sábado, 12 de setembro de 2015

ORIGEM DO NOME PROTESTANTE





     De um protesto solene em prol da liberdade de consciência devia receber a Reforma o nome que caracteriza o seu papel na história.

    Corria o ano de 1529. Acabava de baixar ao túmulo Frederico, o magnânimo, príncipe da Saxônia, protetor de Lutero.

     Graves acontecimentos tinham, na Alemanha, enfraquecido a Reforma e o prestígio de Lutero, tais como a desinteligência dos príncipes, a revolta dos nobres e a dos camponeses, a dissensão entre os próprios Reformadores.

     De outro lado, novos sucessos vinham fortalecer seus adversários. Chegara o imperador Carlos V ao auge de seu poder. Triunfara, em Pavia de seu rival, Francisco I, rei de França, que “tudo perdera, exceto a honra”; repelira o turco nas fronteiras orientais.

    Entretanto, por um ato inesperado da Providência, a borrasca, que devia alagar a Reforma, desabou sobre o Vaticano.

     Indignado com a política traiçoeira do papa Clemente VII, Carlos V anulou os decretos da dieta de Worms (1521), e concedeu na dieta de Espira de 1526 amplas regalias aos partidários da Reforma. Capitando assim o apoio deles invadiu a Itália com um exército composto de alemães e espanhóis, em 1527. Tomou Roma de assalto; o papa refugiou-se no Castelo de Santo Ângelo, e a cidade foi, por dez dias, entregue ao saque, que nada poupou. Foi só depois de terem arrecadado um despojo de dez milhões de escudos de ouro, e sacrificado de cinco a oito mil vidas, é que “a ordem e a paz começaram a se restabelecer um pouco”.

     Vencido, humilhado e prisioneiro, pagou o papa o resgate de quatrocentos mil ducados, e, a 29 de Junho de 1528, assinou com o Imperador o Tratado de Barcelona, que encerrava o compromisso básico de destruir a Reforma. A esse fim foi convocada a segunda Dieta de Espira para 21 de Fevereiro de 1529. O momento era de angústia; pairava no ar séria ameaça.

     Ia a Reforma acrisolar-se no cadinho de terríveis privações. Contra ela mancomunavam-se, em pacto sangrento, os dois despotismos que dominavam a Europa, sem contraste. “Funestos presságios agitavam os espíritos. Em pleno Janeiro, uma grande luz iluminava repentinamente noite profunda”, escreve D’Aubigné. Ordens terminantes do Imperador ao rei Fernando, seu irmão que em seu nome devia presidir a Dieta, anunciavam a abolição das regalias concedidas pela Dieta de Espira de 1526 e a restauração do Edito de Worms de 1521. Eram cassados todos os decretos de tolerância, todas as garantias aos reformadores; era proibida a pregação da Palavra de Deus, a propaganda do Evangelho e retirada, sob severas penas temporais, toda liberdade de consciência.

    O rei Fernando, da Hungria, irmão de Carlos V, publicou, como nos conta D’Aubigné, a seguinte tarifa de crimes e penas:

Crimes                                             Penas

Deixar de ir à confissão                  Prisão, multa

Falar contra o purgatório               Banimento

Falar contra os santos                 Prisão, banimento e outras penas

Dizer que Maria era mulher como as outras   Castigo corporal, confiscação ou morte

Tomar a Santa Ceia à moda herética                    Idem; e confiscação ou arrazamento da casa onde tivesse sido celebrada a Ceia

Consagrar o sacramento sem ser padre romano   Morte pela espada, pela água ou pelo fogo

Negar a humanidade ou divindade de Cristo        Morte pelo fogo


      Diante desta intolerância papista, ameaças e franco despotismo, ao lado de promessas e solicitações, alguns príncipe, como soe acontecer, amedrontados, bandearam-se, e uma maioria subserviente revelou, na Dieta, a extrema arrogância e violência do partido católico-romano.

    Nesta atmosfera borrascosa, pejada de raios, ergue-se, entretanto, intrépida a minoria, composta de príncipes e representantes das cidades imperiais, e perante a Dieta lavra imortal protesto, em nome da liberdade da consciência iluminada pela Palavra de Deus, contra a revogação do decreto de tolerância da Dieta anterior e contra a anulação das formais promessas da palavra imperial. 

     Eis o protesto em sua íntegra:

     “Caros senhores, primos, tios, e amigos! Tendo vindo a esta Dieta, por convocação de S. Majestade e para o bem comum da cristandade, temos ciência de que as decisões da última Dieta, concernentes a nossa fé cristã, deverão ser suprimidas e substituídas por outras resoluções restritivas e embaraçosas.

    Entretanto, o rei Fernando e outros comissários imperiais, impondo os seus selos ao último decreto de Espira, haviam prometido, em nome do Imperador, cumprir sincera e inviolavelmente tudo quanto aí se continha e não permitir nada que lhe fosse contrário. E do mesmo modo, vós e nós, eleitores, príncipes, prelados, senhores e deputados do Império, nós nos comprometemos então a manter sempre, e com todas as nossas froças, todos os artigos deste decreto.

    Nós não podemos, pois, consentir em que ele seja suprimido.

      Não o podemos, primeiro, porque cremos que S. Majestade Imperial, bem como vós e nós somos chamados a manter com firmeza o que foi unânime e solenemente resolvido.

    Não o podemos, em segundo lugar, porque se trata aí da glória de Deus e da salvação das almas, e porque em tais assuntos devemos olhar antes de tudo o mandamento de Deus, que é o Rei dos reis, o Senhor dos senhores; tendo cada um por si de dar conta, sem de nenhum modo nos importarmos com maioria ou minoria.

