmente açoitado. Apesar do medo que inspirava esse suplício, a paixão da aguardente em muitos era tão forte que eles preferiam ao trabalho a embriaguez e o açoite.

     Capuchinho, como no inverno precedente, tinha uma loja. Cláudio, por intermédio de Isacoff, o turco do banco, arranjara madeira e alguns instrumentos e fazia brinquedos. Ambos partilhavam da mesma barraca. Foi a poder de dinheiro e de pichéis de vinho que, depois da estada de Cláudio no hospital, Capuchinho conseguiu do  comitre que lhe fosse restituído o seu companheiro.

      Um dia, dois estrangeiros entraram na barraca. Um deles era um major da Grande - Real que Capuchinho conhecia. O outro trazia o uniforme dos dragões do
rei. À primeira vista Cláudio reconheceu o cavaleiro de Gartel.

     O major examinou um cachimbo turco que lhe asseveravam vir diretamente de Constantinopla. Depois passou a mão num pacote de charutos.

– Charutos Havana! Afirmou de novo Capuchinho, aroma suave, gosto delicioso. Importado diretamente das colônias.

         O oficial pagou, mas fez ouvir este áspero remoque:

– Grandíssimo velhaco! Se o diabo te houvesse levado depois da primeira mentira, não estarias mais aí para nos impingir tua bugiganga!

– É verdade! Concordou Capuchinho. Se o diabo usasse desse modo, eu cá não estaria para vender e tão pouco Vossas Senhorias para comprar.

     Sem deixar aos dois oficiais estupefatos de um atrevimento igual o tempo de cair em si, ele prosseguiu
imperturbável:

– Meus senhores, eu possuo, pela graça do céu, o dom de levantar às vezes um canto do véu tlo futuro. Se lhes apraz o consentir, ser-me-ia grande honra! Extrema honra de poder servir nisso a Vossas Senhorias.

– Ele tira a sorte! Exclamou alegremente o major. O patife nos vai prometer mil maravilhas. Vamos ver!

  Ele estendeu a mão. Capuchinho examinava as linhas. Então, tirando do bolso uma caixinha suja, se pôs a virar os ossinhos. Depois de uma série de sinais cabalísticos, ele tomou a palavra. Fez entrever uma herança imprevista, uma fortuna imensa... O oficial com um sorriso de mofa nos lábios lançou sobre a mesa uma moeda de quarenta soldos.

     Capuchinho virou-se para o cavaleiro.

– E a Vossa Senhoria, não lhe poderei servir? Todos gostam, creio eu, de lançar, ainda que não seja senão um olhar, no futuro.

       Cláudio virou-se de leve. Ele não reconhecia o seu camarada. Capuchinho tinha mudado o seu assento e enrolava os r como um verdadeiro meridional.

– O futuro? Pretendes conhecê-lo, velho tonto! Chacoteou o cavaleiro.

Vossa Senhoria duvida? Pois bem, se me permite, comecemos pelo seu passado! Logo ficará convencido.

      Capuchinho voltou aos seus ossinhos, desenrolou um velho pergaminho que chegou ao ouvido. E lentamente, como sob a inspiração de um espírito misterioso, deixou cair as seguintes Sentenças:

Vossa Senhoria tem tido grande sucesso com as damas. Belo, elegante como é, dotado de espírito superior, é muito natural.

     Sim, mui grandes sucessos. Visões passam ante os meus olhos. A primeira que vejo é uma morena filha do Sul, cabelos negros, dentes brilhantes. Depois uma atriz incensada, aplaudida por milhares de admiradores. Eu a vejo a seus pés. Em seguida uma dançarinazinha espanhola, oh! que galante criatura com seus anelados cabelos castanhos e seus olhos que são dois diamantes negros... Agora é uma castelã, alta, esbelta; nos seus dedos brilham a ametista, as mãos cheias de bilhetes perfumados.

       Uma brusca exclamação do cavaleiro o interrompeu.

– Safa! Aqui há deveras feitiçaria!...

– Paciência! Paciência! Prosseguia Capuchinho. Há ainda outras, mas eu não quero fatigar Vossas Senhorias. Chego à última delas. Oh! Que encantadora menina! Uma loira de cabelos de ouro, e de grandes olhos tristes. Porém coisa inconcebível! Esses olhos não se voltam para a sua pessoa: eles olham além...

