sábado, 30 de abril de 2016

SUA MAJESTADE O ÁLCOOL – (Catulle Mendes)



 Conheceis-me?... Eu sou o príncipe de todas as alegrias, o companheiro de todos os gozos modernos, o mensageiro da morte, o princípio que governa o mundo.

Estou presente em todas as cerimônias e nenhuma reunião se efetua sem a minha presença.

Fabrico os crimes, faço nascer nos corações os pensamentos maus, mancho os lugares, sou pai dos filhos sem pai, enveneno a razão, trago o envelhecimento, a depravação, os suicídios, a loucura, o crime em todas as suas formas imagináveis.

Acabo com as famílias, persigo os avós nos netos, faço perder a vergonha, a dignidade, a honra e a boa educação.

Ponho um véu sobre os olhos, sobre a consciência, e faço aparecer o crime como vingança, a abjeção como dignidade, a imortalidade como conquista galante.

Hei ganhado mais vitórias que Alexandre, hei jungido mais povos a meu carro que Roma, hei dominado mais povos que Átila.

Faço que os maridos se riam da infidelidade da esposa alheia, trabalhando vicioso para a ruína de sua própria pessoa; por minha causa os moços e os velhos se divertem fazendo epigramas contra a moral e a religião.

Faço deputados obtendo-lhe votos para que façam leis que aumente meu reino, que é de toda terra.

Aspiro a converter o mundo em um hospital, em um manicômio, e em circo, onde estejam encerrados tigres, asnos, porcos, falcões e abutres; quero sangue, desolação, ruína, leviandades, rancores, guerras, desesperos e blasfêmias.

Estou em todas as partes: conheço as frias regiões da Lapônia e Sibéria; as ardentes regiões do Egito e da Líbia; tenho origem no trigo, arroz, no milho, as cevadas, no suco da uva, na vide, no leite; minha pátria é a terra, meus escravos os homens, os que me enviam o príncipe do mal.

 Sei que me conheceis, porém não quero declarar meu nome, porque todavia vos resta o pudor dos homens, já que haveis perdido o dos fatos.

Eu sou vosso rei.
Eu sou...
D. Álcool

Jornal O Puritano.  Ano XII, Nº 579.
Rio de Janeiro, 19 de Janeiro de 1911, p. 6.

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