     Não formulamos nenhum juízo, caríssimos senhores, sobre o que vos diz respeito: e nos contentamos em orar diariamente a Deus que nos faça a todos nós chegar à unidade da fé, na verdade, caridade e santidade, por Jesus Cristo, nosso trono de graça e nosso único Mediador.

     Pelo que nos diz respeito, porém, aderir à vossa resolução (julgue-o todo o homem honesto) fora agir contra a consciência, condenar uma doutrina que achamos cristã, e declarar que deve ela ser abolida em nossos Estados, se o pudéssemos fazer sem dificuldade. Seria isso negar a nosso Senhor Jesus Cristo, rejeitar Sua santa Palavra, e lhe dar justos motivos para que Ele nos renegue, por Seu turno, diante de Seu Pai, como nos ameaçou.

     Que! declararíamos, aderindo a este decreto, que, quando o Deus Todo-Poderoso chama um homem a Seu conhecimento, não é este homem livre para receber o conhecimento de Deus! Oh! de que mortais queda não nos tornaríamos deste modo cúmplices, não somente entre os nossos súditos, mas também entre os vossos!

     É esta a razão porque rejeitamos o jugo que se nos impõe.

    E, embora seja universalmente conhecido que, em nossos Estados, o santo sacramento do corpo e do sangue de Nosso Senhor é convenientemente administrado, não podemos aderir ao que propõe o decreto contra os sacramentários, uma vez que deles não falava a convocação imperial, nem foram eles ouvidos, além de que não de podem decidir pontos tão importantes antes do próximo concílio.

    De mais, estabelecendo o novo decreto que devem os ministros ensinar o santo Evangelho, explicando-o conforme os escritos aceitos pela santa Igreja Cristã, julgamos que, para que esta regra tenha algum valor, necessário seria que estivéssemos de acordo sobre o que se estende por esta verdadeira e santa Igreja. Ora, uma vez que há sobre este ponto grandes dissentimentos; que não há doutrina certa senão aquela que é conforme a Palavra de Deus; que o Senhor proíbe ensinar diferentemente; que cada texto da Escritura Sagrada deve ser explicado por outros textos mais claros; que este Santo Livro é, em todas as coisas, necessário ao cristão, fácil e próprio para dissipar as trevas, nós estamos resolvidos, com a graça de Deus, a manter a pregação pura e exclusiva de Sua só Palavra, tal como é contida nos livros bíblicos do Velho e do Novo Testamento, sem nada lhe ajuntar, que lhe seja contrário.

    Esta Palavra é a única verdade; e ela a norma segura de toda doutrina e de toda vida, e não pode jamais falhar ou enganar.

    É por isso, caríssimos senhores, tios, primos, amigos, que cordialmente vos suplicamos que pondereis com cuidado nossas queixas e nossos motivos. Mas, se vós não atenderdes a nossa petição, nós PROTESTAMOS, pelas razões expostas, diante de Deus, nosso único Criador, Conservador, Redentor e Salvador, e que será um dia nosso juiz, e diante de todos os homens e todas as criaturas, que não consentimos, nem aderimos, de maneira nenhuma, por nós e pelos nossos, ao decreto proposto, em tudo o que for contrário a Deus, à Sua Santa Palavra, a nossa boa consciência, a salvação de nossas almas e ao último decreto de Espira. 

    Ao mesmo tempo nos persuadimos que S. Majestade Imperial procederá para conosco como um príncipe cristão que ama a Deus acima de tudo, e nós nos declaramos prontos a lhe prestar, assim como a vós todos, graciosos senhores, toda a atenção e toda a obediência, que são nosso justo e legítimo dever.

     Foi lavrado este célebre Protesto a 24 de Abril de 1529, e assinado por seis príncipes e quatorze cidades, seguintes: João, eleitor de Saxe, Jorge, margrave de Brandeburgo; Ernesto e Francisco, duques de Luneburgo; Phillipe, landegrave de Hesse, e Wolfang, príncipe de Anhalt; e as cidades: Estrasburgo, Nurenberg, Ulm, Constança, Lindau, Memmingen, Kempten, Nordlingen, Keelbronn, Reutingen, Issny, Wissenburgo e Winshein.

     Neste heróico protesto temos a nobre origem do nome de protestante dado aos adeptos da Reforma, e de protestantismo ao movimento reformado.

    É, pois, o nome, no decurso das gerações, o depositário histórico de uma afirmação soleníssima da liberdade de consciência, centro e vida de todas as liberdades; é a repulsa firme e magnânima da intrusão do poder civil e do poder eclesiástico na esfera sagrada dos direitos inalienáveis da personalidade humana. É, mas, porventura: é a afirmação sublime da soberania exclusiva de Deus e de Sua Palavra infalível sobre a consciência moral do homem.

     Foi um protesto de fé, antes que de política. Nos seus escudos e nos braços de seus servidores, traziam esses nobres paladinos dos direitos do homem, na esfera temporal e espiritual, a insígnia divina – V. D. M. AE. – que significa: Verbum Domini manel in ceternuma Palvra de Deus permanece para sempre (1 Pedro 1:25). Neste lema sagrado temos o segredo do seu heroísmo.

    [...]

      Do nome protestantismo tem-se dito que a Reforma é meramente negativa. Mero sofisma de advogados em apuros. O negativismo é estéril, e só a fé positiva, que resplandece nesse documento, que penetra e inspira cada uma de suas expressões, é que pode explicar a robustez vital das raças, que abraçaram a Reforma. Quatro séculos de vida intensa dos povos reformados insurgem contra a falaciosa alegação.

[...].

 Eduardo Carlos Pereira.
Do “Problema Religiosos da América Latina”

In: JORNAL A PENNA EVANGELICA.
ANO III, Nº 86. CUIABÁ-MT, 25 DE FEVEREIRO DE 1928.

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