    Os dois oficiais se tinham aproximando: Não zombavam mais. A fisionomia deles exprimia a mais intensa curiosidade.

– É verdade! Disse o cavaleiro: Agora tu que sabes tudo, explica-me o motivo disto e mostra-me o remédio!

      Capuchinho levou de novo o pergaminho ao ouvido.

– Vossa Senhoria sabe tão bem como eu que um coração de mulher é pequeno demais para conter ao mesmo tempo mais de um sentimento. Assim é com a bela menina loira. O coração dela na hora presente está possuído de dor. A desgraça de um irmão, ela assim o chama, essa desgraça a aflige e acabrunha.

     Quando houver passado este tormento, então talvez, o seu coração se poderá abrir ao amor, mas antes não!

– Ah! Agora compreendo! Compreendo enfim! Murmurou entre os dentes o cavaleiro de Gartel.

– É preciso, continuou Capuchinho, o talismã sempre rente ao ouvido, é preciso afastar o obstáculo. Vossa Senhoria encontrará aí grandes, formidáveis dificuldades. Já outros o tentam e tiveram de reconhecer a sua incapacidade. Mas Vossa Senhoria não se deixará demover. Irá à corte, falará com os ministros, chegará mesmo até a grande favorita que tem em suas mãos o coração do rei e os destinos do reino. Finalmente verá os seus esforços coroados com êxito. Então a loira mimosa, livre da sua aflição e toda vibrando de gratidão, não hesitará mais em cair-lhe nos braços!

     Cláudio levantou-se bruscamente.

– Capuchinho, deixa esses Senhores irem cuidar de seus afazeres! Aí vem o sub-comitre para nos soltar.

    Uma segunda moeda, esta de cem soldos, caiu na escudela de Capuchinho. Quando os dois estrangeiros se afastaram, ele os seguiu com um riso silencioso. Depois voltando-se para  o Cevenol:

– Estás contente comigo? Cláudio não respondeu palavra. Ele havia escondido, alguns dias antes, a Sua carteira na coxia debaixo de um cabo, onde ele supunha que ninguém a descobriria. Via agora que na sua ausência Capuchinho a tinha achado. A carta tinha sido lida. O pensamento de seus tesouros assim profanados foi-lhe extremamente desagradável. Por outro lado o obstáculo o divertia. Tinha vontade de rir e ao mesmo tempo como que o desejo de espedaçar alguma coisa.

– Que é isso, camarada, estás quieto? Que tal se daqui a poucas semanas víssemos chegar da corte uma carta regia?

– Isto não acontecerá! Foi a breve resposta de Cláudio.

– E por que não? Na corte Mme. de Maintenon é toda-poderosa. De mais está claro que a linda moça loira não pagará o resgate. Uma vez livre, tu a raptas! É tão simples.

    Cláudio atirou violentamente sobre a sua banca o objeto que ele tinha acabado, e uma veia azul saltou-lhe na fonte.

– Cala-te! Disse em tom áspero. Eu não te pedi conselho, e meus negócios particulares não são da tua conta!

– Noguier! Que é isso? Exclamou Capuchinho, grandemente surpreendido com este tom a que ele não estava acostumado. És meu melhor camarada, meu único amigo. Agora responde-me: Se te soltam, para quem o proveito: para ti ou para mim?

   Cláudio não tinha encarado esse lado da questão. Sua cólera caiu subitamente.

– Capuchinho, meu velho camarada, perdoa-me! Disse ele com voz de novo acalmada e cordial. Eu sei que me queres muito, que tuas intenções são excelentes. Porém, vê – há coisas que não podes compreender!

     E enquanto o sub-comitre os desencadeava, virou-se para Capuchinho:

– Eu também, quase que estou acreditando que é um tanto feiticeiro... Aquela lista de filha do Sul, de atriz, de dançarina espanhola, onde a foste escarafunchar?

     Capuchinho voltou a sua mímica teatral levantando os braços para o céu:

– Ah! O oficial de dragões, o nobre Senhor de Gartel! Que ingenuidade sob os seus galões e a sua cabeleira! Pois ele não reconhecer seu antigo lacaio, Bertrand, que lhe furtava o vinho, que se enfeitava com suas roupas usadas e lia os seus bilhetes amorosos...

     É verdade que a navalha e a casaca fazem da gente um outro homem!

    Desta vez Cláudio riu a bom rir. Porém seus pensamentos tomaram logo outro rumo. Ela era capaz, para salvá-lo, de sacrificar-se e isto urgia impedir a todo custo.

    À noite, no clarão das lâmpadas, ele traçou algumas palavras a lápis e sobrescritou: À Senhorita d' Arville, end. o Sr. Visconde d’Ormancy. Então avistando o capitão que no momento passava sobre a coxia:

– Senhor; disse ele respeitosamente, dê-me licença de lhe pedir um obséquio: esta carta é importante; fará o Senhor o favor de completar o endereço e de despachá-la?

     O Sr. de Ribeauville no primeiro momento pasmou da ousadia, inteiramente desusada da parte de um galé. Mas o rosto honesto e leal de Cláudio não lhe desagradava. Com um rápido olhar circular certificou-se que nenhum capelão despontava no horizonte e tomou a carta.

– Desta vez eu o farei, disse ele, mas você conhece a ordem! Não repita!

Jornal O Estandarte. Ano XXXVI, Nº 16, São Paulo, 19 de Abril de 1928, p. 12-13.
 
CAPÍTULO XVI

A VISCONDESSA D’ORMANCY

     De pé no terraço do palacete, em frente a um canteiro de rosas tardias em plena florescência, Elisabeth contemplava o mar. De repente ouviu-se um ruído de passos sobre a areia e daí a pouco o cavaleiro estava ao seu lado. Parecia transfigurado.

– Há muito, disse ele, que me admiro de vê-la tão frequentemente triste, pensativa ou preocupada. Ontem enfim achei a chave do mistério. O pedido de seu irmão, seu juramento. O visconde contou-me tudo, e eu compreendo o seu desgosto. Ele disse-me também que desanimado pelo que ouvira do Sr. de Ribeauville desiste da empresa projetada. Pois eu, para vê-la despreocupada e alegre, estou disposto a encarregar-me dela.

O Senhor! Exclamou a moça admirada do que acabava de ouvir. Se lhe tivessem dito que o Rodano retrocedia a sua fonte, não lhe causariam maior admiração.

Sim, eu mesmo! As empresas desse gênero mal logram-se muitas vezes porque os que as compreendem não lhes dispensam todo o cuidado requerido. Não sabem usar dos trunfos. Daqui a poucos dias irei a Paris e é a Mme. de Maintenon que me dirigirei diretamente. Um velho amigo meu que goza das boas graças dessa senhora, se incumbirá da apresentação. Mme. de Maintenon, como a senhora sabe, é toda poderosa na corte: certamente que ela conseguirá a graça do nosso protegido. A senhora concorda? Autoriza-me a pedir, em seu nome, assim como no meu, a libertação de Cláudio Noguier?

      Elisabeth estremeceu... Aquele nome nesta boca!... Cabisbaixa, ela se recolheu por uns instantes.

     A Senhora hesita! Continuou ele com ardor. Então não seria feliz se eu lhe trouxesse uma carta régia com a libertação dele, completa e imediata?

 – Seria bom demais! Balbuciou ela. Eu lhe seria por isso profundamente, infinitamente grata: experimente! O Senhor poderia documentar-se com o Sr. de Lassaulz, juiz do Tribunal de justiça de Alais. Ele lhe fornecerá todos os autos do processo.

     Isso é inútil! Declarou o cavaleiro aprumando-se todo. Não precisamos disso! A única coisa que desejo é um talismã recebido da sua mão que levarei comigo para robustecer o meu ânimo. Porque é possível que se levantem obstáculos, quiçá mesmo formidáveis dificuldades. Elas não me desanimarão. Dê-me veja, minhas pretensões são modestas dê-me simplesmente uma dessas rosas.

     Elisabeth tornou-se escarlate. A rosa, a flor do amor!... Em outras ocasiões ele zombava do cavaleiro. Mas neste momento, sob o seu olhar de fogo, um enfado inexplicável apoderou-se dela.

         E como ela tardasse em obedecer:

Trata-se de salvar um homem! Insistiu ele, de livrá-lo, de libertá-lo do seu inferno...

     Então resolutamente ela quebrou um galho que lhe magoou os dedos, e sem olhar para ele apresentou-lhe a flor aberta.

    E fugiu. O coração se lhe apertava de angústia como ao pássaro que, adejando, ainda sente estreitar-se em torno de si o laço do passarinheiro. Seria isto uma expiação?

      Daí a uma hora partia a cavalo o Sr. de Gartel. À tarde, à hora do jantar, o porteiro do palacete entregou uma carta à viscondessa.

É para você, Elisabeth, disse Laura examinando-a. Que carta esquisita! O endereço é a lápis e traz o carimbo do porto. Pensei que você não conhecesse ninguém ali!

    Elisabeth abriu-a com precipitação. Correu os olhos sobre a mesma e forçada por várias perguntas acabou por a ler em voz alta.

           O bilhete dizia o seguinte:
        
        “Senhorita,

        Queira desculpar a ousadia de dirigir-me diretamente à Senhora. Agradeço-lhe a lembrança de uma tentativa em meu favor. Porém, conforme a senhora ouviu do nosso capitão Sr. de Ribeauville, ela é fadada ao insucesso. Entretanto peço-lhe agradecer por mim e de todo coração ao Sr. Visconde d’Ormaney. É possível que mais alguém lhe proponha interceder na corte. Nesse caso eu lhe suplico que responda por uma negativa clara e formal.

     Não é por aí que nos virá a libertação. A nossa libertação, nós galés huguenotes a esperamos unicamente de Deus que dará vitória às armas camisardes. Creia-me, Senhorita, seu muito humilde e respeitoso criado Cláudio Noguier”.

Cabeça de burro! É isso mesmo! Disse o visconde com uma risada grosseira.

     Mas não escreve mal o seu protegido. É curioso!

     Disseram-me que esses montanheses eram todos iletrados.

Mas que quer ele dizer? Que alusão é essa a uma outra pessoa ? Perguntou Laura intrigada. Alguém lhe propôs ocupar-se desse negócio?

     Elisabeth contou-lhes a conversa que tivera pela manhã com o cavaleiro.

      O visconde e a viscondessa olhavam um para o outro grandemente admirados.

Você compreende o que ó isso? Perguntou enfim a moça ao marido.

Absolutamente! Assim como para você, para mim tudo isto é inexplicável.

     Sim, Elisabeth enfrentava um mistério... Entretanto seu rosto estava como que iluminado. A carta com um traço agudo como um golpe de canivete havia rompido o laço. O pássaro podia abrir as asas e voar para o céu.
O Senhor tem o endereço do cavaleiro! Perguntou ela.

– Esta noite ele estará em Uzés, amanhã em Lião, mas onde encontrá-lo nessas cidades? Eu sei que em Paris ele se hospeda com o marquês de la Vrilliére, antigo ministro de Estado. Enderece a sua carta para ali.

     Findo o jantar, Elisabeth tomou da pena e em termos não menos formais que os da carta que a libertara, pedia ao Sr. de Gartel que não desse seguimento ao seu propósito.

   Ela veio a saber mais tarde que ele, sem prestar atenção a sua retratação, havia posto em movimento a corte e por vezes se abeirara de Mme. de Maintenon.

     A grande dama, aceitando as suas homenagens, lhe prodigalizara sorrisos e promessas. Porém, como não cumprira nenhuma delas, ele nunca teve a glória de depositar aos pés de Elisabeth a famosa carta régia, e secretamente queria mal ao velho feiticeiro da barraca que tão escandalosamente se divertira à custa dele.

     Terminada a cura dos banhos, Laura insistiu por levar Elisabeth ao seu castelo d’Ormancy, ao que o Sr. des Ponts-Marceaux, previamente consultado, deu seu consentimento.

        Para festejar o aniversário de esposa o visconde dava um grande sarau.

– Mas eu não tenho traje adequado! Protestou a moça.

– Você escolherá um vestido no meu guarda roupa; somos do mesmo porte. Deixe estar que eu me encarrego de enfeitá-la!

    Na manhã do grande dia Laura foi presenteada pelo marido com um suntuoso agasalho de peles. Em vez de abraçá-lo e de agradecer afetuosamente, ela apenas articulou um seco obrigado e retirou-se para a janela com ar amuado. O visconde olhou para Elisabeth, sorriu de modo significativo, levantou os ombros... Em seguida, com gesto resoluto, tomou o chapéu e saiu.

       Laura, que é isso! Exclamou a moça.

– Não sabe o que é? Pois bem! Eu vou explicar e aí você mesmo julgará. Eu tinha pedido, como presente de aniversário, um adereço de brilhantes: E eu o experimentei no joalheiro, e era de um efeito maravilhoso nos meus cabelos pretos. Mas o visconde achou-o caro demais. Entretanto alguns poucos mil francos, o que é isso para ele? Uma ninharia! Quando de trata dos seus prazeres, dos seus banquetes, ele não tem medo de fazer correr o ouro, mas, quando se trata da sua mulher, aí é diferente!

    Estas últimas palavras foram seguidas do um soluço e de um gesto trágico. Nesse momento ouviu-se uma leve pancada na porta. Era a ama que costumava a essa hora trazer à mãe o pequenino confiado aos seus cuidados.

       A viscondessa comprazia-se em ocupar-se do filho uma meia hora por dia. Quando se enfadava dele, ela o largava sobre o sofá em meio das almofadas. Vendo aproximar-se a ama, teve um gesto de impaciência:

– Leve-o embora! As choramingas dele me cansam e irritam-me os nervos!...

        Elisabeth interveio e tomou o menino nos braços. Lembrou-se que sua prima como menina recebia sempre com entusiasmo uma boneca nova, porém ao cabo de poucos dias a jogava a um canto e não pensava mais nela. Seria que a esta infeliz criancinha estava reservada a mesma sorte? Ela contemplava-a com enternecimento
Unido à tristeza.

– Como é que a gente se pode dizer infeliz quando possui um tesouro igual? é tão bonito cultivar flores, ver dia a dia os galhos crescerem e abrirem-se os botões! E quanto mais interessante não é seguir o desenvolvimento dessa flor viva que é uma criança!

– Que lirismo! Disse a viscondessa. É verdade que em menina você fazia versos... Quanto a mim, vivo na prosa. Este menino não tem nada de mim: olhe essa testa, esses olhos, esses lábios grossos. Parece-se com ele!

      E longamente se pôs a enxugar os olhos com o lenço.

– Se eu lhe contasse tudo, você veria, compreenderia enfim quanto sou infeliz. Até me ponho a duvidar se algum dia ele me amou! Ele só gosta da mesa, de seus amigos, de seus cães, e nem sei se devo dizer... de mulheres! Sim, minha querida, tenho prova... Eu sei que ele entretém relações, que faz presentes... mas esses? De outro preço que não é este miserável agasalho. Que o leve embora! Eu nunca o vestirei!

– Laura, Laura, você está falando como criança! Você devia procurar ganhar de novo o coração de seu marido pela alegria, pelo carinho afetuoso. Mostre-se atraente, graciosa; você pode sê-lo. No seu lugar eu teria admirado, experimentado o agasalho e teria beijado meu marido e lhe mostrado toda a minha gratidão.

– Minha gratidão! Bradou Laura, amarga e zombeteira, ora essa! À volta dele prostro-me a seus pés, confesso o meu arrependimento e minha eterna gratidão! É isso?

        Os prantos redobraram:

– Escuta, disse Elisabeth brandamente. Resta-lhe ainda muita coisa para encher a sua vida. Você tem a sua casa para cuidar, seu filhinho tão galante, suas prendas de salão. Sua mãe, minha boa e querida tia, tinha em conta do maior gozo ocupar-se dos pobres e dos doentes. E que eu saiba não há falta deles na grande propriedade d’Ormancy

        Lauro deu um profundo suspiro.

– Minha mãe tinha cinquenta anos. Quando eu tiver a idade dela, é possível que eu ache prazer em andar por: montes e vales a visitar as choupanas. Por enquanto não acho graça nisso.

     Elisabeth viu que era inútil prosseguir a conversa. O ar estava tépido, um sol alegre fendia as nuvens.

     Conservando nos braços a criancinha que ria e soltava sons alegres movendo as mãozinhas, ela se foi a dar uma volta pelo jardim.

Jornal O Estandarte. Ano XXXVI, Nº 17, São Paulo, 26 de Abril de 1928, p. 13-14.

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